Em uma floresta do estado de Washington, Ben Cash (Viggo Mortensen) cria seis filhos longe das escolas, dos supermercados e de quase tudo o que considera nocivo na vida moderna. As crianças caçam, cultivam alimentos, leem livros difíceis e fazem exercícios que deixariam muitos adultos pedindo uma pausa. Essa rotina muda quando uma notícia sobre Leslie, mãe dos jovens, obriga a família a viajar. Ben precisa levar os filhos a um mundo que sempre lhes ensinou a questionar.
Dirigido por Matt Ross, “Capitão Fantástico” acompanha essa viagem sem tratar Ben como um pai perfeito ou como um homem incapaz de amar. Ele dedicou a vida à educação dos filhos e conhece as habilidades de cada um. Também decidiu, durante anos, quais pessoas eles poderiam conhecer e quais experiências deveriam ficar fora de seu alcance. A estrada põe essas escolhas diante dos próprios jovens, que começam a fazer perguntas para as quais nenhum livro da cabana oferece uma resposta suficiente.
A vida que Ben construiu
Na floresta, Ben organiza os dias com rigor. Seus filhos treinam o corpo, estudam política e filosofia, discutem o que leem e ajudam a conseguir comida. Bodevan, chamado de Bo (George MacKay), o mais velho, fala sobre assuntos complexos com uma segurança impressionante. Kielyr (Samantha Isler) cresceu sob a mesma disciplina, ao lado dos quatro irmãos menores. Todos sabem fazer coisas que a maioria das crianças de sua idade nunca precisou aprender.
Ben acredita que está preparando os filhos para pensar por conta própria. Há uma contradição incômoda nessa intenção. Ele pede opiniões bem fundamentadas, mas controla boa parte daquilo que as crianças podem conhecer. Sua casa oferece liberdade para discordar durante uma conversa e pouca chance de experimentar outra maneira de viver. Mortensen interpreta esse pai com afeto e convicção, deixando aparecer a dificuldade de alguém que quer proteger os filhos sem perceber quanto espaço ocupa nas decisões deles.
Leslie (Trin Miller) participa dessa história mesmo durante sua ausência da cabana. Foi com ela que Ben escolheu criar a família longe da cidade. Uma notícia dolorosa a respeito da mãe interrompe o isolamento e dá à viagem um motivo que nenhum dos filhos pode ignorar. Ben precisa conduzir seis crianças por uma situação para a qual exercícios, leituras e debates oferecem pouco preparo. Pela primeira vez, ele também terá de ouvir o que os parentes pensam das escolhas feitas pelo casal.
Uma viagem fora da floresta
No ônibus da família, os Cash levam livros, hábitos e uma forma peculiar de conversar. Fora da mata, coisas corriqueiras provocam espanto. Ben costuma explicar o que vê com a franqueza de sempre, embora agora os filhos tenham diante de si pessoas capazes de oferecer outras opiniões. A comédia surge desse desencontro. Há algo engraçado em ver jovens que discutem filosofia com desenvoltura tentando decifrar costumes cotidianos, mas Ross preserva a curiosidade deles.
As paradas também expõem uma lacuna na educação que receberam. Saber acender uma fogueira ou sustentar um argumento ajuda pouco quando é preciso reconhecer sinais sociais que outras crianças aprenderam convivendo com amigos. Bodevan sente isso com especial força. Bo se aproxima da idade adulta e começa a pensar em escolhas que podem levá-lo para longe da floresta. George MacKay dá ao personagem a mistura de coragem e constrangimento de quem sabe muito sobre o mundo e ainda conhece pouco da vida entre outras pessoas.
Ben observa essas descobertas com uma atenção que às vezes parece cuidado e às vezes pesa como vigilância. Ele tem bons motivos para desconfiar de certos hábitos que encontra pelo caminho. Seus filhos, porém, precisam formar uma opinião própria sobre eles. Ross deixa essa diferença crescer em conversas e pequenos embaraços, sem transformar a família em uma atração exótica. O interesse está no que acontece quando as crianças passam a comparar a vida que levam com alternativas que antes conheciam apenas pelas palavras do pai.
Parentes com outras respostas
O reencontro com a família de Leslie torna essa comparação mais difícil para Ben. Jack (Frank Langella), pai dela, questiona a criação dos netos e acredita que o isolamento lhes trouxe riscos. Os dois homens amam as mesmas crianças, mas discordam sobre cuidados, educação e autoridade. Jack pode oferecer aos jovens uma casa próxima de escolas e de outras famílias. Ben conhece suas capacidades e teme que essa convivência desfaça o que construíram juntos.
Frank Langella dá a Jack uma firmeza que impede uma leitura confortável da disputa. É possível compreender a preocupação do avô, assim como é possível reconhecer o empenho extraordinário de Ben. A tensão cresce porque os filhos estão presentes e escutam argumentos sobre a própria vida. Ben já não pode encerrar uma discussão simplesmente voltando para a cabana. Seus métodos precisam fazer sentido também fora do lugar onde ele estabelecia todas as regras.
O filme ganha força quando permite que cada criança reaja de um jeito. Há quem defenda o pai, quem se encante com as novidades e quem se irrite por ter crescido sem certas experiências. Nenhuma dessas reações apaga o vínculo entre eles. Os irmãos continuam unidos por uma infância singular, embora essa proximidade não os obrigue a desejar o mesmo futuro. Para Ben, escutar essas diferenças exige mais coragem do que qualquer exercício que tenha ensinado na floresta.
O espaço para escolher
“Capitão Fantástico” deixa suas convicções esbarrarem nas necessidades concretas daquela família. A educação dos Cash lhes deu conhecimento, resistência e intimidade uns com os outros. Também os manteve afastados de pessoas com quem agora precisam conversar. Matt Ross observa esse custo com sensibilidade e encontra leveza em situações nas quais Ben descobre que inteligência não poupa ninguém de passar vergonha.
A interpretação de Mortensen sustenta as partes mais delicadas da história. Ben pode irritar ao insistir que sabe o que é melhor para todos, mas seu carinho pelos filhos nunca parece uma pose. Bo, Kielyr e os irmãos tampouco existem apenas para confirmar ou desmentir as ideias dele. À medida que a viagem avança, cada um ganha a oportunidade de pedir algo diferente. Ben terá de prestar atenção a esses pedidos antes de decidir para onde levará o ônibus.

