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Em 1870, cinco anos após o término da Guerra Civil Americana, o capitão Jefferson Kyle Kidd (Tom Hanks) percorre cidades do Texas lendo notícias para trabalhadores e moradores sem acesso frequente aos jornais. Sua rotina muda ao conhecer Johanna Leonberger (Helena Zengel), uma menina de 10 anos criada pelo povo Kiowa e agora enviada aos parentes biológicos. Kidd aceita acompanhá-la porque nenhuma autoridade disponível pode realizar a tarefa, mas a longa viagem reúne ameaças humanas, estradas precárias e duas pessoas que perderam qualquer ideia segura de lar.

Dirigido por Paul Greengrass, “Relatos do Mundo” combina drama, aventura e elementos do faroeste. O roteiro acompanha o deslocamento dos protagonistas sem transformar a viagem numa sequência apressada de perigos. Cada parada acrescenta uma dificuldade concreta e revela um pouco mais sobre aquele país ainda ferido pela guerra. Soldados patrulham estradas, líderes locais controlam comunidades e homens armados tratam pessoas vulneráveis como mercadoria.

Kidd tenta atravessar esse cenário usando jornais, experiência militar e uma calma que Tom Hanks domina muito bem. Johanna responde com desconfiança, resistência e uma capacidade admirável de contrariar adultos. Os dois formam uma dupla improvável, embora o filme jamais finja que a aproximação seria simples.

Um leitor de notícias pelo Texas

Jefferson Kyle Kidd vive de cidade em cidade, carregando jornais e cobrando algumas moedas para ler matérias em voz alta. Ele fala sobre política, epidemias, acidentes, guerras e acontecimentos estrangeiros diante de públicos interessados em saber o que existe além das planícies texanas. É uma espécie de apresentador de telejornal do século 19, com menos iluminação, mais poeira e nenhuma equipe para ajudá-lo.

O trabalho depende tanto da informação quanto da habilidade de observar a plateia. Kidd escolhe as notícias, acompanha as reações e sabe que determinados assuntos podem provocar revolta. Em uma região dividida pela derrota do Sul, ler um jornal também significa mexer em feridas políticas recentes. Uma palavra inadequada pode encerrar a apresentação, comprometer o pagamento ou colocar sua vida em perigo.

Durante uma viagem, Kidd cruza com Johanna, menina de origem alemã levada pelos Kiowa seis anos antes. Criada dentro daquela comunidade, ela fala a língua do povo indígena, usa seus costumes e considera aquela cultura parte de sua identidade. A garota agora precisa morar com os tios Anna Leonberger (Mare Winningham) e Wilhelm Leonberger (Neil Sandilands), parentes que não conhece e cuja língua mal compreende.

Documentos indicam o destino da criança, mas não resolvem seu desamparo. A lei determina onde Johanna deve morar sem considerar aquilo que ela reconhece como família. Kidd procura ajuda num posto oficial, porém descobre que o responsável pelo transporte demorará meses para chegar. Sem disposição para abandonar a menina, assume a missão de atravessar centenas de quilômetros com ela.

Uma companhia nada obediente

Johanna não recebe a viagem como um passeio. Ela rejeita ordens, tenta preservar seus costumes e demonstra pouca vontade de colaborar com o adulto que pretende levá-la a outro lugar desconhecido. Helena Zengel interpreta a personagem com energia e firmeza, sem transformá-la numa criança indefesa à espera de proteção. Seu olhar costuma dizer mais do que várias páginas de diálogo.

Kidd, por sua vez, tenta estabelecer uma rotina dentro da carroça. Ele oferece comida, roupas e instruções, mas a barreira linguística complica até as tarefas mais simples. Johanna também não demonstra preocupação em facilitar o trabalho do capitão. Para ela, a educação proposta por aquele homem parece muito menos importante do que decidir o próprio caminho.

A convivência rende passagens leves, sobretudo quando Kidd tenta ensinar boas maneiras a uma menina indiferente às regras sociais dos colonos. Tom Hanks usa pequenas expressões de cansaço e surpresa para revelar a falta de preparo do personagem. Veterano de três guerras, ele sabe lidar com armas e estradas perigosas, mas fica desconcertado diante de uma passageira que simplesmente ignora suas orientações.

Essa diferença sustenta grande parte da história. Kidd é cuidadoso, fala bastante e costuma avaliar cada risco. Johanna age por instinto, observa o ambiente e possui conhecimentos que ele não domina. Aos poucos, ambos percebem que só poderão prosseguir se dividirem tarefas e prestarem atenção um no outro.

A violência ocupa as estradas

O caminho até a casa dos Leonberger reúne ameaças maiores do que a poeira e o calor. Homens armados demonstram interesse por Johanna e obrigam Kidd a usar a experiência adquirida nas guerras. As cenas de ação valorizam a falta de munição, a distância entre os perseguidores e as características do terreno. Cada disparo possui peso porque os protagonistas não carregam recursos infinitos.

Greengrass também apresenta cidades dominadas por figuras autoritárias. Merritt Farley (Thomas Francis Murphy), proprietário de uma comunidade, controla trabalhadores e procura controlar as notícias que chegam até eles. Quando Kidd recebe ordens sobre o conteúdo de sua leitura, seu ofício deixa de ser apenas uma fonte de renda. Escolher uma matéria passa a representar um risco para ele e para Johanna.

Esse trecho revela uma das ideias mais interessantes de “Relatos do Mundo”. A notícia pode informar uma população, mas também pode ser selecionada por quem deseja preservar poder. Kidd conhece essa força e precisa decidir até onde irá para manter a própria segurança. O filme aproxima o Texas de 1870 de debates ainda conhecidos, sem transformar os personagens em porta-vozes artificiais.

Duas pessoas afastadas de casa

A viagem também expõe as perdas carregadas pelos protagonistas. Kidd sobreviveu às guerras e passa os dias circulando por cidades onde nunca permanece. Johanna teve a família biológica assassinada, foi acolhida pelos Kiowa e depois retirada daquela comunidade. Ambos vivem em movimento porque os lugares ligados ao passado deixaram de oferecer abrigo.

Tom Hanks interpreta Kidd com sobriedade e certo desgaste físico. Seu personagem não possui a imponência típica dos pistoleiros do faroeste. Ele parece cansado, atento e acostumado a esconder sentimentos atrás das notícias que lê. Helena Zengel oferece o contraponto necessário, dando a Johanna uma presença inquieta e difícil de domesticar.

A ligação entre os dois cresce por ações pequenas. Kidd passa a respeitar os conhecimentos da menina, enquanto Johanna percebe que ele não pretende tratá-la como propriedade. O afeto surge dentro da rotina compartilhada, entre refeições, palavras aprendidas e decisões tomadas na estrada. Essa construção paciente torna a relação convincente sem exigir cenas carregadas de sentimentalismo.

Um faroeste íntimo e humano

Paul Greengrass, conhecido por produções mais agitadas, adota aqui um ritmo sereno. A câmera acompanha os deslocamentos pelo Texas, reserva espaço para silêncios e deixa a paisagem reforçar o isolamento dos viajantes. A técnica permanece ligada ao que os personagens conseguem ver e saber, principalmente durante perseguições e tempestades.

“Relatos do Mundo” possui alguns caminhos previsíveis, mas a força da dupla central sustenta o interesse. Hanks oferece humanidade a um homem que acredita no valor das notícias, embora também saiba quanto elas podem custar. Zengel impede que Johanna seja usada apenas para despertar compaixão. A menina possui vontade própria e reage às decisões tomadas sobre sua vida.

A aventura preserva suas principais revelações e leva o público até os limites dessa missão sem entregar antecipadamente a resolução. Mais do que cumprir uma ordem escrita num documento, Kidd precisa descobrir se deixar Johanna com os parentes será suficiente para protegê-la. A resposta depende daquilo que ambos fizeram durante centenas de quilômetros, quando cada nova parada decidiu quem teria condições de seguir viagem.


Filme: Relatos do Mundo
Diretor: Paul Greengrass
Ano: 2020
Gênero: Ação/Aventura/Drama
Avaliação: 3.5/5 1 1
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