“Belo Desastre” agrada em cheio aos fãs obstinados de comédias românticas inspiradas nos best-sellers para “jovens adultos”, esse eufemismo que define pós-adolescentes muitas vezes deslocados. Roger Kumble encontrou no filão um público fiel, ávido pelo consolo de um carrossel de imagens coloridas, estampadas por rostinhos bonitos e corpos esculturais. Kumble se sai bem na releitura cinematográfica de novelões infantojuvenis, como se assiste em “Segundas Intenções” (1999), hoje um cult, a partir do romance de Choderlos de Laclos (1741-1803), desabridamente antropofagizado pela cultura pop em milhares de séries. Contudo, qualquer inovação artística que pudesse haver no roteiro de Kumble e Jamie McGuire, a autora dos sucessos editoriais publicados entre 2011 e 2016 em que o filme baseia-se, é soterrada pela avalanche de clichês da qual poucos diretores escapam. Tragédia maior é a irregularidade do elenco, especialmente com personagens auspiciosos colocados de quina para que a trama apareça.
Quem é que brilha aqui?
A sorte foi uma dama para Abby Abernathy e Travis Maddox. Depois de fazerem loucuras em Las Vegas, os dois terminam casados ao visitar uma das capelas de cerimônias instantâneas da Cidade do Pecado, levando a bolada de quase 139 mil dólares que pretendem gastar em viagens pelo mundo, a começar por Gatito, balneário moderninho na Baixa Califórnia. Kumble escarafuncha o passado de Abby, menciona seus dons para o pôquer e o relacionamento difícil com o pai, Mick, disfuncional e inconsequente, até a ruptura. Cruel, mas também generoso, o destino tira, mas sabe dar, e aí entra Travis, o Mad Dog, alcunha que ganhou dos outros lutadores clandestinos, e exatamente por terem tão pouco em comum é que se sentem tão atraídos e tão próximos. Não se pode negar a habilidade do diretor em compor o gancho com “Belo Desastre – O Casamento” (2024), ao longo do qual os pombinhos vivem quase felizes para sempre, mas Virginia Gardner e Dylan Sprouse ficam longe do carisma de Libe Barer e Austin North.

