A noção da vida como uma experiência plena, sempre pontuada pelos episódios de enfrentamento que lhe conferem densidade, contornos dramáticos, potência, significado, enfim, e que se arranjam de forma mais ou menos célere à medida que se encontra um ambiente que convida à discussão de seus raciocínios mais antagônicos, imediatamente remonta ao incontornável e difuso livre-arbítrio. Desse trampolim sidéreo, o homem se lança para a sua redenção ou para o seu calvário, na esperança de achar aquela sem passar pelo segundo, paradoxo que define uma medida generosa de nossa passagem por este plano, âmago do excelente “Família de Aluguel”. Sofisticada como de costume, a diretora japonesa Hikari mais uma vez atesta sua habilidade para lidar com temas como relacionamentos e inserção social num país bastante peculiar, mas cheio de possibilidades. Até pragmáticas demais para quem vê de fora.
Afeto a qualquer preço
Desde tenra idade, buscamos conexões. Sentir-se incluído pode levar toda uma vida, e enquanto não se chega a esse ponto da evolução humana, falta-nos um pedaço. Relações encenadas são o sustento de Phillip Vanderploeg, um ator em permanente ostracismo numa terra estranha. Esse americano triste frequenta velórios, sobe ao altar e assume paternidades mediante cachê. Há sete anos, Phillip trocou sua Minnesota natal por Ebisu, um bairro de Tóquio famoso pela diversidade cultural, em busca de uma virada na carreira, mas ainda é reconhecido por um comercial de pasta de dente, o cartão de visita desses trabalhos que só o Japão oferece. Hikari e o corroteirista Stephen Blahut enveredam por um nonsense bastante admissível ao jogar luz sobre as idiossincrasias da solidão nipônica, amarrando-a à solidão universal, à aridez da condição humana em si. Mas quem nos leva a rir disso é Brendan Fraser.

