Um homem doente deseja rever o filho que abandonou. Uma esposa procura corrigir erros antigos quando talvez já seja tarde. Um apresentador de televisão tenta manter o programa no ar enquanto sua vida pessoal desaba. Nas proximidades, um policial solitário conhece uma mulher assustada, um ex-garoto prodígio luta contra dívidas e uma criança percebe que os adultos ao redor valorizam mais seu talento do que seu bem-estar.
Lançado em 1999 e dirigido por Paul Thomas Anderson, “Magnólia” reúne essas histórias ao longo de um dia chuvoso no Vale de San Fernando, em Los Angeles. Os personagens não formam um grupo de amigos e tampouco sabem que vivem dramas parecidos. Eles estão unidos por laços familiares, pelo programa de perguntas e respostas “What Do Kids Know?” e pelas marcas deixadas por pais ausentes, autoritários ou cruéis.
O roteiro apresenta muita gente, mas distribui informações suficientes para que o público acompanhe cada núcleo. Anderson alterna as histórias com frequência e cria a sensação de que todos correm contra o mesmo relógio. A duração ultrapassa três horas, embora o filme raramente pareça parado. Sempre existe uma ligação sendo feita, uma visita indesejada, uma pergunta difícil ou alguém tentando esconder aquilo que já começou a aparecer.
Um pai procura o filho
Earl Partridge (Jason Robards) está acamado, com câncer, e depende dos cuidados do enfermeiro Phil Parma (Philip Seymour Hoffman). Perto da morte, ele manifesta o desejo de reencontrar o filho, Frank T. J. Mackey (Tom Cruise), afastado da família há muitos anos. Phil decide ajudá-lo e inicia uma busca por telefone, enfrentando atendentes, números errados e a dificuldade de chegar até um homem cercado por funcionários.
Frank se tornou uma celebridade entre homens inseguros. Ele apresenta seminários nos quais ensina técnicas de sedução baseadas em controle, arrogância e desprezo pelas mulheres. De colete preto, cabelo cuidadosamente penteado e energia de animador de auditório, transforma ressentimento em mercadoria. Sua plateia compra a pose porque ele fala com a confiança de quem parece nunca ter sido ferido.
Uma entrevista ameaça desmontar essa imagem. A repórter Gwenovier (April Grace) conhece dados da infância de Frank e faz perguntas sobre sua família. Ele tenta preservar o personagem criado para o palco, mas perde o domínio da conversa quando o passado deixa de ser uma lembrança particular. Tom Cruise oferece uma das atuações mais corajosas de sua carreira, usando a vaidade de Frank para esconder um filho ainda enfurecido com o pai.
Culpa dentro de casa
Linda Partridge (Julianne Moore), mulher de Earl, vive entre receitas, comprimidos e visitas à farmácia. Ela se casou por interesse, traiu o marido e passou a amá-lo quando a doença já havia tomado conta da casa. Sua culpa cresce porque Earl mal consegue falar, deixando poucas oportunidades para uma conversa capaz de aliviar o que ela carrega.
Julianne Moore interpreta Linda sem suavizar suas contradições. A personagem grita, chora, ofende pessoas que tentam ajudá-la e muda de ideia porque já não consegue organizar o próprio medo. É cansativa em certos instantes, mas esse desgaste pertence à situação. Linda possui dinheiro, acesso a medicamentos e poder sobre documentos importantes, porém nada disso devolve ao casal os anos desperdiçados.
Phil ocupa uma posição bem diferente. Ele é apenas o enfermeiro contratado, mas passa a tratar o último pedido de Earl com um cuidado que a família perdeu. Philip Seymour Hoffman faz do personagem uma presença generosa sem transformá-lo em santo. Phil tem pressa, fica nervoso e insiste demais ao telefone, pois sabe que a demora pode eliminar a chance de pai e filho dividirem o mesmo quarto.
Crianças usadas pela televisão
Outra parte da história ocorre nos bastidores de “What Do Kids Know?”, programa apresentado por Jimmy Gator (Philip Baker Hall). Há décadas no comando da atração, Jimmy também enfrenta um câncer. A doença aumenta seu desejo de se aproximar da filha Claudia Wilson (Melora Walters), embora ela rejeite qualquer contato e guarde motivos dolorosos para mantê-lo longe.
No estúdio, Stanley Spector (Jeremy Blackman) responde a perguntas difíceis enquanto o pai, Rick Spector (Michael Bowen), pensa no prêmio em dinheiro. Stanley possui conhecimento suficiente para derrotar adultos, mas não pode decidir quando descansar ou ir ao banheiro. O programa vende sua inteligência como entretenimento, e o pai enxerga o filho quase como uma fonte de renda. A situação fica mais cruel porque todos elogiam o menino enquanto ignoram aquilo que ele pede.
Donnie Smith (William H. Macy) conhece esse abandono. Ex-campeão infantil do mesmo programa, ele chegou à vida adulta sem o dinheiro conquistado, gasto pelos pais. Agora trabalha numa loja de eletrônicos, enfrenta dificuldades financeiras e está apaixonado por um bartender que mal conhece. Donnie acredita que uma mudança nos dentes poderá aproximá-lo desse homem, ideia ao mesmo tempo triste, ingênua e um pouco absurda.
William H. Macy mistura constrangimento e ternura sem zombar do personagem. Donnie toma decisões ruins porque deseja ser escolhido por alguém depois de uma vida inteira sendo valorizado apenas pelas respostas dadas na televisão. Seu passado serve ainda de alerta para Stanley. O menino admirado diante das câmeras pode se tornar outro adulto solitário quando as luzes do estúdio forem desligadas.
Dois solitários durante a chuva
Claudia mora sozinha, ouve música alta e usa drogas para suportar lembranças que prefere manter escondidas. Depois de uma reclamação dos vizinhos, o policial Jim Kurring (John C. Reilly) aparece em seu apartamento. Ele deveria verificar a ocorrência e seguir o expediente, mas acaba interessado por ela e propõe um encontro.
Jim é religioso, educado e bastante desajeitado. Fala com seriedade mesmo quando parece não saber onde colocar as mãos. Claudia, por sua vez, teme que qualquer proximidade termine quando ele descobrir seus vícios e sua relação conturbada com Jimmy. O romance nasce entre duas pessoas que desejam companhia, embora ambas tenham bons motivos para desconfiar de si mesmas.
John C. Reilly oferece leveza a um filme carregado de sofrimento. Jim não resolve a vida de Claudia e sequer controla bem o próprio trabalho. Ainda assim, ele permanece disposto a ouvi-la. Entre tantas pessoas preocupadas em dominar palcos, dinheiro, filhos e heranças, essa disponibilidade ganha um valor raro.
Uma cidade cheia de feridas
Paul Thomas Anderson acompanha os personagens em movimentos contínuos por corredores, estúdios, apartamentos e ruas molhadas. A montagem interrompe uma história no instante certo e abre outra que enfrenta pressão semelhante. A música de Aimee Mann atravessa vários núcleos e aproxima pessoas que ainda desconhecem o vínculo existente entre elas.
Nem tudo em “Magnólia” é discreto. Há choro, gritos, coincidências improváveis e acontecimentos que desafiam uma leitura realista. O diretor aposta alto e, em alguns trechos, chega perto do excesso. Porém, a entrega do elenco sustenta a proposta. Jason Robards transforma a fragilidade de Earl em urgência, Julianne Moore expõe uma culpa sufocante e Tom Cruise desmonta, camada por camada, a segurança fabricada de Frank.
“Magnólia” fala sobre pessoas que desejam escapar do passado, mas continuam carregando suas consequências no corpo, no trabalho e nas relações familiares. Algumas pedem perdão. Outras ainda procuram coragem para ouvir. Há também quem permaneça preso ao orgulho, mesmo quando o tempo disponível já está terminando.
Longo, intenso e por vezes incômodo, o filme exige atenção para muitos nomes e histórias. A recompensa está na maneira sensível com que observa seres humanos pouco elegantes em seus piores dias. Quando a chuva cai sobre o Vale de San Fernando, cada personagem precisa decidir se abre a porta, atende ao telefone ou permanece sozinho por mais uma noite.

