Uma mulher sai de casa com duas crianças e uma bagagem pequena, deixando para trás um marido que bebeu outra vez. Ele a segue pela estrada, insistindo em impedir uma separação que provavelmente começou muito antes daquela manhã. Há alguma coisa especialmente desagradável nessa tentativa de negociar o que já se perdeu, sobretudo porque o homem parece contar com o cansaço da esposa para fazê-la desistir. Bartosz Kruhlik encontra “Supernova” nesse intervalo em que uma pessoa finalmente decide ir embora e a outra ainda acredita poder obrigá-la a ficar. O atropelamento que vem em seguida interrompe a discussão, mas conserva, de maneira terrível, tudo o que estava em disputa.
Lançado em 2019, o primeiro longa de Kruhlik nasceu de um projeto destinado a filmes televisivos de sessenta minutos do Studio Munk. O diretor ampliou a duração e levou a produção ao cinema sem abandonar sua concentração espacial. A origem modesta interessa porque ajuda a compreender uma qualidade que o dinheiro, sozinho, dificilmente compraria. Quase toda a história permanece numa estrada rural, perto dos envolvidos, sem conceder ao espectador a pausa de uma mudança confortável de cenário. A paisagem é aberta. O desconforto, entretanto, aumenta conforme se torna evidente que ninguém consegue sair dali sem responder por alguma coisa.
O político e a família
O motorista interpretado por Marcin Hycnar é um político, e sua presença introduz uma diferença importante no modo como cada um recebe a tragédia. Para ele existe uma vida pública a preservar, com perspectivas que o acidente ameaça destruir. Essa possibilidade de calcular prejuízos futuros já o separa do homem que acompanhava a mulher e as crianças. Marcin Zarzeczny precisa sustentar a posição mais difícil da narrativa, a de alguém cuja dor não apaga o comportamento anterior. Seu personagem sofre sem adquirir, por isso, uma inocência retroativa. O filme acerta ao conservar o incômodo. Podemos reconhecer o sofrimento de uma pessoa e continuar desejando que ela tivesse agido de outra maneira.
A chegada da polícia tampouco oferece o alívio esperado. O agente vivido por Marek Braun deve estabelecer alguma ordem num lugar em que todos começam a interpretar os acontecimentos antes que seja possível esclarecê-los. Para quem está à beira da estrada, a diferença entre uma pergunta necessária e uma demora intolerável depende muito de quem pergunta e de quem espera pela resposta. Kruhlik explora essa impaciência sem precisar transferir a história para uma delegacia. A investigação acontece sob os olhos de pessoas que exigem providências, desconfiam delas e interferem em sua execução.
Testemunhas com celulares
Os moradores se aproximam com celulares, registrando o acidente e seus desdobramentos. O impulso de documentar não elimina a vontade de participar, e a curiosidade logo adquire a autoridade de quem se considera suficientemente informado para julgar. A escolha de atores menos conhecidos do grande público favorece essa impressão de contato com uma ocorrência que ainda não encontrou sua versão definitiva. Hycnar, com maior reconhecimento, encarna justamente a figura pública. No conjunto, a escalação preserva uma diferença de posição social que dispensa apresentações demoradas.
É possível encontrar alguma crueldade na precisão com que o roteiro aproxima essas pessoas. Cada uma chega trazendo uma dificuldade particular, e a sucessão de consequências às vezes parece retirar delas qualquer margem para uma reação que não agrave o desastre. A concentração tem esse preço. Quando quase tudo participa da mesma escalada, o acaso começa a parecer excessivamente diligente. Ainda assim, o filme encontra resistência nos próprios personagens, especialmente no marido. Zarzeczny impede que ele se torne apenas uma parcela de culpa distribuída pelo roteiro. Há desorientação suficiente naquele homem para atrapalhar qualquer julgamento muito satisfeito consigo mesmo.
A força de “Supernova” está nessa dificuldade de administrar o que se sente diante dos outros. O político tem medo, mas dispõe de interesses a defender. O policial recebe uma atribuição que não o protege das pressões ao redor. O marido continua ali, sem poder refazer a manhã. Podemos procurar o momento exato em que tudo teria tomado outro rumo, voltar mentalmente à saída de casa, à bebida, à insistência na estrada. Para a mulher que carregava os filhos, ir embora já havia exigido demais.

