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Tommy Shelby (Cillian Murphy) vive afastado de Birmingham em 1940, durante a Segunda Guerra Mundial, quando os negócios do filho ameaçam a família e o próprio país. Em “Peaky Blinders: O Homem Imortal”, o antigo chefe retorna a Small Heath para conter Duke Shelby (Barry Keoghan), agora próximo de um agente fascista interessado no poder dos Peaky Blinders. Dirigido por Tom Harper, o longa transforma a herança deixada por Tommy em uma perigosa disputa entre pai e filho.

Seis anos se passaram desde os acontecimentos que encerraram a série. Tommy deixou Birmingham e escolheu uma vida distante dos negócios, dos aliados e das disputas que sustentaram sua autoridade. A aposentadoria, contudo, trouxe pouco sossego. Ele continua assombrado pelas pessoas que perdeu e pelos crimes cometidos durante a ascensão da família Shelby.

Enquanto Tommy tenta desaparecer, Small Heath segue em movimento. O império erguido por ele permanece de pé, mas ganhou outro comando. Duke, seu filho, ocupou o espaço deixado pelo pai e passou a tomar decisões em nome dos Peaky Blinders. O rapaz herdou o sobrenome, os contatos e a ambição familiar, embora ainda carregue o ressentimento de quem cresceu sem receber atenção suficiente.

Duke deseja provar que pode controlar os negócios sem a tutela paterna. O problema surge quando essa necessidade de afirmação o aproxima de Beckett (Tim Roth), um agente fascista que enxerga a organização criminosa como instrumento político. O novo aliado oferece prestígio e influência ao jovem Shelby, enquanto busca acesso ao dinheiro, aos homens e à estrutura acumulada pela família.

A relação ameaça ultrapassar as ruas de Birmingham. Em plena guerra, qualquer acordo com um representante do fascismo britânico carrega consequências nacionais. Duke acredita estar fortalecendo sua liderança, mas permite que Beckett se aproxime de recursos capazes de alimentar uma operação muito maior. A distância de Tommy, antes tratada como abandono familiar, torna-se uma brecha perigosa para todos.

A volta às ruas de Birmingham

Tommy recebe notícias sobre os passos do filho e abandona o isolamento. O retorno a Small Heath, porém, está longe de repetir os velhos tempos. Ele volta mais velho, cansado e cercado pelas lembranças de parentes mortos. Ainda conserva a inteligência que o transformou em chefe, mas já não controla sozinho as pessoas e os negócios ligados ao sobrenome Shelby.

Cillian Murphy interpreta esse desgaste sem transformar Tommy em uma caricatura melancólica. Seu silêncio ainda intimida, porém agora também denuncia o peso de uma vida dedicada à sobrevivência. O personagem observa os antigos domínios com a cautela de quem reconhece cada rua, embora saiba que o bairro aprendeu a funcionar sem sua presença.

Tom Harper usa esse retorno para aproximar o drama familiar do contexto histórico. A Segunda Guerra Mundial muda o valor do dinheiro, das armas e das informações que circulam entre os criminosos. Aquilo que antes decidia a posse de uma casa de apostas agora pode favorecer grupos interessados em interferir na estabilidade britânica. Tommy precisa agir porque o império familiar entrou em uma disputa maior do que ele próprio planejou.

A missão exige que o antigo chefe recupere contatos e descubra até onde Beckett entrou nos negócios. Cada passo também o aproxima de Duke, o homem que ele deveria tratar como filho, mas deixou crescer quase como um desconhecido. A dificuldade não está apenas em afastar o fascista. Tommy precisa recuperar alguma autoridade sem transformar Duke em adversário definitivo.

Um filho criado pela ausência

Barry Keoghan interpreta Duke como um jovem inquieto, orgulhoso e ansioso por reconhecimento. Sua ambição nasce da certeza de que recebeu uma herança, mas nunca conquistou a confiança do pai. Quando Beckett lhe oferece atenção e influência, ele aceita porque vê ali a figura de autoridade que Tommy se recusou a representar.

Essa escolha oferece ao filme sua questão mais humana. Duke deseja independência, mas toma decisões guiadas pelo abandono. Tommy tenta impedir os planos do filho, embora tenha participado silenciosamente da criação daquele ressentimento. Os dois falam sobre poder porque tratar de afeto seria constrangedor demais para uma família que resolve quase tudo com dinheiro, ameaças e ternos impecáveis.

A ironia aparece na posição ocupada por Tommy. Durante anos, ele desapareceu quando precisava proteger os próprios interesses ou manter a família longe de seus segredos. Agora, volta para reclamar o comando e descobre que ninguém deixou a cadeira vazia esperando por ele. Duke pode ter cometido erros graves, mas não pretende entregar facilmente o espaço conquistado.

Tommy sabe que a força bruta não resolverá a situação. Atacar Beckett sem considerar a ligação dele com Duke poderia empurrar o rapaz ainda mais para o lado fascista. Pressionar o filho também colocaria em risco os homens que passaram a seguir suas ordens. O antigo chefe precisa desmontar a aliança por dentro enquanto tenta preservar um vínculo que quase nunca alimentou.

O fascismo entra nos negócios

Tim Roth oferece a Beckett uma cordialidade que incomoda mais do que ameaças espalhafatosas. O personagem aproxima-se de Duke com promessas de estabilidade e respeito, mas pretende usar a família Shelby para executar seus próprios planos. Ele reconhece a fragilidade do rapaz e transforma a necessidade de aprovação em porta de entrada para o império.

A presença de Beckett também devolve Tommy ao terreno político. O protagonista já conviveu com ministros, revolucionários e extremistas, embora geralmente usasse essas relações para proteger a família ou fortalecer os negócios. Desta vez, sua ausência permitiu que outra pessoa ocupasse esse espaço. A disputa envolve quem controla os recursos dos Peaky Blinders e qual projeto receberá esse poder.

Kaulo (Rebecca Ferguson) participa do movimento que tira Tommy do isolamento e o leva novamente à crise familiar. A personagem reconhece o perigo formado em Birmingham e aproxima o antigo chefe das informações que ele precisa. Rebecca Ferguson preserva certo mistério ao redor de Kaulo, mas sua presença tem uma função concreta. Ela rompe a distância entre Tommy e os acontecimentos que ele preferia ignorar.

A família cobra sua dívida

“Peaky Blinders: O Homem Imortal” mantém a identidade criminal da série, mas trabalha com um Tommy menos seduzido pelo próprio poder. Ele retorna porque percebe que a sobrevivência da família depende de uma intervenção. Ainda assim, o longa não oferece uma reconciliação fácil entre pai e filho. Duke quer respostas para anos de abandono, enquanto Tommy possui poucas palavras capazes de reparar esse dano.

O roteiro de Steven Knight acerta ao colocar a disputa política dentro de uma ferida doméstica. Beckett consegue avançar porque Duke deseja ser visto. Tommy precisa agir porque demorou demais para olhar. A ameaça fascista cresce entre os dois, alimentada por uma relação em que orgulho e culpa sempre falaram mais alto do que carinho.

Cillian Murphy sustenta o filme com a familiar mistura de frieza, inteligência e exaustão. Barry Keoghan acrescenta nervosismo ao legado dos Shelby, enquanto Tim Roth transforma gentileza em sinal de perigo. Rebecca Ferguson entra nesse universo sem parecer deslocada e oferece a Kaulo autoridade suficiente para interferir nas escolhas de Tommy.

Tom Harper preserva a fuligem, os ternos e a violência associados aos Peaky Blinders, mas mantém o foco no que mudou durante a ausência do protagonista. Tommy já não volta para conquistar Birmingham. Ele retorna para impedir que Duke entregue o império familiar a alguém disposto a usá-lo contra o país. Ao atravessar novamente Small Heath, o antigo chefe recupera seu lugar na disputa e força o filho a encarar o homem que deixou para trás.


Filme: Peaky Blinders: O Homem Imortal
Diretor: Tom Harper
Ano: 2016
Gênero: Crime/Drama/Suspense
Avaliação: 3.5/5 1 1
Fer Kalaoun

Fer Kalaoun é editora na Revista Bula e repórter especializada em jornalismo cultural, audiovisual e político desde 2014. Estudante de História no Instituto Federal de Goiás (IFG), traz uma perspectiva crítica e contextualizada aos seus textos. Já passou por grandes veículos de comunicação de Goiás, incluindo Rádio CBN, Jornal O Popular, Jornal Opção e Rádio Sagres, onde apresentou o quadro Cinemateca Sagres.

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