Jorge Furtado levou à Serra Gaúcha uma comunidade disposta a filmar um monstro para conseguir dinheiro e tratar o próprio esgoto. Os moradores da fictícia Linha Cristal, pequena vila de descendentes de italianos na Serra Gaúcha, convivem com um problema urgente. A comunidade precisa construir uma fossa para tratar o esgoto, mas não possui dinheiro para realizar a obra. Marina (Fernanda Torres) assume a tarefa de procurar a subprefeitura e cobrar uma solução.
Joaquim (Wagner Moura), marido de Marina, acompanha a movimentação com menos entusiasmo. Ele sabe que a obra é necessária, porém também desconfia da facilidade com que uma reivindicação comunitária pode virar trabalho voluntário. A suspeita faz sentido. Na prefeitura, Marina descobre que a necessidade foi reconhecida, mas não existe verba destinada ao saneamento.
Há, contudo, quase R$ 10 mil reservados para a produção de um filme. O dinheiro veio do governo federal e precisa ser utilizado dentro de um prazo determinado. Caso ninguém apresente um projeto, a prefeitura terá de devolvê-lo. A administração pode financiar uma história inventada, mas permanece sem autorização para pagar pela fossa de que os moradores realmente precisam.
A contradição estabelece a graça e a inteligência de “Saneamento Básico, o Filme”. Marina decide produzir uma obra audiovisual e aproveitar parte do recurso na construção da fossa. O regulamento, porém, exige uma ficção. Um documentário sobre os trabalhos não seria aceito. Para liberar o dinheiro, aquela comunidade terá de criar personagens, preparar um roteiro e colocar um monstro diante da câmera.
Nasce o Bicho do Fosso
Marina começa a escrever uma história sobre uma criatura surgida entre o lixo e o esgoto. O projeto recebe o título de “O Monstro do Fosso” e transforma pessoas comuns em uma equipe de cinema improvisada. Ninguém conhece bem as funções de uma filmagem, mas todos parecem ter alguma opinião sobre o que deve aparecer na tela.
Silene (Camila Pitanga), irmã de Marina, aceita interpretar a mocinha. Bonita, expansiva e fascinada pela oportunidade de atuar, ela enxerga na produção algo maior do que uma obrigação burocrática. Seu namorado, Fabrício (Bruno Garcia), fica responsável pela câmera. A experiência dele é limitada, embora sua segurança diante do equipamento sugira uma carreira inteira no audiovisual.
Joaquim assume o papel do monstro e também tenta vigiar os gastos. A missão se torna cada vez mais difícil. Uma ideia pede figurino, outra requer equipamentos e até uma cena curta passa a exigir preparação. O dinheiro que deveria ajudar na fossa começa a financiar as necessidades de “O Monstro do Fosso”. O curta, planejado como uma formalidade barata, ganha tamanho, elenco e vaidade.
Zico (Lázaro Ramos) entra na produção e ajuda a aumentar a agitação em torno das gravações. Otaviano (Paulo José), pai de Marina e Silene, acompanha o projeto com a experiência de quem conhece as limitações da vila. Antônio (Tonico Pereira) também integra esse conjunto de moradores que tenta resolver um problema de infraestrutura enquanto descobre os encantos e as confusões do cinema.
Todo mundo quer participar
Jorge Furtado tira graça da distância entre o objetivo dos moradores e aquilo que eles passam a desejar. Marina quer garantir o recurso e construir a fossa. Silene deseja caprichar na interpretação. Fabrício se empolga com a câmera. Joaquim teme que a aventura consuma o orçamento. Cada pessoa entra por uma razão diferente, e essas vontades começam a disputar os mesmos poucos reais.
Fernanda Torres dá a Marina uma mistura deliciosa de firmeza e cansaço. A personagem tenta organizar parentes, vizinhos, contas e gravações sem possuir autoridade profissional sobre ninguém. Quando consegue resolver uma dificuldade, outra já aparece. Seu esforço mantém a produção em movimento, embora o dinheiro disponível continue preso a regras que pouco ajudam a comunidade.
Wagner Moura trabalha Joaquim com uma irritação muito reconhecível. Ele participa porque a mulher precisa de apoio e porque a fossa também diz respeito à sua vida, mas não abandona a sensação de que tudo aquilo passou do razoável. Seu desempenho fica ainda melhor quando Joaquim precisa vestir a criatura concebida por Marina. O homem preocupado com custos torna-se a peça central de uma ficção científica rural.
Camila Pitanga aproveita o entusiasmo de Silene sem transformá-la numa caricatura. A jovem gosta da atenção, acredita em sua capacidade de atuar e oferece à produção uma energia que Marina jamais conseguiria criar sozinha. Bruno Garcia acompanha esse movimento com um Fabrício convencido de que consegue dominar a filmagem. Entre os dois, a câmera também interfere na relação amorosa e distribui pequenas parcelas de poder.
Uma comédia sobre dinheiro público
A burocracia ocupa um lugar central, mas “Saneamento Básico, o Filme” nunca vira uma palestra administrativa. Jorge Furtado coloca as regras dentro das ações dos personagens. Marina escreve porque o projeto exige um roteiro. O grupo grava porque a verba depende da entrega de uma ficção. Joaquim controla despesas porque cada escolha artística retira dinheiro de um orçamento já apertado.
Esse desenho permite que a crítica política caminhe junto com a comédia. A prefeitura reconhece a urgência sanitária, porém só pode liberar recursos para uma produção audiovisual. Os moradores aceitam a brecha e passam a cumprir exigências que não têm relação com sua necessidade original. A situação parece absurda porque é organizada, documentada e perfeitamente possível dentro daquele modelo administrativo.
O roteiro também observa o fascínio causado pelo cinema. Quando as gravações começam, o curta deixa de ser apenas um meio para obter dinheiro. Silene quer uma boa atuação, Fabrício deseja imagens melhores e os demais moradores passam a olhar a produção com curiosidade. A câmera oferece prestígio a quem fica diante dela e autoridade a quem permanece atrás.
Essa mudança ameaça a prioridade estabelecida por Marina. Quanto mais elaborado fica “O Monstro do Fosso”, maior se torna o risco de a ficção consumir os recursos da realidade. A fossa continua esperando, enquanto figurinos, equipamentos e cenas disputam espaço no orçamento. O impasse sustenta a história sem transformar os personagens em exemplos de honestidade ou incompetência. Eles são pessoas empolgadas diante de uma oportunidade rara.
O Brasil visto por uma vila
A Linha Cristal possui dimensões pequenas, mas reconhece um problema familiar a muitas cidades brasileiras. A comunidade sabe do que precisa, procura o poder público e esbarra numa divisão de verbas incapaz de atender à urgência local. Os moradores, então, contornam a regra usando criatividade, trabalho coletivo e uma disposição admirável para passar vergonha diante da câmera.
Jorge Furtado mantém o enredo acessível mesmo quando discute financiamento público, produção cultural e abandono sanitário. A crítica nasce das escolhas dos moradores e do custo de cada escolha. Ninguém precisa explicar o absurdo, pois basta observar uma vila obrigada a inventar um monstro para tentar construir uma fossa.
“Saneamento Básico, o Filme” é divertido porque trata seus personagens com carinho, inclusive quando eles exageram, gastam além do planejado ou se apaixonam pela filmagem. Marina começa procurando uma solução para o esgoto e acaba administrando uma equipe inteira. Ao redor dela, Joaquim, Silene, Fabrício, Zico e Otaviano transformam uma exigência burocrática em acontecimento comunitário. Enquanto a criatura ganha corpo diante da câmera, a fossa continua cobrando dinheiro, prazo e trabalho.

