Bani precisa esconder dos outros uma capacidade que, em circunstâncias normais, seria motivo de alívio. Depois de perder temporariamente a visão durante o sequestro da filha, ela passa a sustentar a aparência de cegueira enquanto procura a criança. “Gandhari”, de Devashish Makhija, encontra aí uma possibilidade de suspense bastante fértil. A mulher interpretada por Taapsee Pannu deve observar sem denunciar que observa, suportando a proximidade dos responsáveis por seu sofrimento enquanto mede o que pode revelar. O perigo começa no rosto, numa reação que venha antes do cálculo.
O título remete à personagem do “Mahabharata” que cobre os olhos em solidariedade ao marido cego. Kanika Dhillon, responsável pelo roteiro e pela produção, propõe uma alteração deliberada dessa herança. Interessa-lhe uma mulher empenhada em interferir no destino dos filhos, capaz de conduzir sua própria batalha. A autora relacionou a origem da história aos receios que passou a experimentar depois de se tornar mãe, anteriores à associação com a figura mitológica. Essa ordem faz diferença. Bani precisa primeiro convencer como pessoa para que a referência antiga acrescente alguma coisa à sua experiência. Uma venda, por mais reconhecível que seja, não resolve o trabalho de construção de uma personagem.
Bani e Gokul procuram a filha
A busca leva Bani pela cidade fictícia de Joypurra, onde o desaparecimento da menina se liga a uma rede de tráfico infantil. Gokul, seu marido, vivido por Ishwak Singh, também procura a filha, mas o sofrimento compartilhado não garante que os dois conduzam essa procura da mesma maneira. Existe uma dificuldade legítima nessa relação. Salvar a própria criança pode parecer uma finalidade absoluta para um dos pais, enquanto o contato com outras vítimas modifica o alcance do que o outro pretende fazer. O filme dispõe de matéria para um conflito doloroso, em que o amor familiar não produz automaticamente concordância.
Pannu oferece à história a disposição física de que ela necessita. O papel exige que o abatimento inicial dê lugar à capacidade de enfrentar os homens que cercam Bani, e a atriz precisa conservar algum vestígio da mãe assustada dentro dessa transformação. A violência, porém, coloca o roteiro diante de uma exigência que nem sempre parece interessá-lo. Quanto mais excepcional se torna a resistência da protagonista, maior a necessidade de compreendermos como ela chegou até ali. A determinação de recuperar uma filha explica o impulso de partir para a luta. A maneira de lutar exige uma construção própria.
Makhija já havia tratado da proteção de uma criança em “Joram”, e a aproximação ajuda a perceber o problema particular de “Gandhari”. Aqui, a dimensão mitológica e o gosto pelas reviravoltas disputam espaço com a experiência de uma mulher submetida ao medo. O argumento deseja que Bani represente uma força capaz de ultrapassar a situação individual que a colocou em movimento. A ambição é compreensível, mas traz o risco de promover a personagem depressa demais, exigindo que o público reconheça uma heroína antes de ter acompanhado satisfatoriamente suas decisões.
O peso das reviravoltas
As mudanças de direção da história acentuam essa dificuldade. Quando a narrativa reorganiza repetidamente as informações disponíveis, até uma relação íntima pode passar a valer sobretudo pelo segredo que permitirá descobrir depois. O espectador fica ocupado reconsiderando o que acabou de saber, e a procura pela menina perde parte da urgência para esse trabalho de correção. Há uma diferença entre desconfiar de alguém porque seus atos são perturbadores e aguardar que o roteiro anuncie uma nova identidade. “Gandhari” se aproxima com frequência da segunda situação.
Uma passagem dá a medida do suspense que poderia sustentar o filme com menos interferência. Fingindo não enxergar, Bani precisa manter o controle diante do corpo de uma criança que pode ser sua filha. O reconhecimento, se acontecer, ameaça denunciá-la. Pannu recebe ali um conflito que cabe inteiro num gesto reprimido, sem depender da próxima luta ou de uma explicação sobre o alcance de seu amor. A situação é terrível porque exige dela justamente aquilo que o filme tantas vezes parece querer dispensar, tempo para olhar e não reagir.
A mãe que procura a filha continua sendo a razão para acompanhar Bani, mesmo quando o aparato ao redor ameaça encobri-la. Sua condição mais interessante permanece a de uma mulher obrigada a permitir que os inimigos a subestimem. Ela precisa ouvir o que dizem, aceitar por alguns instantes o lugar de indefesa que lhe atribuem, esperar que uma informação escape. É um esforço menos vistoso que o combate e, para essa personagem, talvez ainda mais difícil.

