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Em 1944, Nise da Silveira volta a um hospital psiquiátrico do Rio de Janeiro e desafia tratamentos violentos para proteger pessoas com esquizofrenia. Nise da Silveira (Glória Pires) retorna ao trabalho no Centro Psiquiátrico Nacional, no bairro do Engenho de Dentro, após permanecer afastada da medicina. O hospital recebe pessoas com transtornos mentais graves, muitas delas internadas há anos e abandonadas pelas próprias famílias. O ambiente oferece pouco cuidado e muita disciplina.

Em “Nise: O Coração da Loucura”, dirigido por Roberto Berliner, a psiquiatra chega a uma reunião conduzida por médicos interessados em tratamentos agressivos. Eletrochoques e lobotomias são apresentados como avanços científicos. Nise se recusa a participar dos procedimentos e enfrenta a hostilidade dos colegas, todos homens e pouco dispostos a ouvir uma mulher questionar suas certezas.

A recusa cobra seu preço. Sem prestígio dentro do hospital, Nise é enviada ao abandonado Setor de Terapia Ocupacional. O lugar guarda salas sujas, materiais esquecidos e funcionários sem esperança de mudança. Aquilo que deveria afastá-la das decisões médicas acaba lhe dando acesso aos internos que os outros profissionais preferiam manter sedados e isolados.

Glória Pires interpreta Nise com severidade e afeto em doses muito humanas. A personagem não distribui gentilezas nem tenta conquistar os colegas pela simpatia. É impaciente, exigente e dona de uma ironia seca. Algumas pessoas recebem carinho. Outras ganham apenas um olhar capaz de encerrar qualquer conversa inconveniente.

Tintas ocupam as antigas celas

Nise decide recuperar o setor com a ajuda do enfermeiro Lima (Augusto Madeira), de Almir Mavignier (Felipe Rocha) e de Ivone Lara (Roberta Rodrigues). A equipe limpa as salas, providencia tintas, papéis, pincéis e argila. Os internos passam a desenhar, pintar e modelar sem obrigação de seguir temas ou demonstrar habilidade.

A médica prefere chamá-los de clientes. A escolha parece pequena, mas devolve alguma dignidade a homens e mulheres tratados apenas pelos diagnósticos. Em vez de exigir comportamentos considerados normais, Nise observa aquilo que cada pessoa consegue expressar. O ateliê oferece uma passagem entre mundos interiores e uma instituição acostumada a manter tudo trancado.

Fernando Diniz (Fabrício Boliveira) registra imagens de grande organização e riqueza. Carlos Pertuis (Julio Adrião) produz figuras ligadas às suas visões. Emygdio de Barros (Claudio Jaborandy) cria pinturas marcadas por cores intensas. Lúcio Noeman (Roney Villela) reage ao espaço com energia e inquietação. Cada um ocupa o ateliê de uma maneira particular, longe da rotina uniforme imposta pelas enfermarias.

Adelina Gomes (Simone Mazzer) guarda uma história dolorosa ligada à mãe e a um amor proibido. Fechada em longos silêncios, ela passa a trabalhar com pintura e modelagem. Nise acompanha sua produção sem cobrar relatos que Adelina não consegue oferecer. A arte permite que sentimentos antes tratados apenas como sintomas ganhem forma, cor e permanência.

O roteiro não apresenta a médica como alguém capaz de curar todos ao redor por força de vontade. Nise enfrenta surtos, agressividade, medo e desconfiança. Também comete erros e percebe que o afeto exige responsabilidade. Sua maior conquista consiste em reconhecer pessoas onde o hospital enxergava prontuários, corpos confinados e problemas administrativos.

Os cães entram no tratamento

Os animais também passam a circular entre os clientes. Nise percebe que os cães favorecem vínculos e estimulam demonstrações de cuidado. Pessoas arredias se aproximam deles, oferecem alimento e aceitam contato. A convivência cria responsabilidades simples, porém valiosas para quem havia perdido qualquer escolha sobre a própria rotina.

Essa presença ainda revela a fragilidade do trabalho. Os animais e os internos dependem da tolerância de funcionários que nem sempre respeitam a experiência. Nise pode abrir uma sala e distribuir materiais, mas continua subordinada a uma instituição violenta. Uma ordem, uma punição ou um ato de crueldade coloca meses de confiança em risco.

Roberto Berliner filma esse ambiente sem enfeitar a miséria. Corredores, grades, uniformes e quartos coletivos mantêm o espectador dentro de um lugar construído para retirar identidade. Quando tintas e telas entram em cena, a mudança nasce do uso dado àqueles objetos. O hospital permanece opressivo, embora uma de suas salas passe a abrigar escolhas individuais.

A proximidade da câmera também valoriza o elenco. Fabrício Boliveira oferece delicadeza a Fernando Diniz sem transformar o personagem numa figura angelical. Simone Mazzer preserva a aspereza de Adelina e permite que seus gestos carreguem aquilo que ela não verbaliza. Julio Adrião, Claudio Jaborandy e Roney Villela dão presença própria a homens que poderiam surgir apenas como exemplos clínicos.

As obras atravessam os muros

A quantidade e a qualidade das pinturas chamam a atenção de Mário Pedrosa (Charles Fricks), crítico de arte interessado naquela produção. Sua presença ajuda as obras a deixarem o espaço restrito do hospital. O trabalho dos internos passa a ser observado por pessoas que não procuram apenas sinais de doença em cada desenho.

A exposição pública traz reconhecimento, mas cria um dilema. Nise precisa apresentar aquelas obras sem transformar os autores em atrações exóticas. Os artistas continuam internados, sujeitos às normas e aos tratamentos da instituição. Seus quadros circulam com mais liberdade do que eles próprios, contradição que dá ao reconhecimento um gosto amargo.

O longa acompanha uma experiência inspirada na vida da verdadeira Nise da Silveira, pioneira da terapia ocupacional no Brasil. Berliner mantém a atenção no período em que ela enfrentou práticas aceitas por boa parte da psiquiatria. A narrativa perde alguma força ao retratar vários médicos como figuras cruéis demais, quase sempre definidos pela arrogância. A realidade institucional já era brutal o bastante e dispensava vilões tão demarcados.

Essa simplificação não apaga a força do conjunto. O melhor de “Nise: O Coração da Loucura” está no trabalho diário, feito de salas abertas, materiais distribuídos e vínculos construídos sob ameaça constante. Glória Pires sustenta a firmeza de uma mulher que não pede licença para discordar, mas tampouco posa como heroína impecável.

Nise guarda as pinturas porque reconhece nelas documentos de vidas desprezadas pelo hospital. Enquanto seus colegas recorrem a aparelhos, contenções e cirurgias, ela oferece papel, tinta e atenção. Cada obra preservada devolve nome e autoria a alguém condenado ao anonimato. A porta do ateliê permanece aberta, e os antigos internos passam a ocupar o espaço como artistas.


Filme: Nise: O Coração da Loucura
Diretor: Roberto Berliner
Ano: 2015
Gênero: Biografia/Drama/História
Avaliação: 4/5 1 1
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