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Gabrielle Chanel (Audrey Tautou) tenta conquistar independência na França do início do século 20, quando profissão, dinheiro e prestígio pertenciam quase sempre aos homens. Em “Coco Antes de Chanel”, drama biográfico lançado em 2009 e dirigido por Anne Fontaine, a futura estilista trabalha como costureira e cantora antes de ingressar nos círculos da aristocracia. Seu talento para criar chapéus oferece uma saída, mas cada oportunidade vem acompanhada por dependências afetivas, regras sociais e interesses que ela não controla.

Gabrielle e a irmã Adrienne (Marie Gillain) passam parte da infância em um orfanato, onde aguardam a volta do pai. Ele nunca retorna. Anos depois, as duas trabalham em uma pequena cidade francesa. Durante o dia, costuram roupas para artistas. À noite, cantam em um cabaré frequentado por militares e homens ricos.

É nesse ambiente que Gabrielle recebe o apelido Coco. O nome nasce de uma canção apresentada pelas irmãs e acompanha a jovem muito antes de Chanel representar luxo, perfume e alta-costura. Naquele período, Coco dispõe de poucas opções. Cantar paga mal, costurar garante apenas o necessário e a vida independente parece distante.

Adrienne deseja construir uma família com o homem que ama. Coco olha para o casamento com maior desconfiança. Ela percebe que muitas mulheres ao seu redor dependem da aprovação masculina até para decidir onde morar. Sua postura pode soar ríspida, mas nasce do medo de repetir a história da mãe, marcada por abandono, pobreza e falta de escolha.

Audrey Tautou interpreta Gabrielle com firmeza e contenção. A atriz não transforma a futura estilista em uma heroína sempre agradável. Coco é observadora, orgulhosa e pouco paciente com formalidades. Também sabe usar uma frase seca para desmontar uma conversa inconveniente. Quando todos esperam delicadeza, ela costuma oferecer sinceridade, nem sempre embrulhada para presente.

A entrada na aristocracia

A rotina muda quando Coco conhece Étienne Balsan (Benoît Poelvoorde), um herdeiro rico ligado à criação de cavalos. Depois de abandonar o cabaré, ela procura Balsan em sua propriedade e insiste em permanecer ali. A casa oferece conforto, alimentação e contato com pessoas influentes, mas Coco ocupa um lugar incerto. Para os convidados, ela é uma presença curiosa. Para Balsan, representa uma companhia cuja ambição ele ainda não leva muito a sério.

Coco aproveita o novo ambiente para observar as mulheres da alta sociedade. Os chapéus enormes, os espartilhos apertados e os vestidos carregados de enfeites parecem pertencer a uma vida baseada mais na aparência do que no conforto. Ela prefere peças simples, tecidos leves e roupas masculinas adaptadas ao próprio corpo. Quando surge vestida com calças ou camisas largas, provoca olhares espantados. Também ganha atenção sem precisar disputar espaço verbalmente.

Balsan permite que Coco circule entre seus amigos, mas não imagina que aquela convivência poderá se transformar em profissão. Ela começa a confeccionar chapéus para conhecidas e percebe que existe interesse por modelos menos ornamentados. A atriz Émilienne d’Alençon (Emmanuelle Devos), frequentadora daquele círculo, ajuda a apresentar suas criações a outras mulheres. Cada nova cliente oferece visibilidade, embora Coco ainda dependa da casa e dos contatos de Balsan.

Benoît Poelvoorde entrega um Balsan mais complexo do que o homem rico usado apenas como escada social. Ele gosta de Coco, admira sua inteligência e se diverte com sua irreverência. Ainda assim, demora a aceitar que ela deseja uma vida profissional própria. Seu afeto vem misturado à conveniência de mantê-la por perto. A relação garante acesso à aristocracia, mas não oferece a autonomia procurada por Gabrielle.

Um amor e novas oportunidades

Entre os amigos de Balsan está Arthur “Boy” Capel (Alessandro Nivola), empresário inglês que percebe a seriedade do trabalho de Coco. Boy presta atenção aos chapéus, às ideias e à vontade dela de construir uma atividade rentável. A aproximação desperta interesse amoroso, mas também acrescenta uma possibilidade profissional que Balsan tratava com certa condescendência.

Arthur possui dinheiro, contatos e experiência comercial. Coco possui talento e uma percepção incomum sobre aquilo que as mulheres gostariam de vestir. Essa combinação abre caminho para projetos maiores, embora a diferença econômica entre os dois permaneça evidente. Ela aceita apoio, mas se incomoda quando descobre quanto seu futuro depende da autorização ou dos recursos de outra pessoa.

O romance ocupa espaço importante em “Coco Antes de Chanel”, sem apagar o desejo de trabalho da protagonista. Gabrielle se apaixona por Boy, vivido por Alessandro Nivola com elegância e discrição, mas não abandona a vontade de conquistar renda própria. Para ela, amor e independência precisam coexistir. O problema está numa época em que os homens podiam manter negócios, amantes e compromissos sociais, enquanto as mulheres pagavam um preço maior por escolhas semelhantes.

Anne Fontaine trata essa relação com sensibilidade, sem transformar Coco numa personagem movida apenas pelo romance. Mesmo apaixonada, ela continua desenhando, costurando e procurando clientes. Boy abre portas importantes, porém a habilidade necessária para atravessá-las pertence a Gabrielle. O vínculo sentimental oferece afeto e incentivo, mas também expõe a fragilidade de uma liberdade sustentada pelo dinheiro alheio.

A moda nasce do desconforto

Os chapéus permitem que Coco comece a ocupar um lugar próprio. Mulheres interessadas em suas peças procuram modelos mais leves, elegantes e compatíveis com uma rotina menos cerimoniosa. O trabalho cresce porque Gabrielle observa necessidades ignoradas pelos costumes. Ela não tenta impressionar por excesso. Prefere retirar enfeites, abandonar volumes e permitir que o corpo se mova.

O figurino ajuda a contar essa mudança sem interromper o enredo. No começo, Coco aparece cercada por uniformes, vestidos pesados e roupas associadas à sua condição social. Conforme desenvolve um estilo próprio, suas peças ficam mais sóbrias e reconhecíveis. A transformação das roupas acompanha o aumento da clientela e a aproximação de uma carreira, mantendo cada escolha ligada ao trabalho.

Audrey Tautou sustenta a personagem por meio de pequenos gestos. Coco examina tecidos, repara em mangas desconfortáveis e observa mulheres escondidas sob chapéus desproporcionais. A atuação preserva a dureza de alguém acostumada a perder pessoas e lugares. Quando recebe uma oportunidade, Gabrielle raramente demonstra gratidão de maneira convencional. Sua prioridade é garantir que aquela porta continue aberta por mérito próprio.

“Coco Antes de Chanel” concentra a história no período anterior à fama mundial. Essa escolha impede que a produção se transforme numa sucessão de conquistas conhecidas. Anne Fontaine acompanha a jovem pobre, talentosa e teimosa que ainda precisa convencer os outros de que seu trabalho possui valor. A mulher celebrada pela moda aparece apenas como possibilidade distante. O que existe diante do público é uma costureira determinada a ter casa, renda e nome próprios.

A cinebiografia é elegante, acessível e humana. Coco pode ser fria, impaciente e difícil, mas sua personalidade combina com o mundo que precisou enfrentar. Ela aprende a usar os ambientes aristocráticos sem permitir que eles definam inteiramente sua identidade. Quando os chapéus começam a chegar às clientes, Gabrielle conquista algo maior do que aprovação social. Pela primeira vez, seu trabalho lhe oferece uma passagem para uma vida escolhida por ela.

Fernando Machado

Fernando Machado é jornalista e cinéfilo, com atuação voltada para conteúdo otimizado, Google Discover, SEO técnico e performance editorial. Na Cantuária Sites, integra a frente de projetos que cruzam linguagem de alta qualidade com alcance orgânico real.

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