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Na pequena Maybrook, 17 crianças desaparecem na mesma madrugada, enquanto uma professora, um pai e um policial procuram pistas sobre o caso. Às 2h17, crianças da mesma sala deixam suas casas, atravessam ruas escuras e somem sem deixar vestígios. Todas estudam com Justine Gandy (Julia Garner), professora do ensino fundamental que chega à escola e vê apenas Alex Lilly (Cary Christopher) sentado entre várias carteiras vazias. O menino foi o único aluno da turma que permaneceu em casa naquela noite.

Dirigido e escrito por Zach Cregger, “A Hora do Mal” acompanha o desaparecimento e suas consequências em Maybrook, pequena cidade norte-americana onde vizinhos, pais e policiais possuem muitas suspeitas, mas quase nenhuma prova. Câmeras residenciais registraram os estudantes correndo sozinhos, vestidos com roupas de dormir. Nenhuma gravação revela quem os chamou, para onde foram ou por que abandonaram suas famílias.

A polícia inicia as buscas, interroga pessoas próximas e analisa os registros disponíveis. Ainda assim, os dias passam sem que os investigadores descubram o paradeiro das crianças. A falta de avanços aumenta a revolta das famílias e transforma Justine em alvo. Para parte dos moradores, parece mais fácil responsabilizar a professora do que aceitar um desaparecimento sem explicação.

A professora vira suspeita

Justine é afastada da escola e perde o contato cotidiano com os alunos e colegas. Pais hostis a cercam durante reuniões, questionam seu comportamento e exigem informações que ela também não possui. Julia Garner interpreta a professora sem tentar torná-la uma vítima perfeita. A personagem bebe demais, toma decisões ruins e reage com irritação quando se sente acuada.

Essa combinação torna Justine mais humana e também mais vulnerável. Ela deseja descobrir o que aconteceu com a turma, mas enfrenta uma comunidade disposta a interpretar qualquer passo em falso como indício de culpa. O isolamento profissional logo invade sua vida particular e compromete a confiança que ainda poderia receber.

Sua preocupação se volta para Alex, o único estudante que não desapareceu. O menino frequenta a escola, fala pouco e vive em uma casa cercada por sinais inquietantes. Justine passa a observar sua rotina, convencida de que a sobrevivência dele pode guardar alguma ligação com a madrugada. A iniciativa oferece uma possível pista, mas também coloca a professora em terreno perigoso, pois ela já está afastada e não tem autorização para investigar o aluno.

Um pai decide procurar sozinho

Archer Graff (Josh Brolin), pai de Matthew, um dos meninos desaparecidos, representa a parcela mais furiosa das famílias. Ele desconfia de Justine e cobra providências da escola e da polícia, porém logo percebe que esperar pelas autoridades não devolve seu filho. Archer reúne gravações de câmeras instaladas nas casas e compara os percursos feitos pelas crianças.

Os vídeos revelam um dado importante. Os estudantes não correram aleatoriamente pelas ruas. Seus caminhos apontavam para uma direção comum, embora as imagens ainda não mostrem o destino. Archer assume a investigação por conta própria e começa a seguir esse rastro, mesmo sem apoio oficial. A dor lhe dá persistência, mas também prejudica sua capacidade de distinguir cautela e obsessão.

Josh Brolin interpreta Archer com uma raiva que nasce do desespero. O personagem pode ser agressivo, injusto e difícil de acompanhar, mas sua urgência possui uma origem compreensível. Enquanto a polícia trabalha sem prazo, ele acorda todos os dias diante do quarto vazio de Matthew. Para Archer, qualquer espera representa mais uma noite sem saber se o filho ainda está vivo.

Um policial entre dever e culpa

Paul Morgan (Alden Ehrenreich) trabalha na polícia local e mantém uma ligação antiga com Justine. Ele conhece detalhes da investigação aos quais ela não teria acesso, porém sua proximidade com a professora ameaça sua vida pessoal e sua credibilidade profissional. Paul é casado e sabe que qualquer aproximação pode provocar consequências dentro e fora da delegacia.

Justine procura o policial porque precisa de informações. Paul tenta conservar distância, embora a história entre os dois dificulte essa separação. A relação adiciona um problema bastante terreno ao terror. Mesmo diante de 17 desaparecimentos, os adultos continuam sujeitos a ciúmes, vícios, ressentimentos e decisões constrangedoras. Maybrook pode estar vivendo uma tragédia extraordinária, mas seus moradores ainda conseguem complicá-la com erros bem conhecidos.

Cregger divide “A Hora do Mal” em capítulos dedicados a personagens diferentes. A mesma sequência pode reaparecer por outro ponto de vista e revelar um detalhe que antes estava fora do quadro. Essa estrutura não existe apenas para adiar informações. Ela mostra que Justine, Archer e Paul possuem fragmentos distintos, embora nenhum deles tenha acesso a toda a história.

O perigo escondido na rotina

O diretor aproxima o horror de lugares comuns. A escola, a delegacia, as ruas residenciais e as casas familiares permanecem reconhecíveis, mesmo quando pequenos sinais indicam que algo está errado. Uma janela coberta, uma porta fechada ou uma criança silenciosa adquirem peso porque os personagens ainda desconhecem a dimensão da ameaça.

“A Hora do Mal” também permite risos nervosos em passagens de violência e constrangimento. A graça costuma nascer do fracasso de alguém que entra em determinada situação acreditando possuir controle. O alívio dura pouco, pois quase toda escolha abre uma nova possibilidade de perigo.

Julia Garner, Josh Brolin e Alden Ehrenreich sustentam personagens falhos, cansados e emocionalmente comprometidos. Cary Christopher oferece a Alex uma presença contida, capaz de despertar compaixão e desconfiança sem precisar explicar demais. O menino permanece no centro do caso porque foi o único aluno poupado, embora pareça incapaz de pedir ajuda.

Sem entregar suas revelações decisivas, “A Hora do Mal” transforma a procura pelas crianças em uma disputa por informações, acesso e confiança. Cada pessoa avança por um caminho diferente, enquanto a verdade permanece escondida dentro da própria cidade. Quando Justine e Archer se aproximam da origem daquela madrugada, já não possuem garantia de que descobrir o paradeiro da turma será suficiente para trazer todos de volta.


Filme: A Hora do Mal
Diretor: Zach Cregger
Ano: 2025
Gênero: horror/Mistério/Terror
Avaliação: 3.5/5 1 1
Fer Kalaoun

Fer Kalaoun é editora na Revista Bula e repórter especializada em jornalismo cultural, audiovisual e político desde 2014. Estudante de História no Instituto Federal de Goiás (IFG), traz uma perspectiva crítica e contextualizada aos seus textos. Já passou por grandes veículos de comunicação de Goiás, incluindo Rádio CBN, Jornal O Popular, Jornal Opção e Rádio Sagres, onde apresentou o quadro Cinemateca Sagres.

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