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Em 2003, durante a Guerra do Iraque, o repórter Bob Wilton (Ewan McGregor) viaja ao Kuwait após o fim do casamento e busca uma reportagem capaz de recuperar sua autoestima. Sem autorização para atravessar a fronteira, ele conhece Lyn Cassady (George Clooney), antigo integrante de uma unidade secreta do Exército norte-americano dedicada ao desenvolvimento de supostos poderes psíquicos. É desse encontro improvável que nasce “Os Homens Que Encaravam Cabras”, comédia de guerra dirigida por Grant Heslov.

Bob trabalhava num pequeno jornal de Michigan quando sua vida pessoal desmoronou. Sua esposa, Debora Wilton (Rebecca Mader), decidiu deixá-lo pelo editor Phil (Stephen Lang), homem que Bob despreza e contra quem pouco consegue fazer. Ferido no orgulho, o jornalista resolve viajar para o Oriente Médio. Ele deseja cobrir a guerra e voltar para casa com uma história importante, de preferência alguma que faça Debora lamentar a separação.

A ambição esbarra na realidade logo no Kuwait. Bob não possui experiência em conflitos armados nem autorização para entrar no Iraque. Enquanto outros correspondentes seguem para a fronteira, ele permanece no hotel, cercado por profissionais mais preparados e fontes inacessíveis. A viagem que deveria provar sua coragem corre o risco de terminar antes mesmo da primeira matéria.

É nesse período de espera que Bob conhece Lyn Cassady. O estranho afirma trabalhar para uma empresa particular, mas logo revela ter pertencido às Forças Especiais. Ele também garante que recebeu treinamento para desenvolver telepatia, atravessar paredes, localizar pessoas desaparecidas e matar animais usando apenas o olhar. Qualquer repórter sensato desconfiaria. Bob desconfia, embora a vontade de entrar no Iraque fale mais alto.

Lyn possui um passe para cruzar a fronteira e afirma cumprir uma missão secreta. Bob pede para acompanhá-lo, acreditando ter achado transporte, proteção e uma pauta irresistível. A escolha lhe garante acesso ao território iraquiano, mas entrega sua segurança a um homem que consulta a intuição antes de consultar o mapa.

Soldados da Nova Terra

Durante a viagem, Lyn conta que integrou a Nova Armada da Terra, unidade criada pelo tenente-coronel Bill Django (Jeff Bridges). Veterano do Vietnã, Django voltou da guerra convencido de que o Exército poderia formar combatentes menos violentos, mais sensíveis e dotados de capacidades paranormais. Seus métodos reuniam meditação, dança, exercícios mentais e tentativas de atravessar objetos sólidos.

A ideia parece uma piada, porém recebe autorização dentro da estrutura militar. Oficiais interessados em novas formas de espionagem aceitam financiar os treinamentos, enquanto Django transforma a unidade numa mistura de quartel, retiro espiritual e laboratório. Os recrutas aprendem a procurar inimigos com a mente e a observar cabras por longos períodos, esperando provocar alguma reação apenas com a força do pensamento.

Lyn torna-se o discípulo mais talentoso de Django. George Clooney interpreta o soldado com uma convicção tão firme que as afirmações mais absurdas ganham uma aparência provisória de credibilidade. Ele fala de “guerreiros Jedi” com a solenidade de quem apresenta um relatório militar, enquanto Bob tenta decidir se está diante de uma fonte valiosa ou de um lunático muito bem treinado.

A presença de Ewan McGregor acrescenta uma ironia saborosa à brincadeira. Conhecido pelo papel de Obi-Wan Kenobi em “Star Wars”, o ator vive um jornalista que nunca compreende as referências feitas aos Jedi. A piada permanece discreta e combina com o espírito da produção, que prefere deixar o absurdo circular livremente entre homens sérios.

Uma disputa dentro do quartel

O projeto de Bill Django começa a perder sua inocência quando Larry Hooper (Kevin Spacey) entra na unidade. Ressentido com o prestígio de Lyn, ele passa a disputar a atenção do comandante e procura transformar as experiências psíquicas em instrumentos mais agressivos. A rivalidade rompe a confiança entre os soldados e compromete o propósito original do grupo.

Hooper percebe que aquele programa oferece acesso, influência e dinheiro dentro do Exército. Em vez de compartilhar o ideal pacifista de Django, ele usa a linguagem espiritual para fortalecer sua autoridade. Suas ações afastam Lyn do comandante e deixam o fundador cada vez mais vulnerável perante os superiores.

As recordações explicam por que Lyn atravessa o Iraque em busca de Django, desaparecido após o encerramento da unidade. O antigo soldado acredita ter recebido um chamado para localizar o mentor, embora ofereça poucas informações sobre o destino da viagem. Bob aceita seguir adiante porque a história cresce a cada revelação e pode salvar sua carreira.

O entusiasmo dura pouco. O carro sofre um acidente, o deserto cobra água e orientação, e homens armados interrompem o percurso. Lyn tenta preservar a confiança nos próprios poderes, mas suas habilidades oferecem pouca proteção diante de armas e estradas desconhecidas. Bob percebe que conseguiu entrar na guerra, embora esteja muito longe da aventura controlada que imaginara no hotel.

O absurdo usado como arma

“Os Homens Que Encaravam Cabras” retira boa parte de sua graça do contraste entre o cenário perigoso e a seriedade dos personagens. Lyn descreve feitos paranormais enquanto enfrenta problemas comuns, como sede, transporte e falta de informações. Bob ouve tudo com espanto, mas continua perto dele porque não possui alternativa melhor para sair do deserto.

Grant Heslov intercala a viagem pelo Iraque com lembranças dos treinamentos da Nova Armada da Terra. Esse movimento revela aos poucos a origem de Lyn, a influência de Django e a rivalidade com Hooper. O passado também esclarece por que uma proposta aparentemente pacífica acaba apropriada por homens interessados em interrogatórios, controle e vantagens militares.

O filme se apoia no livro homônimo do jornalista britânico Jon Ronson, inspirado em pesquisas realizadas pelo Exército norte-americano durante a Guerra Fria. A mistura entre fatos e invenção oferece à comédia uma inquietação particular. As cabras, os exercícios mentais e as tentativas de atravessar paredes parecem ideias de uma sátira, embora tenham raízes em experiências realmente consideradas por setores militares.

Bob entra nessa história por orgulho, mas permanece por curiosidade profissional. Sua ingenuidade o coloca em perigo e também lhe permite ouvir Lyn sem desprezo. Existe afeto na maneira como o repórter observa aquele soldado deslocado, ainda preso a uma unidade desfeita e a um comandante desaparecido.

“Os Homens Que Encaravam Cabras” enfraquece quando acumula situações excêntricas, mas conserva uma leveza difícil de encontrar em comédias ambientadas numa guerra. Clooney sustenta o papel com segurança, McGregor oferece um bom contraponto e Jeff Bridges entrega a Bill Django uma serenidade desarmante. Kevin Spacey completa o grupo ao tornar Larry Hooper uma presença desagradável sem abandonar o tom farsesco.

A aventura de Bob revela uma instituição disposta a financiar qualquer ideia que prometa superioridade sobre o inimigo. Entre soldados sensitivos, empresários particulares e cabras submetidas a experiências, o jornalista finalmente obtém a grande história que procurava. O preço aparece quando ele precisa voltar vivo para escrevê-la.


Filme: Os Homens que Encaravam Cabras
Diretor: Grant Heslov
Ano: 2009
Gênero: Comédia/Guerra
Avaliação: 3.5/5 1 1
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