Discover

Em 1851, no noroeste dos Estados Unidos, dois irmãos assassinos perseguem um garimpeiro porque seu poderoso patrão deseja recuperar uma fórmula valiosa. Eli Sisters (John C. Reilly) e Charlie Sisters (Joaquin Phoenix) ganham a vida matando pessoas por ordem do Comodoro (Rutger Hauer), homem influente que controla negócios e homens armados no Oregon. A nova missão parece seguir a rotina conhecida pelos irmãos. Eles devem localizar Hermann Kermit Warm (Riz Ahmed), um garimpeiro acusado de roubar o patrão, e impedir que ele desapareça na Califórnia durante a corrida do ouro.

Em “Os Irmãos Sisters”, faroeste dirigido por Jacques Audiard e baseado no romance de Patrick deWitt, a perseguição importa tanto quanto a relação entre os protagonistas. Charlie aceita o serviço sem grandes dúvidas. Gosta da bebida, da fama e da autoridade conquistada com o revólver. Eli, mais velho e cuidadoso, começa a questionar quanto tempo os dois continuarão vivos nesse ofício. A missão expõe uma divergência antiga que já não pode permanecer escondida.

A dupla cruza estradas precárias, cidades pequenas e regiões pouco povoadas. Cada parada exige comida, cavalos descansados e alguma informação sobre Warm. Charlie costuma resolver dificuldades pela ameaça. Eli prefere conversar e preservar os poucos recursos disponíveis. A diferença entre eles causa discussões, atrasos e situações discretamente engraçadas, principalmente quando o irmão mais velho demonstra interesse por novidades banais, como uma escova de dentes.

Esses detalhes aproximam Eli do espectador. Ele é um assassino experiente, mas também um homem cansado, preocupado com o cavalo e interessado numa rotina doméstica que parece distante. John C. Reilly interpreta o personagem com uma mistura delicada de peso, ternura e constrangimento. Eli gostaria de abandonar as armas, embora saiba que sua sobrevivência ainda depende delas.

John Morris chega primeiro

Os irmãos não trabalham sozinhos. John Morris (Jake Gyllenhaal), investigador contratado pelo Comodoro, segue alguns dias à frente para localizar Warm. Sua tarefa consiste em conquistar a confiança do garimpeiro, acompanhá-lo e enviar informações sobre seus passos. Educado e bem-vestido, Morris circula com facilidade por hotéis, escritórios e salões onde os irmãos Sisters chamariam atenção antes mesmo de abrir a boca.

O plano começa a mudar quando Morris se aproxima de Warm. O garimpeiro possui uma fórmula química capaz de revelar ouro dentro dos rios, o que permitiria dispensar boa parte do trabalho manual realizado pelos exploradores. A descoberta desperta o interesse do Comodoro e explica por que tanta gente deseja capturá-lo. Warm, porém, tem um projeto maior. Ele pretende usar a riqueza para criar uma comunidade organizada pela cooperação, distante da ganância que domina aquela região.

Riz Ahmed oferece ao garimpeiro serenidade e inteligência, sem transformá-lo num sonhador ingênuo. Warm sabe que sua fórmula lhe dá poder, mas também o torna vulnerável. Ele precisa chegar à Califórnia, proteger o conhecimento que carrega e escolher com cuidado em quem confiar. Morris, por sua vez, passa a observar a missão sob outra perspectiva. A lealdade ao Comodoro perde força diante da possibilidade de participar de algo mais promissor.

Jake Gyllenhaal dá ao investigador uma formalidade um pouco deslocada naquele território bruto. Morris escreve cartas, escolhe palavras com cuidado e conserva hábitos refinados enquanto atravessa uma região tomada por poeira, violência e ambição. Essa postura cria um contraste interessante com Warm, cuja inteligência tem um objetivo concreto, e com os irmãos Sisters, acostumados a resolver desacordos com pólvora.

Dois irmãos em direções diferentes

Eli percebe que a ordem recebida encobre interesses muito maiores do que uma dívida. Abandonar o serviço, contudo, significaria desafiar o homem que paga suas despesas, fornece contatos e sustenta a reputação dos irmãos. Charlie deseja completar a missão porque teme perder dinheiro e prestígio. Também parece incapaz de imaginar uma identidade distante das armas.

Joaquin Phoenix interpreta Charlie com energia instável. Ele pode demonstrar afeto pelo irmão numa conversa e, pouco depois, colocar ambos em perigo por orgulho ou embriaguez. Sua violência possui raízes familiares e foi alimentada durante anos de trabalho para o Comodoro. Eli conhece essas fraquezas, tenta protegê-lo e acaba pagando parte da conta. O vínculo entre os dois mistura amor, ressentimento, culpa e uma dependência difícil de romper.

Audiard trata essa relação com sensibilidade, mas sem transformar os pistoleiros em vítimas inocentes. Eli e Charlie carregam o sangue de criminosos e de pessoas que talvez estivessem apenas no lugar errado. O passado acompanha os dois por estradas, quartos de hotel e acampamentos. Quando Eli fala sobre mudar de vida, seu desejo esbarra nas mortes acumuladas e no irmão que ainda prefere manter o emprego.

“Os Irmãos Sisters” também observa a chegada de pequenas novidades ao Oeste americano. Cidades em crescimento oferecem hotéis mais confortáveis, banhos, restaurantes e produtos desconhecidos pelos viajantes. Eli se encanta com essas comodidades porque elas representam uma rotina possível fora da violência. Charlie olha para o mesmo ambiente procurando bebida, pagamento e pistas sobre a missão. Até diante de uma pia, os irmãos parecem caminhar para destinos diferentes.

A Califórnia muda a missão

A chegada à Califórnia reúne os principais interesses da história. Warm precisa preservar sua fórmula e financiar o projeto que deseja construir. Morris aposta a própria segurança na confiança depositada no garimpeiro. Eli avalia a possibilidade de deixar o serviço, enquanto Charlie insiste em proteger a posição conquistada ao lado do Comodoro. O ouro passa a unir homens que chegaram ao território por razões bastante distintas.

Audiard preserva os elementos tradicionais do faroeste, entre eles cavalos, emboscadas, salões e tiroteios, mas dedica grande atenção ao desgaste físico da viagem. Armas falham, animais adoecem e ferimentos cobram cuidados. A paisagem oferece beleza e ameaça na mesma proporção. Quando os disparos começam, a escuridão muitas vezes esconde os atiradores e deixa visíveis apenas as faíscas dos tiros. O perigo ganha força porque ninguém domina inteiramente o espaço.

A violência possui consequências concretas. Um erro compromete o dinheiro, a saúde, os cavalos ou a continuidade da viagem. Por isso, as cenas de ação estão ligadas às escolhas dos personagens. Charlie atira para preservar sua fama. Eli usa a arma para proteger o irmão. Morris tenta manter o plano de Warm viável. O garimpeiro depende de conhecimento e paciência, recursos frágeis diante de homens acostumados a tomar o que desejam.

“Os Irmãos Sisters” é um faroeste humano, melancólico e por vezes divertido, sustentado por personagens que desejam escapar das vidas que construíram. John C. Reilly ocupa o centro emocional da história, enquanto Joaquin Phoenix transforma Charlie num companheiro perigoso e difícil de abandonar. Jake Gyllenhaal e Riz Ahmed acrescentam outra parceria ao enredo, baseada em confiança, planejamento e interesse comum.

Sem abandonar a brutalidade do gênero, Jacques Audiard acompanha homens cansados diante de uma oportunidade rara de mudança. A caçada iniciada no Oregon leva os irmãos a questionar o patrão, o trabalho e o futuro compartilhado. Cada escolha cobra dinheiro, segurança ou lealdade. Quando as alianças passam a depender da fórmula de Warm, todos precisam decidir quanto estão dispostos a arriscar antes que o ouro cobre seu preço.


Filme: Os Irmãos Sisters
Diretor: Jacques Audiard
Ano: 2018
Gênero: Drama/Faroeste
Avaliação: 3.5/5 1 1
Fer Kalaoun

Fer Kalaoun é editora na Revista Bula e repórter especializada em jornalismo cultural, audiovisual e político desde 2014. Estudante de História no Instituto Federal de Goiás (IFG), traz uma perspectiva crítica e contextualizada aos seus textos. Já passou por grandes veículos de comunicação de Goiás, incluindo Rádio CBN, Jornal O Popular, Jornal Opção e Rádio Sagres, onde apresentou o quadro Cinemateca Sagres.

Leia Também