Território ainda intocado pela dureza da vida adulta, a juventude é a fase da experimentação, o que inclui, por óbvio, o sexo. A descoberta do desejo leva a conflitos, que por sua vez exigem que se passe por cima das regras draconianas da moral e enfrente-se qualquer um que queira tolher a liberdade mais básica do indivíduo. Jovens veem-se divididos entre a curiosidade e o medo, entre a chance do prazer e a culpa fomentada por discursos tirânicos. A repressão não elimina o instinto, só o disfarça de silêncio e vergonha. Os verdes anos são uma grande escola, onde aprende-se a escamotear e a fazer a barganha dos anseios. Muito já se avançou nessa seara, em especial quando volta-se à Los Angeles da década de 1970, cenário de “Licorice Pizza”. Especialista no assunto, Paul Thomas Anderson tem um fascínio qualquer por histórias delirantes, cheias de reviravoltas as mais improváveis, qualidade que permite-lhe construir metáforas inauditas sobre a vasta condição humana. Inauditas e, a um primeiro olhar, indigestas.
Mistura exótica
Alana e Gary não têm muito em comum, isto é, podem estar bem perto de engatar um namoro. Isso acontece, mas só depois que Anderson esmiúça o quanto pode do Vale de San Fernando, no noroeste de L.A., mais precisamente a aura mítica da Rodovia 101. Alana é uma mulher de 25 anos, instável, algo disfuncional, ao passo que, aos quinze, Gary esbanja autoafirmação e aquela falsa autonomia bem própria da idade. Metodicamente, o diretor-roteirista encaminha-se para o núcleo dessa relação insólita, tornada crível graças à afinidade entre Alana Haim e Cooper Hoffman, um trunfo de que dispõe com parcimônia. Anderson equilibra os bons lances dos novatos com as passagens em que Bradley Cooper e Sean Penn brilham na pele, respectivamente, do futuro produtor Jon Peters e Jack Holden, baseado no inesquecível William Holden (1918-1981) de “Crepúsculo dos Deuses” (1950), de Billy Wilder (1906-2002). Tudo saudosista e atemporal. Anderson na veia.

