Na China dos anos 1920, um médico britânico leva a esposa infiel para uma região atingida pela cólera, onde aceita trabalhar entre os doentes. Walter Fane (Edward Norton) espera usar seus conhecimentos de bacteriologista. Kitty (Naomi Watts) chega contra a vontade, longe do homem com quem teve um caso e presa a um casamento que mal suportava antes da viagem. Em “O Despertar de uma Paixão”, John Curran põe os dois na mesma casa quando já não sabem conversar.
Antes da epidemia, há uma decisão bem menos dramática e igualmente decisiva. Kitty aceita o pedido de Walter porque se casar lhe parece uma saída conveniente da vida que leva em Londres. Ele a admira e oferece estabilidade. Ela gosta da atenção, mas não demonstra o mesmo interesse pelo homem tímido que passa boa parte do tempo falando de seu trabalho. A diferença poderia ser apenas um traço curioso do casal. Depois do casamento, torna-se assunto diário.
Na China, Kitty sente falta de companhia e diversão. Walter, ocupado com a medicina, custa a perceber o tamanho dessa distância. Norton interpreta sua reserva sem transformá-lo num homem frio o tempo inteiro. Há afeto em Walter, embora ele tenha pouco talento para expressá-lo. Watts, por sua vez, dá a Kitty uma inquietação que torna compreensível seu descontentamento, sem pedir que o público desculpe tudo o que ela faz.
É nesse espaço que surge Charlie Townsend (Liev Schreiber), um diplomata casado, espirituoso e habituado a circular com facilidade entre as pessoas. Kitty inicia um caso com ele. Schreiber dá ao personagem charme suficiente para explicar a atração, mas deixa no ar quanto Charlie aceitaria perder para permanecer ao lado dela. Quando Walter descobre a traição, Kitty passa a depender das escolhas de dois homens cujas intenções conhece menos do que imaginava.
A viagem para a região da cólera
Walter aceita trabalhar voluntariamente numa área rural atingida pela doença e exige que Kitty o acompanhe. A decisão tem um propósito médico, mas a mágoa também viaja com o casal. Para ele, a região oferece trabalho onde seus conhecimentos são necessários. Para ela, significa deixar a cidade, Charlie e qualquer chance simples de voltar à rotina anterior.
Curran trata a chegada dos dois com atenção ao que cada um pode fazer naquele lugar. Walter tem uma tarefa, horários e pessoas à espera de sua ajuda. Kitty chega sem formação para enfrentar a epidemia e sem intimidade suficiente com o marido para dividir seu medo. Enquanto ele sai para trabalhar, ela permanece diante de uma vida que desconhece. O silêncio entre os dois pesa ainda mais porque a doença não lhes concede tempo para uma longa disputa doméstica.
A paisagem é bonita, mas o filme não deixa a beleza esconder o sofrimento dos moradores. Essa escolha ajuda o romance. Quando Walter se dedica aos doentes, Kitty passa a vê-lo fora da condição de marido traído. Seu cuidado com outras pessoas diz algo que ele nunca conseguiu lhe explicar em casa. Isso não resolve a infidelidade nem apaga a dureza com que os dois se tratam. Apenas torna mais difícil continuar enxergando um ao outro pelos velhos hábitos.
Kitty sai do isolamento
Sem poder ajudar na medicina, Kitty procura alguma maneira de ocupar seus dias e se aproxima das pessoas que vivem na região. O contato com suas necessidades tira a personagem da espera pelo retorno de Walter. Sua mudança acontece aos poucos, com hesitação e desconforto. Watts preserva a impaciência de Kitty mesmo quando ela passa a agir com mais cuidado. A mulher que começa a se interessar pelos outros ainda precisa conviver com o que fez ao marido.
Walter também precisa rever a imagem que formou da esposa. Ele se casou com uma mulher que mal conhecia e, ferido pela traição, teve bons motivos para se afastar. Agora a vê tomar iniciativas longe dele. Norton dá força a esse incômodo nos momentos em que Walter parece disposto a falar, mas guarda a frase. A epidemia continua exigindo seu trabalho, enquanto Kitty constrói uma rotina que já não depende de aguardá-lo em casa.
Há algo muito humano na forma como o casal se aproxima. Nenhuma conversa apaga de uma vez o ressentimento, e um gesto gentil pode vir seguido de outro silêncio. Curran confia nessa demora, embora por vezes prolongue tanto a distância que a história pareça hesitar junto com seus personagens. Quando Kitty e Walter conseguem permanecer na mesma conversa, porém, o filme ganha a intimidade que faltava ao casamento deles.
O risco continua à porta
“O Despertar de uma Paixão” tira sua força dessa convivência difícil, sustentada pelas atuações de Watts e Norton. Kitty tem razões para se sentir só, mas é responsável pela traição. Walter dedica seus conhecimentos aos doentes, embora também use a viagem para manter a esposa perto de uma dor que ela causou. O filme permite enxergar essas contradições sem distribuir absolvições.
Charlie, tão hábil em oferecer a Kitty uma saída sedutora, pertence à vida que ela deixou para trás. Na região da cólera, suas escolhas têm efeitos menos fáceis de esconder. Walter sai todos os dias para atender pessoas expostas à doença. Kitty precisa decidir o que fará enquanto ele está fora e como o receberá quando voltar. É nessa casa, entre o trabalho do médico e a vida que a esposa começa a construir, que os dois finalmente encontram tempo para se conhecer.

