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“Campo dos Sonhos” começa em uma fazenda cercada por milharais no interior de Iowa, onde Ray Kinsella (Kevin Costner) tenta manter a propriedade funcionando ao lado da esposa Annie (Amy Madigan) e da filha Karin (Gaby Hoffmann). A vida segue tranquila até o momento em que Ray escuta uma frase atravessando o campo vazio. “Se você construir, ele virá”. A voz não explica nada. Não diz quem virá, nem quanto aquilo vai custar. Ainda assim, Ray leva a mensagem a sério e derruba parte da plantação para construir um campo de beisebol no meio da fazenda.

A decisão parece absurda para qualquer pessoa minimamente responsável com boletos, impostos e hipoteca. Parte da renda da família desaparece quando o milharal é destruído. O cunhado de Ray insiste que ele perdeu o juízo e tenta convencer Annie a vender a propriedade antes que as dívidas engulam tudo. Annie, porém, permanece ao lado do marido mesmo sem saber exatamente o que está acontecendo. Existe uma confiança silenciosa entre os dois. Phil Alden Robinson filma esse casamento sem sentimentalismos. O casal conversa, discorda e continua dividindo tarefas domésticas enquanto fantasmas aparecem no quintal durante a madrugada.

Assombrações

E os fantasmas aparecem mesmo. Pouco tempo depois da construção do campo, Shoeless Joe Jackson (Ray Liotta) surge caminhando pelo gramado. Ex-jogador do Chicago White Sox, Joe foi banido do beisebol após o escândalo da World Series de 1919, acusado de participar de um esquema para manipular partidas. Aos poucos, outros atletas mortos começam a ocupar o campo construído por Ray. Eles treinam, conversam entre si e desaparecem quando os jogos terminam. Quem está fora daquele círculo não consegue ver nada. Para a vizinhança, Ray apenas conversa sozinho olhando para o escuro.

O filme poderia virar facilmente uma fantasia exagerada, mas Phil Alden Robinson mantém os pés no chão durante quase toda a narrativa. Ray continua preocupado com dinheiro. Annie continua fazendo contas. Karin continua vivendo como qualquer criança daquela região. O extraordinário entra na rotina sem transformar ninguém em profeta iluminado. Há até certa graça na maneira tranquila como Annie reage ao perceber jogadores mortos atravessando o milharal. Em muitos filmes, alguém gritaria. Aqui, ela apenas aceita que sua casa virou ponto de encontro sobrenatural.

Enquanto tenta compreender por que aqueles homens apareceram, Ray passa a receber novas mensagens. As vozes o levam até Terence Mann (James Earl Jones), um escritor recluso que abandonou a vida pública após anos de fama e desgaste. Mann mora longe de Iowa e não demonstra qualquer vontade de acompanhar um agricultor desconhecido atrás de pistas místicas ligadas ao beisebol. Ray insiste mesmo assim. Viaja quilômetros, invade compromissos públicos do escritor e praticamente arrasta o homem para dentro daquela busca improvisada.

James Earl Jones entrega ao personagem uma mistura bonita de irritação e cansaço. Terence Mann parece alguém que passou anos ouvindo pessoas romantizarem suas palavras sem prestar atenção no que ele realmente dizia. Quando Ray aparece em sua vida falando sobre vozes vindas de um milharal, a reação inicial do escritor é próxima da incredulidade absoluta. Aos poucos, porém, Mann percebe que existe algo impossível acontecendo naquele campo perdido em Iowa.

Viagem transformadora

“Campo dos Sonhos” deixa de ser apenas uma história sobre fantasmas esportivos se torna um retrato de homens tentando consertar lembranças antigas. Ray carrega uma culpa silenciosa ligada ao pai, John Kinsella, interpretado em sua juventude por Dwier Brown. O personagem morreu antes que os dois resolvessem conflitos acumulados ao longo dos anos. O campo de beisebol vira então uma espécie de passagem emocional onde Ray tenta recuperar conversas interrompidas cedo demais.

O roteiro transforma essa dor em discurso pronto para arrancar lágrimas à força. Ray continua sendo um sujeito comum. Ele dirige por estradas vazias, dorme pouco, perde dinheiro e retorna para casa sem saber explicar direito o motivo de continuar acreditando naquela voz. Kevin Costner trabalha o personagem com enorme naturalidade. Seu Ray parece cansado quase o tempo inteiro, mas continua avançando porque abandonar o campo significaria abandonar também a chance de resolver algo antigo dentro dele.

Phil Alden Robinson filma Iowa com enorme delicadeza. O milharal ganha aparência quase infinita durante a noite, especialmente quando os jogadores atravessam a plantação para entrar em campo. Ainda assim, o diretor nunca abandona os detalhes mais terrenos daquela família. Há contas espalhadas pela casa, discussões sobre hipoteca e a ameaça constante de perder a fazenda. Isso mantém a história humana mesmo nos momentos mais fantasiosos.

“Campo dos Sonhos” fala sobre beisebol, mas funciona perfeitamente para quem nunca assistiu a uma partida. O esporte serve como memória compartilhada entre pais, filhos e pessoas que passaram tempo demais sem dizer o que precisavam dizer. Quando Ray olha para o campo iluminado no meio do milharal, ele não procura apenas jogadores antigos. Ele procura uma segunda chance que talvez tenha chegado tarde demais.


Filme: Campo dos Sonhos
Diretor: Phil Alden Robinson
Ano: 1989
Gênero: Drama/Família/Fantasia
Avaliação: 4/5 1 1
Fernando Machado

Fernando Machado é jornalista e cinéfilo, com atuação voltada para conteúdo otimizado, Google Discover, SEO técnico e performance editorial. Na Cantuária Sites, integra a frente de projetos que cruzam linguagem de alta qualidade com alcance orgânico real.

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