Em 1958, Ted Kaczynski chega a Harvard aos 16 anos. Décadas depois, o FBI investiga os atentados que ele cometeu pelo correio. “Unabomber”, dirigido por Janus Metz, acompanha essas duas épocas para examinar o que aconteceu com o jovem prodígio e como os agentes tentaram identificar o homem que passou a aterrorizar os Estados Unidos.
Ted Kaczynski (Jacob Tremblay) é um adolescente brilhante em matemática, mas ainda inseguro diante da vida universitária. Em Harvard, chama a atenção do professor Henry Murray (Russell Crowe), que o convida a participar de uma pesquisa psicológica. Para um aluno tão jovem, ser escolhido por um acadêmico respeitado parece um reconhecimento. Ted aceita sem saber o que o espera.
Murray e sua colega Christiana Morgan (Annabelle Wallis) submetem os participantes a sessões nas quais suas ideias pessoais são atacadas de forma agressiva. O professor mantém a aparência cordial, embora controle as perguntas e observe as reações de Ted sob pressão. Crowe faz desse contraste a parte mais interessante do personagem. Ele não precisa levantar a voz para deixar evidente quem tem autoridade naquela sala.
Tremblay interpreta Ted como alguém capaz de defender uma ideia difícil, mas pouco preparado para a hostilidade dirigida a ele. O desconforto do rapaz é convincente quando nasce do que acontece durante as sessões. Em outras passagens, o roteiro insiste tanto nos sinais de isolamento que quase não permite ao ator apresentar outras facetas do estudante.
Uma investigação décadas depois
Nos anos 1990, a agente do FBI Joanne Miller (Shailene Woodley) procura pistas que levem ao responsável pelos atentados. O manifesto escrito por Kaczynski passa a ocupar seu trabalho. Ela examina a linguagem do documento na esperança de reconhecer traços que possam ajudar a identificá-lo, enquanto a possibilidade de novos ataques mantém a investigação sob pressão.
Miller também enfrenta a resistência de Leo (Alexander Ludwig), seu parceiro. Ele questiona as conclusões da agente, e Woodley transmite bem o cansaço de quem precisa defender uma pista antes mesmo de poder segui-la. O problema está na facilidade com que o roteiro lhe entrega avanços. As observações de Miller fazem sentido, mas a apuração parece mais simples na tela do que uma busca dessa dimensão permitiria.
O manifesto traz ainda uma questão que o longa poderia aproveitar melhor. Para procurar seu autor, os agentes precisam ler um texto que ganhou circulação por causa das bombas. Kaczynski queria que suas palavras fossem conhecidas, e os investigadores dependem delas para chegar até ele. Existe tensão suficiente nessa relação entre publicação e investigação, mas “Unabomber” logo volta às discordâncias previsíveis entre Miller e Leo.
As duas histórias nem sempre se encontram
Metz alterna as sessões em Harvard com a busca do FBI. A escolha permite acompanhar o adolescente antes de seus crimes sem perder de vista as pessoas ameaçadas décadas depois. Também cria uma expectativa difícil de cumprir. O sofrimento de Ted na universidade e as pistas estudadas por Miller pertencem a fases distintas de sua vida, mas o filme insiste em aproximá-los sem construir bem a passagem de uma à outra.
A pesquisa de Murray merece ser questionada pelo tratamento dado aos estudantes. Ainda assim, a maneira como Ted foi tratado não basta para explicar sua decisão posterior de enviar bombas. Ao apresentar o professor como uma influência decisiva, o roteiro simplifica uma história que pede mais cuidado. O jovem submetido às sessões desperta compaixão. O homem responsável pelos atentados fez escolhas pelas quais deve responder.
Essa diferença também afeta o espaço dado às vítimas. “Unabomber” dedica bastante tempo às experiências de Ted e ao empenho de Miller, mas se detém pouco nas pessoas atingidas pelos ataques. O espectador conhece de perto a vulnerabilidade do estudante e acompanha o trabalho dos agentes, enquanto as consequências das bombas ficam mais distantes. A investigação perde peso quando aqueles que correm perigo aparecem tão pouco.
Um elenco melhor que a explicação
Crowe sustenta as cenas de Harvard com uma autoridade serena que torna Murray desagradável sem transformá-lo numa caricatura. Woodley dá firmeza a Miller, mesmo quando a personagem recebe soluções convenientes demais. Tremblay enfrenta a tarefa mais delicada. Seu Ted precisa ser reconhecível como adolescente sem que o público seja levado a confundir a violência que sofreu com uma justificativa para seus crimes.
“Unabomber” tem uma história forte nas mãos, sobretudo quando observa o poder de Murray sobre um aluno de 16 anos ou coloca Miller diante das palavras do homem que procura. Sua fragilidade aparece na pressa de ligar esses acontecimentos por uma explicação única. As duas épocas oferecem perguntas interessantes, mas a investigação avança por pistas mais concretas do que as respostas que o filme tenta encontrar no passado de Ted.

