Em Sydney, no verão de 1959, a estudante Lisa (Angourie Rice) aguarda o resultado dos exames escolares enquanto trabalha temporariamente na sofisticada loja de departamentos Goode’s. Ela sonha em estudar na Universidade de Sydney, embora o pai considere esse plano ambicioso demais para uma garota. Dirigido por Bruce Beresford, “Damas de Preto” acompanha o amadurecimento da jovem entre vestidos caros, novas amizades e mulheres que já aprenderam a reivindicar algum espaço numa Austrália ainda presa a costumes conservadores.
Lisa leva uma vida protegida no subúrbio australiano. Inteligente, tímida e apaixonada por literatura, ela deseja continuar os estudos, mas depende das notas e da aprovação familiar. Durante as férias de Natal, consegue uma vaga temporária na Goode’s, uma grande loja frequentada por mulheres de maior poder aquisitivo.
O emprego coloca Lisa em contato com um cotidiano bem diferente daquele conhecido em casa. Na loja, as funcionárias usam vestidos pretos, atendem clientes exigentes e obedecem a uma rígida divisão de funções. A jovem começa nos serviços mais simples, mas observa tudo ao redor com interesse. Enquanto aprende a lidar com mercadorias e compradores, também descobre que o mundo oferece escolhas que sua família jamais mencionou.
O uniforme preto poderia apagar a personalidade das vendedoras, porém acontece o contrário. Cada uma carrega desejos, frustrações e conflitos próprios. A loja reúne mulheres que precisam trabalhar, preservar aparências e lidar com homens nem sempre dispostos a ouvi-las. Beresford apresenta essas histórias com delicadeza, sem transformar as personagens em exemplos perfeitos de coragem.
Magda abre uma nova porta
A maior influência sobre Lisa vem de Magda (Julia Ormond), uma imigrante eslovena responsável pelo setor de vestidos importados. Elegante, culta e segura, ela percebe a curiosidade da estudante e passa a incluí-la em conversas que ultrapassam o expediente. Livros, arte, moda e universidade entram no vocabulário diário da jovem.
Magda vive com o marido, Stefan (Vincent Perez), e circula entre outros europeus que chegaram à Austrália depois da guerra. Seu grupo representa uma Sydney mais aberta e cosmopolita, ainda observada com desconfiança por parte da população local. Perto deles, Lisa conhece hábitos, comidas e ideias ausentes em sua rotina suburbana.
Julia Ormond oferece à personagem uma combinação agradável de sofisticação e generosidade. Magda sabe que chama atenção e não pede desculpas por isso. Quando orienta Lisa sobre roupas, estudos ou comportamento, sua interferência nunca parece gratuita. Ela reconhece na garota uma inteligência que o pai ainda prefere tratar como fantasia adolescente.
Um vestido especial reforça essa aproximação. Lisa se encanta por uma peça muito acima de suas possibilidades financeiras, e Magda percebe o desejo da jovem. O interesse pela roupa guarda uma vontade maior. Lisa quer descobrir quem poderá ser quando deixar de aceitar apenas aquilo que outras pessoas escolheram para ela. O preço, porém, devolve a estudante à realidade de seu salário temporário.
Fay enfrenta os próprios receios
Entre as colegas da Goode’s está Fay (Rachael Taylor), uma mulher solteira que acumula decepções amorosas e certa resistência aos imigrantes. Ela deseja construir uma relação estável, mas parece pouco disposta a considerar homens fora do círculo social ao qual está acostumada. Magda aproxima Fay de Rudi (Ryan Corr), um húngaro educado, espontâneo e interessado em casamento.
As diferenças culturais criam situações divertidas, sobretudo porque Rudi possui uma sinceridade difícil de disfarçar. Fay tenta manter alguma distância, enquanto ele fala de seus planos com entusiasmo. A aproximação dos dois permite que o romance avance sem transformar a personagem numa mulher desesperada por companhia. Fay possui inseguranças, preconceitos e desejos bastante reconhecíveis, o que torna sua mudança gradual mais convincente.
Rachael Taylor trabalha bem o desconforto de uma mulher que tenta preservar a independência enquanto admite a possibilidade de confiar em alguém. Ryan Corr dá a Rudi uma simpatia levemente atrapalhada. Ele pode parecer apressado nos assuntos do coração, mas sua disposição afetiva contrasta com os homens australianos que Fay conheceu até aquele verão.
Outra funcionária, Patty (Alison McGirr), enfrenta problemas no casamento com Frank (Luke Pegler). Ela sente falta de atenção e procura maneiras de recuperar a intimidade do casal. Frank interpreta mal alguns gestos, Patty guarda o que deveria dizer, e os dois transformam carência em confusão doméstica. A graça dessas passagens nasce da falta de conversa entre pessoas que dividem a mesma casa, mas parecem ter recebido manuais diferentes sobre casamento.
A universidade dentro de casa
O principal impedimento de Lisa continua sendo o senhor Miles (Shane Jacobson), seu pai. Ele não enxerga a universidade como um destino natural para a filha e prefere uma vida que considere segura. A senhora Miles (Susie Porter), mãe da jovem, demonstra maior sensibilidade, embora também esteja habituada a uma organização familiar na qual o marido decide os assuntos importantes.
Lisa precisa esperar as notas, buscar uma bolsa e convencer o pai de que estudar não constitui capricho. Esses passos tornam seu amadurecimento bastante concreto. Ela não acorda subitamente independente. Continua morando com os pais, precisa do emprego e conhece as restrições financeiras da família. A diferença está na firmeza crescente com que passa a defender o próprio futuro.
Angourie Rice sustenta essa mudança sem abandonar a timidez inicial da personagem. Lisa permanece gentil e observadora, mas deixa de esconder suas ambições para manter a paz doméstica. A convivência com Magda e as demais vendedoras oferece exemplos variados de vida adulta. Algumas trabalham por necessidade, outras buscam realização, afeto ou liberdade. Nenhuma possui tudo aquilo que deseja.
Leveza sem ingenuidade
Bruce Beresford ambienta “Damas de Preto” num período de transformação cultural da Austrália. A imigração europeia modifica hábitos e relações, enquanto mulheres passam a desejar mais independência dentro e fora de casa. O diretor insere essas mudanças nas escolhas das personagens, sem interromper a história para oferecer lições históricas.
A loja de departamentos ocupa um lugar central porque reúne classes, gerações e nacionalidades diferentes. No salão de vendas, uma roupa pode indicar prestígio, desejo ou acesso a ambientes antes distantes. Por trás dos balcões, mulheres conversam sobre dinheiro, casamento e futuro enquanto cumprem horários e atendem clientes. A elegância do espaço não elimina suas dificuldades, apenas lhes dá uma embalagem mais bonita.
“Damas de Preto” é uma comédia dramática afetuosa, otimista e consciente de suas personagens. O filme fala de mudanças possíveis sem fingir que elas acontecem sem resistência. Lisa começa o verão esperando uma nota e termina esse período mais preparada para defender aquilo que deseja. A Goode’s lhe oferece um salário temporário, mas são as mulheres de preto que lhe entregam algo duradouro, a coragem de escolher a própria vida.

