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Uma mulher entra voluntariamente em um hospital psiquiátrico para investigar uma morte e acaba tendo de provar que sabe exatamente por que está ali. Lançado em 2022 e ambientado na Espanha dos anos 1970, “As Linhas Tortas de Deus” acompanha Alice Gould (Bárbara Lennie), uma investigadora particular que se interna fingindo sofrer de paranoia. Seu objetivo é descobrir o que aconteceu com um paciente morto dentro da instituição. O problema começa quando médicos passam a afirmar que Alice não está fingindo coisa alguma.

Dirigido por Oriol Paulo, o longa adapta o romance de Torcuato Luca de Tena e mistura investigação policial, drama e suspense psicológico. A ideia é simples o bastante para fisgar logo nos primeiros minutos. Alice acredita ter entrado no hospital por vontade própria e por motivos profissionais. Parte da equipe médica, porém, possui documentos que contam uma história diferente. De repente, encontrar um possível assassino deixa de ser sua única preocupação. Ela também precisa convencer outras pessoas de que continua lúcida.

Uma investigadora dentro do hospital

Alice Gould chega à instituição com postura firme, vocabulário preciso e uma segurança que dificilmente combina com a imagem que se costuma criar de uma paciente em crise. Bárbara Lennie aproveita essa contradição desde o início. Alice observa os demais internos, faz perguntas, presta atenção à rotina do lugar e tenta reunir informações relacionadas ao caso que a levou até ali.

Seu plano parece bem calculado. Ela teria combinado a internação para circular pelo hospital sem despertar suspeitas e investigar a morte de um homem que estava sob os cuidados da instituição. O problema é que, depois de admitida, Alice perde boa parte da autonomia que possuía do lado de fora.

As portas estão fechadas. Há horários, regras, médicos e funcionários responsáveis por decidir onde cada paciente pode ficar. Até uma conversa aparentemente banal pode ganhar outro significado quando registrada num prontuário.

Essa situação torna a investigação especialmente desconfortável. Alice pode dizer que está trabalhando, mas precisa convencer pessoas que possuem autoridade legal e médica sobre ela. Quanto mais insiste que é investigadora, maior fica a dúvida sobre sua história.

Samuel Alvar entra na disputa

A situação se complica quando Samuel Alvar (Eduard Fernández), diretor do hospital, passa a ocupar papel decisivo na permanência de Alice. Ele conhece os documentos relacionados à paciente e não demonstra disposição para aceitar sem questionamentos a versão apresentada por ela.

É aí que “As Linhas Tortas de Deus” encontra sua parte mais interessante.

Alice diz que entrou no hospital para investigar um crime. Samuel possui informações que colocam essa afirmação sob suspeita. Os dois falam com convicção, e o espectador fica preso entre versões incompatíveis.

Monserrat Castell (Loreto Mauleón), médica da instituição, também participa desse ambiente em que cada comportamento pode ser observado por diferentes ângulos. Para Alice, suas atitudes possuem uma razão lógica. Para quem avalia sua condição mental, os mesmos gestos podem adquirir outro significado.

O roteiro trabalha essa diferença sem transformar Alice em uma personagem passiva. Ela continua perguntando, observando e buscando informações sobre a morte que pretende esclarecer. A questão é que agora precisa investigar enquanto protege a própria credibilidade.

Quem está contando a verdade

Oriol Paulo constrói boa parte do suspense em torno dessa pergunta. Alice parece inteligente, preparada e perfeitamente capaz de explicar sua presença no hospital. Há, entretanto, registros e depoimentos que dificultam aceitar sua história sem reservas.

Bárbara Lennie é fundamental para sustentar essa incerteza. A atriz interpreta Alice com confiança suficiente para fazer o público acreditar nela, mas sem eliminar pequenas brechas que permitem a desconfiança. É uma personagem que raramente parece intimidada, mesmo quando sua liberdade depende da decisão de outras pessoas.

Eduard Fernández segue caminho diferente com Samuel Alvar. Ele fala a partir da posição de quem administra o hospital e possui acesso a informações que Alice não controla. Isso cria uma disputa especialmente eficiente porque nenhum dos dois precisa levantar a voz para tornar a situação tensa.

O filme passa então a trabalhar com duas investigações paralelas. Alice procura pistas sobre uma morte ocorrida na instituição. O espectador, por sua vez, começa a investigar Alice.

O hospital muda as regras

A ambientação também ajuda bastante. O hospital psiquiátrico ocupa quase toda a história e cria uma sensação permanente de confinamento. Alice entrou ali acreditando que poderia circular entre pacientes e buscar respostas, mas logo percebe que seu acesso depende das pessoas que controlam a instituição.

Essa escolha dá ao suspense uma particularidade interessante. Em muitos mistérios, o investigador possui liberdade para seguir pistas, conversar com testemunhas e abandonar um lugar quando quiser. Alice não tem esse privilégio. Ela procura informações enquanto também aparece nos registros médicos do hospital.

Os outros pacientes tornam essa experiência ainda mais imprevisível. Alice precisa conviver com pessoas que possuem diferentes condições e histórias, enquanto tenta separar informações úteis de situações que pouco ajudam sua investigação. Paulo permite que esses personagens tenham espaço sem transformar o hospital em simples cenário assustador.

Há humanidade naquela convivência. Também existe desconforto, porque Alice nunca sabe exatamente quais atitudes serão vistas apenas como parte de seu trabalho e quais poderão fortalecer a avaliação de que ela precisa permanecer internada.

Um mistério que depende de confiança

“As Linhas Tortas de Deus” é um filme longo, com cerca de duas horas e meia, e poderia perder alguns minutos sem prejudicar a história. Ainda assim, a premissa sustenta boa parte da duração porque o roteiro distribui novas informações sem abandonar a pergunta central.

Alice entrou voluntariamente naquele hospital ou essa é apenas a versão em que acredita?

O mérito de Oriol Paulo está em permitir que essa dúvida acompanhe a investigação da morte sem transformar o longa numa sequência cansativa de pegadinhas. Há pistas, documentos, lembranças e versões conflitantes, mas a história continua ligada às ações de Alice e às dificuldades concretas que ela enfrenta dentro da instituição.

Bárbara Lennie carrega o filme com uma protagonista difícil de decifrar. Alice pode parecer arrogante em alguns momentos, persuasiva em outros e vulnerável quando percebe que sua palavra talvez não tenha o peso que imaginava. Essa mistura impede uma leitura confortável da personagem.

É por isso que “As Linhas Tortas de Deus” coloca o público no mesmo lugar de seus médicos. Escutar Alice é fácil. Decidir até onde acreditar nela é bem mais complicado.

Ela entrou no hospital procurando a verdade sobre um morto. Pouco depois, percebe que precisa resolver outro problema antes de continuar seu trabalho. Se não conseguir provar quem é e por que está ali, talvez nem tenha a oportunidade de terminar a investigação.


Filme: As Linhas Tortas de Deus
Diretor: Oriol Paulo
Ano: 2022
Gênero: Drama/Mistério/Suspense
Avaliação: 4/5 1 1
Fernando Machado

Fernando Machado é jornalista e cinéfilo, com atuação voltada para conteúdo otimizado, Google Discover, SEO técnico e performance editorial. Na Cantuária Sites, integra a frente de projetos que cruzam linguagem de alta qualidade com alcance orgânico real.

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