Ruth Slater (Sandra Bullock) sai da prisão após cumprir uma longa pena e volta à região de Seattle para procurar Katie (Aisling Franciosi), a irmã de quem foi separada na infância. Em “Imperdoável”, drama de 2021 dirigido por Nora Fingscheidt, a busca esbarra em uma dificuldade que Ruth não consegue resolver sozinha. Katie cresceu em outra família e talvez nem queira revê-la.
Ruth foi condenada pelo assassinato de um policial. Ao deixar a prisão, precisa comparecer aos encontros com seu agente responsável pela liberdade condicional, Vince Cross (Rob Morgan), conseguir trabalho e se manter longe de problemas. Ela aceita um emprego em uma fábrica de processamento de pescado, onde conhece Blake (Jon Bernthal), um colega que tenta se aproximar. São passos necessários para construir uma rotina, mas sua atenção permanece voltada para Katie.
A irmã era criança quando as duas foram afastadas. Durante os anos de prisão, Ruth ficou presa também à lembrança daquela menina. Agora, Katie é adulta, atende por Katherine Malcolm e tem pais que cuidaram dela por quase toda a vida. Ruth sabe por que deseja encontrá-la. Não sabe o que Katie ouviu sobre o passado, quanto se recorda da irmã ou se gostaria de receber uma visita.
Bullock interpreta Ruth com uma aspereza que nem sempre facilita a vida da personagem. Ela fala pouco, desconfia de quase todos e perde a paciência quando alguém pede que espere. Há ternura no motivo que a move, mas isso não torna suas atitudes automaticamente acertadas. Fingscheidt permite que o público acompanhe sua solidão sem exigir que os demais personagens aceitem tudo o que ela faz.
A casa que já pertence a outros
Na tentativa de obter notícias de Katie, Ruth volta à casa onde as duas viveram. O imóvel tem novos donos, Liz Ingram (Viola Davis) e seu marido, John (Vincent D’Onofrio). Liz recebe aquela desconhecida com cautela, sobretudo depois de descobrir sua ligação com a casa e com o crime. John, que é advogado, aceita ouvir Ruth e se dispõe a ajudá-la a procurar a família de Katie.
A visita coloca Ruth diante de uma mudança difícil de aceitar. O lugar que ela guardou na memória continuou existindo sem as duas. Liz e John criaram ali sua própria vida e têm filhos a proteger. Para Liz, o passado de Ruth exige prudência. Para John, ouvi-la não significa desconsiderar a segurança de ninguém. Davis e D’Onofrio dão consistência a esse desacordo, que afeta a ajuda de que Ruth precisa.
John tenta estabelecer contato com os pais adotivos de Katie. Ruth, porém, quer avançar mais depressa do que os outros consideram seguro. Sua aflição é compreensível. Depois de tantos anos, cada demora lhe parece mais uma separação. O problema é que Katie não pode ser tratada como a criança que Ruth deixou para trás. Ela tem vínculos, lembranças e uma rotina da qual a irmã não participou.
Katie também tem uma escolha
Interpretada por Aisling Franciosi, Katie vive com lacunas na memória da infância. A procura de Ruth pode trazer respostas, mas também alcançar uma jovem que não pediu para revisitar aquele período. Seus pais adotivos temem o efeito dessa aproximação e tentam decidir como lidar com ela. O filme ganha força quando reconhece que proteger Katie e ouvir Ruth são preocupações legítimas, mesmo quando entram em choque.
Existe ainda a família do policial morto. Para seus parentes, a saída de Ruth da prisão não encerra a perda nem o ressentimento. Essa presença acrescenta perigo à busca pela irmã e lembra que o crime atingiu outras pessoas. Fingscheidt revela o passado aos poucos, mantendo algumas informações fora do alcance do público. A escolha sustenta o mistério, embora por vezes deixe Katie distante demais de uma história que também é sua.
O peso de pedir um encontro
A crítica mais interessante de “Imperdoável” está nas situações comuns que Ruth precisa atravessar. Trabalhar, manter uma conversa com Blake e aceitar a ajuda de John exigem dela uma confiança que perdeu há muito tempo. Quando tenta se aproximar de Katie, descobre que insistir pode fechar a única porta aberta. Bullock dá a Ruth um cansaço convincente, perceptível até quando ela permanece em silêncio.
O filme poderia dedicar mais tempo à vida de Katie e confiar menos no segredo que cerca o crime. Ainda assim, encontra emoção na distância entre o reencontro imaginado por Ruth e o encontro que talvez seja possível. Ela cumpriu a pena, conseguiu um emprego e achou alguém disposto a ajudá-la. Para ver a irmã, precisa esperar que Katie tenha a oportunidade de decidir por si mesma.

