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Nos anos 1980, um congressista americano mobiliza Washington para armar afegãos contra a ocupação soviética e transformar uma guerra distante em prioridade política. Charlie Wilson (Tom Hanks) representa o Texas no Congresso dos Estados Unidos, mas sua fama costuma nascer longe das discussões mais importantes de Washington. Mulherengo, festeiro e cercado por funcionárias jovens, ele atravessa a política com simpatia, bons contatos e uma habilidade incomum para conseguir favores. Por trás dessa aparência despreocupada, porém, ocupa cargos em comissões ligadas à política externa e às operações secretas. Essa combinação permite que ele interfira em assuntos capazes de movimentar grandes quantias sem enfrentar exposição pública.

Dirigido por Mike Nichols, “Jogos do Poder” acompanha a participação de Wilson no financiamento clandestino dos combatentes afegãos durante a ocupação soviética, no início dos anos 1980. A história foi inspirada em acontecimentos reais e combina biografia, comédia política e drama histórico. O centro do enredo está na parceria improvável entre Charlie, a socialite conservadora Joanne Herring (Julia Roberts) e o agente da CIA Gust Avrakotos (Philip Seymour Hoffman).

Joanne conhece Charlie intimamente e sabe que o congressista possui mais poder do que costuma demonstrar. Rica, religiosa e bastante influente, ela recebe políticos, empresários e autoridades em sua casa em Houston. Quando chama a atenção dele para o sofrimento da população afegã, não faz um pedido sentimental. Ela apresenta contatos, argumentos e caminhos para transformar a preocupação em recursos.

Charlie aceita viajar ao Paquistão, onde conversa com autoridades interessadas em aumentar o apoio americano à resistência. A visita a um campo de refugiados oferece uma dimensão humana que os documentos de Washington não conseguiam transmitir. Crianças feridas, famílias deslocadas e relatos da violência soviética tornam a guerra menos distante. Ele retorna aos Estados Unidos disposto a elevar a verba reservada ao Afeganistão.

A CIA entra em cena

O dinheiro, sozinho, não resolve o problema. Os combatentes afegãos precisam de armas adequadas para enfrentar helicópteros e equipamentos soviéticos muito superiores. O governo americano também deseja manter sua participação longe dos holofotes, pois qualquer prova de envolvimento pode provocar uma crise internacional. Charlie necessita de alguém que conheça os procedimentos da CIA e tenha coragem para atravessar sua burocracia.

Esse papel cabe a Gust Avrakotos, agente experiente que coleciona desavenças dentro da própria instituição. Philip Seymour Hoffman faz de Gust um homem inteligente, grosseiro e quase alérgico a cerimônias. Ele entra nos gabinetes sem pedir licença emocional, derruba qualquer conversa enfeitada e trata autoridades com a paciência de quem já perdeu a esperança na boa educação administrativa.

A relação entre Charlie e Gust oferece algumas das passagens mais divertidas de “Jogos do Poder”. O congressista aposta no charme, enquanto o agente prefere frases secas e palavrões bem colocados. A graça nasce do contraste entre dois profissionais eficientes que jamais escolheriam dividir uma mesa por amizade. Um possui acesso ao orçamento. O outro sabe quais armas podem chegar aos afegãos sem revelar a origem americana.

Mike Nichols mantém essas conversas em ritmo ágil, sem transformar reuniões políticas em uma sequência cansativa de nomes e departamentos. Cada telefonema abre um contato, libera uma verba ou cria outro problema. O roteiro acompanha o dinheiro desde os gabinetes do Congresso até uma rede internacional que envolve Paquistão, Egito, Israel e Arábia Saudita. Países com interesses distintos passam a colaborar porque compartilham o desejo de enfraquecer a União Soviética.

Uma guerra paga em segredo

Charlie usa sua influência para aumentar os recursos destinados à operação clandestina. Ele conversa com parlamentares, distribui favores e aproveita regras orçamentárias pouco conhecidas pelo público. Sua habilidade política ganha um propósito mais ambicioso, embora os mesmos métodos usados para obter apoio também deixem decisões importantes nas mãos de poucas pessoas.

Joanne participa desse movimento ao aproximar o congressista de figuras conservadoras e lideranças estrangeiras. Julia Roberts interpreta a socialite com elegância e firmeza. A personagem pode receber convidados enquanto retoca a maquiagem, mas controla o ambiente com atenção absoluta. Ela sabe quem deve conversar com Charlie, qual argumento terá maior peso e quanto tempo existe antes que outro interesse ocupe a agenda.

Tom Hanks trabalha com uma simpatia perigosa. Charlie parece acessível, divertido e até desorganizado, porém reconhece as brechas do Congresso com precisão. O ator não transforma o político em santo nem esconde seus excessos. A vida social do personagem ameaça sua credibilidade, enquanto uma investigação sobre seu comportamento oferece aos adversários uma oportunidade de enfraquecê-lo. Cada passo na operação afegã passa a carregar também um risco pessoal.

O bom resultado de “Jogos do Poder” está nessa mistura entre leveza e responsabilidade. Charlie circula por festas, suítes, escritórios e reuniões reservadas, mas suas escolhas chegam a pessoas que jamais conhecerão seu nome. Os diálogos espirituosos tornam a política mais acessível, sem apagar o sofrimento provocado pela guerra. Quando Gust interrompe uma conversa elegante para cobrar providências, a graça dura pouco. Logo depois, armas, rotas e verbas voltam a definir quem poderá sobreviver.

O preço esquecido da vitória

A parte mais incômoda da história surge quando a mobilização militar esbarra na falta de interesse pela reconstrução do Afeganistão. Financiar combatentes contra um inimigo conhecido rende prestígio dentro da Guerra Fria. Conseguir dinheiro para escolas e assistência civil desperta bem menos entusiasmo. Charlie percebe que Washington aceita pagar por armas, mas hesita diante de compromissos prolongados com a população.

Essa diferença dá peso à crítica de Mike Nichols. A obra observa pessoas capazes de mover milhões por meio de telefonemas, almoços e alianças discretas, enquanto necessidades básicas continuam esperando autorização. O roteiro não transforma Charlie em responsável isolado pelas escolhas americanas. Também não o absolve por acreditar que uma vitória militar encerraria todas as obrigações.

“Jogos do Poder” é inteligente, divertido e bastante didático sem parecer uma aula de história. Tom Hanks, Julia Roberts e Philip Seymour Hoffman sustentam personagens movidos por vaidade, convicção, ambição e competência. O trio abre portas que pareciam fechadas e interfere numa guerra localizada a milhares de quilômetros de Washington. Quando chega o momento de financiar o que viria depois das armas, porém, os mesmos corredores já demonstram bem menos disposição para ouvir.


Filme: Jogos de Poder
Diretor: Mike Nichols
Ano: 2007
Gênero: Comédia/Drama/História
Avaliação: 4/5 1 1
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