Numa Nova Orleans abalada pela crise financeira, um assassino recebe a missão de restaurar os negócios da máfia após um assalto. Johnny Amato, conhecido como Esquilo e interpretado por Vincent Curatola, acredita ter planejado o crime perfeito. Markie Trattman (Ray Liotta) organiza partidas ilegais de pôquer protegidas pela máfia e carrega uma história inconveniente. Tempos antes, ele mandou roubar o próprio jogo e depois confessou a armação. Quando outra mesa for assaltada, todos pensarão que Markie repetiu o golpe.
Esquilo recruta Frankie (Scoot McNairy), um antigo parceiro sem dinheiro, e Russell (Ben Mendelsohn), um australiano dependente de heroína que rouba cães de raça para revendê-los na Flórida. A descrição da dupla já denuncia a fragilidade do plano. Frankie vive assustado. Russell fala demais, presta pouca atenção ao redor e parece sempre a um cochilo de distância do desastre.
Ainda assim, os dois entram armados no jogo comandado por Markie e levam cerca de US$ 100 mil. O assalto termina sem grandes complicações, mas produz um estrago maior do que o dinheiro roubado. Os jogadores deixam de frequentar as partidas por medo de novos ataques. As mesas fecham, a renda desaparece e os chefes precisam recuperar a confiança de seus clientes.
Um crime planejado sobre outro
Dirigido por Andrew Dominik, “O Homem da Máfia” acompanha o assalto e suas consequências dentro de uma organização criminosa que trabalha quase como uma empresa. Existem chefes distantes, intermediários cautelosos, profissionais terceirizados e funcionários preocupados com custos. Todos sabem que alguém será punido, porém ninguém deseja assumir sozinho a responsabilidade pela ordem.
Um advogado conhecido apenas como Motorista (Richard Jenkins) procura Jackie Cogan (Brad Pitt), assassino de aluguel contratado para descobrir os culpados e retomar as partidas. Jackie analisa o caso com a frieza de quem recebeu um serviço desagradável, mas rotineiro. Ele percebe que Markie provavelmente não participou do novo roubo. A inocência, contudo, vale pouco diante de uma reputação comprometida.
Markie virou um suspeito conveniente porque admitiu o golpe anterior. Deixá-lo circulando poderia sugerir que a máfia perdeu autoridade sobre seus próprios jogos. Jackie apresenta esse risco ao Motorista, que hesita diante das providências mais severas e consulta superiores que permanecem fora de cena. A demora mantém as mesas vazias e torna cada dia mais caro.
Ray Liotta dá a Markie uma vulnerabilidade rara em histórias de gângsteres. Ele conhece as regras daquele ambiente, mas descobre que experiência e lealdade oferecem pouca proteção quando a confiança já foi quebrada. Seu passado fornece aos verdadeiros ladrões uma cobertura temporária e coloca seu corpo no centro de uma cobrança que ele não criou.
Dois ladrões sem discrição
Frankie e Russell conseguem o dinheiro, mas não possuem disciplina para sobreviver ao que fizeram. Frankie percebe o perigo e tenta controlar o parceiro. Russell prefere consumir drogas, viajar com cães roubados e contar seus planos a pessoas pouco confiáveis. Seu comportamento transforma uma operação bem-sucedida numa sequência de informações espalhadas.
Durante uma viagem à Flórida, Russell tenta envolver Kenny Gill (Slaine) em outro negócio ilegal. Ele menciona o assalto e revela detalhes suficientes para ligar Esquilo, Frankie e ele próprio ao roubo. Kenny conhece Dillon (Sam Shepard), um homem com acesso a Jackie. A informação percorre essa rede e chega a quem pode usá-la.
Ben Mendelsohn interpreta Russell com uma mistura de descuido, sujeira e autoconfiança sem fundamento. Scoot McNairy segue pelo caminho oposto. Seu Frankie permanece tenso, fala baixo e parece calcular a distância até a porta. Os dois formam uma parceria divertida pelo grau de inadequação, embora o riso venha acompanhado da certeza de que eles não sabem guardar um segredo.
Andrew Dominik permite que as conversas ocupem boa parte do filme porque são elas que entregam informações e selam destinos. Uma frase dita no lugar errado vale tanto quanto uma impressão digital. Russell não precisa ser interrogado. Basta sentir-se confortável diante de alguém e começar a falar.
Um matador fora de serviço
Jackie prefere manter distância das pessoas que precisa matar. Para ele, a proximidade cria medo, súplica e desconforto. Quando percebe que um dos envolvidos é seu conhecido, pede ao Motorista a contratação de Mickey Fallon (James Gandolfini), matador experiente cuja reputação parecia suficiente para resolver o problema.
Mickey chega cercado por expectativas, mas passa os dias num quarto de hotel entre bebidas, prostitutas e lamentos sobre o casamento. Também revela ter viajado enquanto cumpria liberdade condicional. O profissional admirado por Jackie tornou-se um homem cansado, preso aos próprios fracassos e incapaz de cumprir o serviço dentro do prazo.
James Gandolfini oferece ao personagem uma tristeza pesada, distante do poder associado aos grandes chefes do crime. Mickey ainda possui fama, voz e presença, porém já não controla a própria rotina. Jackie escuta suas histórias até perceber que depender dele prolongará o problema e aumentará as despesas.
Essa parte de “O Homem da Máfia” quebra a fantasia do assassino infalível. Mickey não entra para salvar a operação. Ele bebe, reclama e ocupa uma suíte luxuosa enquanto outros homens aguardam providências. Jackie precisa assumir mais tarefas, enquanto o Motorista continua discutindo pagamentos e autorizações.
A crise também chega à máfia
A história ocorre durante a campanha presidencial de 2008. Discursos de George W. Bush, John McCain e Barack Obama surgem em televisores e rádios enquanto os personagens discutem dinheiro, confiança e prejuízo. A repetição pode parecer insistente, mas cria uma ligação incômoda entre a economia oficial e os negócios criminosos.
Bancos enfrentam dificuldades, políticos prometem união e a máfia tenta reabrir jogos de pôquer. Nos dois ambientes, quem ocupa cargos superiores permanece protegido, enquanto homens abaixo deles absorvem as perdas. O Motorista recebe ordens de pessoas ausentes. Jackie executa o trabalho. Frankie, Russell e Markie pagam pela confusão com riscos muito maiores.
Brad Pitt interpreta Jackie sem transformá-lo num herói elegante. O personagem é competente, observador e impaciente, mas também trabalha para homens que contestam valores depois de exigir eficiência. Ele mata por dinheiro e deseja receber o combinado. A brutalidade pertence ao emprego, enquanto sua irritação nasce da burocracia.
“O Homem da Máfia” reserva seus melhores trechos para esse contraste entre violência e administração. Assassinatos são tratados como despesas. A confiança dos jogadores vira um ativo. Um homem pode ser eliminado por aquilo que fez, pelo que parece ter feito ou pelo prejuízo que sua presença causa aos negócios.
Andrew Dominik entrega um suspense criminal seco, amargo e pontuado por um sarcasmo discreto. O enredo avança por erros pequenos, especialmente a escolha de um cúmplice incapaz e uma conversa mantida diante da pessoa errada. Quando Jackie cobra pelo trabalho, a promessa política de uma América unida soa distante. Para ele, resta uma regra simples. O serviço foi realizado e alguém precisa pagar a conta.

