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Em 1960, no interior da América do Sul, um sobrevivente do Holocausto passa a investigar o novo vizinho alemão por acreditar que ele seja Adolf Hitler. Em “Meu Vizinho Adolf”, Leon Prudovsky transforma essa suspeita numa história curiosa e dolorosa sobre um homem que precisa se aproximar de quem mais teme.

Polsky (David Hayman) vive sozinho, cuida das roseiras e joga xadrez. É uma rotina pequena, organizada à sua maneira, depois de uma perda que continua presente. Então Herzog (Udo Kier) se muda para a casa ao lado. Para os demais, ele é apenas um alemão reservado. Polsky vê a possibilidade de que um dos maiores criminosos da história esteja vivendo tranquilamente a poucos passos de seu jardim.

A desconfiança surge num período em que a captura de Adolf Eichmann na Argentina voltou a expor a presença de nazistas refugiados na América do Sul. Polsky sabe que sua hipótese é grave. Também sabe que sua palavra, sozinha, não convence ninguém. Quando tenta alertar outras pessoas e não recebe o apoio que espera, decide procurar provas por conta própria.

Um vizinho difícil de ignorar

A investigação começa com um problema bastante humano. Polsky quer descobrir quem é Herzog, mas mal suporta a ideia de conversar com ele. Observar a casa vizinha lhe oferece pouco. Para conhecer melhor o alemão, será preciso aceitar sua companhia, fazer perguntas e escutar respostas que talvez não esclareçam coisa alguma.

David Hayman interpreta Polsky com uma aspereza que faz sentido para o personagem. Ele perdeu a família no Holocausto e aprendeu a viver sem esperar muito dos outros. Sua insistência pode cansar quem está por perto, sobretudo porque trata a suspeita como uma certeza antes de conseguir comprová-la. Ainda assim, o filme deixa evidente por que a chegada de Herzog o perturba tanto. Polsky teme que a história que destruiu sua família tenha reaparecido diante de sua porta.

Herzog, por sua vez, não facilita a vida de ninguém que queira decifrá-lo. Udo Kier lhe dá uma presença estranha, capaz de alimentar a suspeita de Polsky sem entregar ao público uma conclusão antecipada. Frau Kaltenbrunner (Olivia Silhavy), ligada ao círculo do recém-chegado, acrescenta outra pessoa à investigação. Polsky passa a observar também quem se aproxima do vizinho, embora cada novo contato traga mais perguntas do que provas.

Uma investigação entre roseiras e xadrez

O xadrez se torna uma oportunidade de aproximação. Sentar-se diante de Herzog permite a Polsky passar tempo com ele, acompanhar seus gestos e manter uma conversa sem revelar o verdadeiro motivo de tanta atenção. A situação tem algo de absurdamente engraçado. Polsky acredita estar diante de Hitler e, ainda assim, precisa se comportar como um vizinho disposto a disputar uma partida.

É aí que a comédia de “Meu Vizinho Adolf” funciona melhor. A graça vem do esforço de Polsky para esconder o que pensa enquanto continua procurando motivos para acusar Herzog. Seu temperamento pouco sociável torna essa tarefa ainda mais complicada. Uma conversa comum pode começar com uma pergunta inocente e acabar sob o peso de uma desconfiança que o outro talvez nem perceba por inteiro.

Prudovsky dá tempo para que essa convivência se desenvolva. Quanto mais Polsky frequenta Herzog, mais oportunidades tem de observá-lo. Ao mesmo tempo, conversar com uma pessoa é diferente de persegui-la à distância. O alemão passa a ter voz, hábitos e reações próprias. Polsky precisa lidar com tudo isso sem abandonar a razão que o levou até ele.

O peso de não ser levado a sério

O drama permanece próximo mesmo nas passagens mais leves. Polsky não procura uma aventura para ocupar os dias. Se estiver certo, um criminoso nazista vive em liberdade diante dele. Se estiver errado, terá permitido que o medo tome conta de sua relação com um homem que acabou de conhecer. Nenhuma das possibilidades é confortável, e a falta de provas o deixa sozinho com a dúvida.

Essa é a força de “Meu Vizinho Adolf”. O filme acompanha a busca por evidências sem tratar a dor de Polsky como prova suficiente nem fazer pouco daquilo que ele viveu. Hayman sustenta a irritação e a vulnerabilidade de um homem que deseja ser ouvido. Kier mantém Herzog difícil de definir. Entre uma visita e outra, Polsky continua voltando à casa vizinha, porque ficar perto do alemão ainda é sua melhor chance de descobrir quem ele é.


Filme: Meu Vizinho Adolf
Diretor: Leon Prudovsky
Ano: 2022
Gênero: Comédia/Drama
Avaliação: 3.5/5 1 1
Fernando Machado

Fernando Machado é jornalista e cinéfilo, com atuação voltada para conteúdo otimizado, Google Discover, SEO técnico e performance editorial. Na Cantuária Sites, integra a frente de projetos que cruzam linguagem de alta qualidade com alcance orgânico real.

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