Dinheiro compra mansões, carros, festas e prestígio. O problema começa quando alguém acredita que também pode comprar de volta o tempo perdido.
Ambientado na Nova York de 1922, “O Grande Gatsby” acompanha Nick Carraway (Tobey Maguire), um jovem que chega a Long Island para trabalhar no mercado financeiro e acaba vizinho do misterioso milionário Jay Gatsby (Leonardo DiCaprio). Cercado por festas gigantescas e histórias sobre a origem de sua fortuna, Gatsby guarda um objetivo bastante pessoal. Ele deseja reencontrar Daisy Buchanan (Carey Mulligan), antiga paixão que agora está casada com o poderoso Tom Buchanan (Joel Edgerton). É Nick quem acaba abrindo a porta para essa aproximação.
Dirigido por Baz Luhrmann e baseado no romance de F. Scott Fitzgerald, “O Grande Gatsby” leva para a tela uma história de amor marcada por dinheiro, ambição e uma ideia perigosa de felicidade. Gatsby acredita que, depois de conquistar riqueza suficiente para entrar em um mundo que antes lhe era fechado, poderá recuperar também a mulher que perdeu. A conta seria simples se sentimentos obedecessem à mesma lógica das propriedades e contas bancárias.
Um vizinho difícil de decifrar
Nick Carraway chega a West Egg tentando começar uma nova etapa da vida. Sua pequena casa fica ao lado da enorme propriedade de Gatsby, onde música, bebida e convidados tomam conta das noites. Há uma curiosidade especial em torno do anfitrião. Muita gente frequenta suas festas sem sequer conhecê-lo e os boatos sobre seu passado circulam com mais facilidade do que qualquer informação confiável.
Do outro lado da baía vive Daisy, prima de Nick. Ela mora com Tom Buchanan, homem rico, seguro da própria posição social e acostumado a agir sem grande preocupação com as consequências. Tom mantém um relacionamento extraconjugal com Myrtle Wilson (Isla Fisher), casada com George Wilson (Jason Clarke), dono de uma oficina. Logo fica evidente que os casamentos daquele grupo têm rachaduras bem anteriores à chegada de Gatsby.
Nick observa tudo com a vantagem e o desconforto de quem está próximo o bastante para entrar nas casas, mas ainda distante daquele estilo de vida. Tobey Maguire interpreta o personagem com certa ingenuidade, algo útil para uma história em que quase todo mundo parece esconder alguma coisa. Por meio dele, o espectador também começa tentando descobrir quem é Gatsby e por que um homem cercado de tanta gente parece viver esperando apenas uma pessoa.
Gatsby finalmente revela seu plano
Leonardo DiCaprio surge como Gatsby misturando segurança, charme e uma vulnerabilidade que aparece sempre que Daisy entra na conversa. Aos poucos, Nick descobre que as festas grandiosas não existem apenas pelo prazer de receber desconhecidos. Gatsby mantém viva a esperança de que Daisy atravesse algum dia os portões de sua mansão.
Os dois tiveram um romance anos antes, quando Gatsby ainda não possuía dinheiro nem posição social. Enquanto ele esteve longe, Daisy seguiu a própria vida e se casou com Tom. Gatsby, porém, preservou aquela relação quase intacta na memória. Sua fortuna lhe deu uma casa diante da residência dos Buchanan e a possibilidade de circular entre pessoas que anteriormente estavam fora de seu alcance. Faltava chegar novamente até Daisy.
É aí que Nick deixa de ser apenas testemunha. Gatsby pede sua ajuda para organizar um encontro com a antiga namorada. A situação tem algo de engraçado porque o homem capaz de reunir centenas de convidados em festas extravagantes fica nervoso diante de uma conversa particular. DiCaprio aproveita essa contradição para tirar Gatsby do pedestal. Por alguns minutos, o milionário cercado por mistério parece apenas um sujeito apavorado com a possibilidade de reencontrar alguém que nunca esqueceu.
Daisy volta para perto
Carey Mulligan interpreta Daisy sem transformá-la apenas na paixão idealizada de Gatsby. Ela está inserida em uma vida confortável, tem uma filha e mantém um casamento problemático com Tom. Ao reencontrar o antigo namorado, precisa lidar com sentimentos que pertencem ao passado e com uma realidade muito diferente daquela em que os dois se conheceram.
Gatsby recebe essa aproximação com uma expectativa gigantesca. Para ele, dinheiro e status significam mais do que conforto. São provas de que agora possui aquilo que lhe faltava quando conheceu Daisy. Sua mansão, suas roupas, seus carros e suas festas fazem parte dessa tentativa de demonstrar que finalmente pode oferecer a vida que acredita ser necessária para tê-la ao seu lado.
A diferença entre os dois aparece justamente aí. Daisy reencontra um homem que amou. Gatsby reencontra também uma ideia que alimentou durante anos. Ele quer recuperar uma relação interrompida e acredita que o passado pode ser reconstruído desde o ponto em que parou. O problema é que Daisy viveu todos aqueles anos que ele gostaria de apagar.
Tom entra na disputa
Tom percebe a proximidade entre a esposa e Gatsby e começa a investigar quem é aquele novo rico que apareceu cercado de luxo. Joel Edgerton faz do personagem uma presença desagradável sem precisar transformá-lo em vilão de desenho animado. Tom é arrogante, infiel e possessivo, mas sua reação também nasce do medo de perder uma posição que sempre tratou como garantida.
A rivalidade entre os dois homens traz para “O Grande Gatsby” uma das diferenças centrais daquele universo. Tom nasceu dentro da elite. Gatsby precisou acumular dinheiro para entrar nela. Um considera seu lugar natural. O outro passou anos construindo uma vida que pudesse colocá-lo diante de Daisy em condições diferentes das que possuía quando era jovem.
Baz Luhrmann leva essa diferença para a aparência de “O Grande Gatsby”. A câmera passeia por festas lotadas, taças, carros, ternos, vestidos, música e enormes propriedades. O excesso combina com Gatsby porque quase tudo ao redor dele parece pensado para provar que chegou a algum lugar. Curiosamente, quanto maior fica a demonstração de riqueza, mais simples parece aquilo que ele deseja. Gatsby quer que Daisy faça uma escolha que nenhum dinheiro consegue garantir.
O passado cobra seu preço
É nesse ponto que “O Grande Gatsby” ganha força além do romance. Fitzgerald escreveu uma história profundamente ligada ao sonho de ascensão nos Estados Unidos, e Luhrmann preserva essa relação mesmo apostando em um espetáculo bastante moderno. Gatsby conseguiu dinheiro suficiente para atravessar barreiras sociais, mas continua dependendo da aceitação de pessoas que pertencem àquele círculo desde o nascimento.
DiCaprio sustenta bem essa mistura de vitória e fragilidade. Gatsby pode controlar uma festa inteira, escolher quem entra em sua propriedade e impressionar desconhecidos, mas perde boa parte dessa segurança quando Daisy está diante dele. Há alguma coisa triste nesse homem que conquistou quase tudo enquanto permanecia emocionalmente preso a uma lembrança.
“O Grande Gatsby” mostra que o luxo deixa de ser decoração e passa a revelar o tamanho da expectativa de seu protagonista. Gatsby construiu uma vida enorme para recuperar uma relação antiga. Nick, inicialmente fascinado por aquele universo, passa a conhecer as pessoas escondidas atrás das fachadas impecáveis. E Daisy deixa de ser apenas uma lembrança distante para ocupar novamente um lugar real, com desejos e escolhas próprias.
A adaptação de Baz Luhrmann é sedutora porque oferece uma história fácil de acompanhar por baixo de toda a extravagância. Um homem ama uma mulher, perde essa mulher, fica rico e acredita que finalmente possui condições de recuperá-la. Parece simples. “O Grande Gatsby” passa boa parte de suas duas horas mostrando por que nunca foi.

