“Coco Antes de Chanel” começa longe do luxo associado ao nome Chanel. Anne Fontaine apresenta Gabrielle Chanel ainda jovem, vivendo num orfanato ao lado da irmã Adrienne (Marie Gillain), depois de ser deixada pelo pai. O abandono pesa sobre a personagem durante toda a história, ainda que ela raramente fale disso de maneira aberta. Audrey Tautou interpreta Coco como alguém observador, inquieto e pouco disposto a aceitar o lugar que lhe oferecem. Ela costura durante o dia e canta em um bar simples à noite, tentando ganhar dinheiro num ambiente frequentado por soldados e homens interessados mais em diversão do que em talento musical.
É nesse bar que surge o apelido Coco. A música repetida inúmeras vezes pelos clientes transforma Gabrielle numa figura conhecida daquele espaço apertado e esfumaçado. Anne Fontaine filma essas cenas sem glamour. O palco é pequeno, os homens interrompem as apresentações e as mulheres dependem constantemente da boa vontade masculina para continuar ali. Coco percebe cedo que talento sozinho não abre portas naquela França do início do século 20. Relações sociais, dinheiro e sobrenomes importantes têm muito mais peso.
Estilo que chama atenção
Quando Étienne Balsan, interpretado por Benoît Poelvoorde, leva Coco para viver em sua propriedade, a vida dela muda. Balsan é rico, rodeado por cavalos, festas e mulheres elegantes que passam os dias circulando entre apostas e encontros sociais. Coco entra naquele ambiente como visitante tolerada. Ela dorme em quartos confortáveis, usa roupas caras e frequenta jantares sofisticados, mas continua sendo vista como alguém deslocada. Audrey Tautou trabalha muito bem esse desconforto silencioso. Coco fala pouco, observa muito e passa boa parte do tempo tentando entender como aquelas pessoas vivem.
O filme cresce bastante dentro dessa casa. Anne Fontaine mostra que Coco aprende observando detalhes. Ela percebe o incômodo das mulheres com vestidos exagerados, chapéus enormes e roupas pouco funcionais. Enquanto as outras seguem regras rígidas de aparência, Coco começa a usar peças mais simples e masculinas. A diferença chama atenção. Primeiro surgem comentários discretos. Depois aparecem pedidos de chapéus semelhantes aos dela. Aos poucos, a costura deixa de ser apenas sobrevivência e vira possibilidade real de independência financeira.
Existe até certa ironia divertida nessas cenas. Coco circula entre aristocratas extremamente produzidas usando roupas simples e chapéus discretos, quase como alguém que entrou na festa errada por engano. Mesmo assim, ela acaba se tornando a pessoa mais interessante daqueles ambientes. Anne Fontaine entende que elegância, para Coco, nasce menos da ostentação e mais da capacidade de cortar excessos.
Novo relacionamento
A chegada de Arthur Capel, interpretado por Alessandro Nivola, altera bastante o rumo da história. Arthur é amigo de Balsan, empresário inglês e um homem mais atento à inteligência de Coco do que apenas à sua aparência. Diferente dos outros homens que circulam pela trama, ele percebe que ela deseja construir algo próprio. Arthur incentiva a abertura de uma loja e ajuda Coco financeiramente. Ao mesmo tempo, a relação entre os dois nunca se torna completamente tranquila. Existe carinho verdadeiro, mas também limites sociais difíceis de ignorar.
O relacionamento cresce entre viagens, encontros discretos e negociações constantes sobre espaço e liberdade. Coco quer independência, mas ainda depende do dinheiro e da influência masculina para alcançar seus objetivos. Arthur oferece oportunidades importantes, porém também pertence a uma elite acostumada a controlar tudo ao redor. Essa tensão sustenta boa parte do filme.
Personalidade cativante
“Coco Antes de Chanel” mantém atenção nos pequenos movimentos da personagem. Em vez de transformar Gabrielle Chanel numa figura inalcançável, o roteiro mostra uma mulher tentando sobreviver dentro de ambientes hostis. Ela erra, se irrita, fica insegura e também sabe manipular situações quando necessário. Audrey Tautou encontra equilíbrio interessante entre fragilidade e firmeza. Seu olhar frequentemente parece cansado daqueles salões luxuosos, ainda que ela entenda perfeitamente a importância de continuar frequentando cada um deles.
Anne Fontaine também acerta ao tratar a moda como ferramenta social. Os vestidos, os chapéus e os tecidos aparecem ligados às mudanças na posição de Coco dentro daquela sociedade. Quando ela começa a vender suas peças, passa a ser vista com outro respeito. O dinheiro modifica relações. As portas antes fechadas se abrem aos poucos. Ainda assim, cada conquista exige algum preço emocional.
A direção aposta numa encenação elegante e contida. Os cenários luxuosos aparecem sem exageros e ajudam a reforçar a distância entre Coco e o mundo aristocrático que ela tenta atravessar. A fotografia privilegia tons mais suaves e acompanha bem o clima melancólico da história. Anne Fontaine prefere registrar silêncios, olhares e pequenos gestos em vez de transformar cada conflito em cena grandiosa.
“Coco Antes de Chanel” retrata uma mulher que tenta construir autonomia num período em que quase tudo dependia da aprovação masculina. A obra acompanha o nascimento da estilista famosa sem cair na obrigação de transformar Gabrielle Chanel em heroína perfeita. Quando Coco começa a ocupar espaços importantes com seus próprios chapéus e vestidos, a sensação é menos de triunfo absoluto e mais de permanência conquistada com insistência, observação e muita teimosia.

