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Em “Sem Limite para Vingar”, lançado em 1991, Denzel Washington vive um promotor de Los Angeles perseguido pelo assassino que prendeu anos antes. Nick Styles (Denzel Washington) ainda é um jovem policial de Los Angeles quando atende uma ocorrência durante uma feira popular. Ele também estuda Direito e planeja deixar as ruas para trabalhar nos tribunais. A ambição não nasce apenas do desejo de subir na carreira. Nick acredita que poderá ajudar seu bairro ocupando um cargo com maior autoridade.

A patrulha muda de rumo quando Earl Talbot Blake (John Lithgow), assassino envolvido em uma negociação de drogas fracassada, inicia um ataque no meio da multidão. O policial enfrenta Blake diante das câmeras e consegue prendê-lo. A gravação chega à televisão e transforma Nick em herói local, enquanto o criminoso segue para a cadeia alimentando um rancor que crescerá durante anos.

O episódio abre portas para o jovem agente. Ele abandona a farda, torna-se promotor público assistente e constrói uma vida respeitável ao lado da esposa, Alice Styles (Victoria Dillard), e das duas filhas. Seu antigo parceiro, Larry Doyle (Kevin Pollak), permanece na polícia e acompanha a ascensão do amigo. Nick passa a circular entre autoridades, entrevistas e projetos comunitários, uma mudança considerável para quem começou patrulhando ruas pouco assistidas pelo poder público.

Blake também muda, embora por razões menos admiráveis. Preso, ele acompanha a carreira do homem responsável por sua condenação e prepara uma vingança minuciosa. Matar Nick seria pouco para alguém interessado em sofrimento prolongado. Blake deseja retirar dele o emprego, a credibilidade, a família e qualquer chance de defesa.

O criminoso volta ao jogo

Anos depois da prisão, Blake escapa durante uma audiência de liberdade condicional. Ele ainda cria condições para que as autoridades acreditem que morreu, o que lhe permite circular sem aparecer nas buscas policiais. Livre da vigilância oficial, inicia uma campanha destinada a destruir Nick diante dos colegas e da população.

O plano atinge um ponto especialmente vulnerável. A carreira de Nick depende da confiança pública, e Blake sabe que uma acusação comprometedora pode causar mais estragos do que uma agressão física. Ele fabrica provas, manipula gravações e prepara situações que apresentam o promotor como um homem corrupto, infiel e instável. Tudo chega às pessoas certas antes que Nick consiga contar sua versão.

Quando tenta alertar os colegas, Nick enfrenta a falta de provas sobre a sobrevivência do criminoso. Blake permanece escondido, enquanto documentos, imagens e exames parecem confirmar as acusações contra o promotor. A promotora distrital Priscilla Brimleigh (Lindsay Wagner) precisa proteger o gabinete, e Alice recebe informações que abalam sua confiança no marido. Nick conhece o responsável, mas não consegue demonstrar que o inimigo sequer está vivo.

A perversidade de Blake está no cuidado com a plateia. John Lithgow interpreta o criminoso com uma alegria incômoda, quase infantil, diante de cada prejuízo causado. Seu personagem não quer apenas vencer. Ele deseja assistir à queda e garantir que Nick permaneça consciente enquanto perde o controle da própria vida. O excesso da atuação combina com um vilão que transforma vingança em espetáculo particular.

Denzel Washington sustenta a tensão

Denzel Washington oferece ao protagonista energia, inteligência e vulnerabilidade. Nick começa a história confiante, cercado pela família e protegido pelo prestígio profissional. Quando sua reputação desmorona, ele passa a agir sob pressão e com poucos aliados. Sua experiência como policial ajuda na busca por Blake, mas o cargo de promotor também o prende a regras que o adversário ignora.

Larry Doyle tenta ajudá-lo a investigar o passado do fugitivo. O policial conhece Nick desde a prisão ocorrida na feira e sabe que o amigo não inventaria uma ameaça daquela dimensão. Ainda assim, boa vontade não substitui provas. Cada passo da investigação expõe os dois homens, enquanto Blake acompanha seus movimentos e interfere antes que eles consigam recuperar alguma vantagem.

A situação também obriga Nick a procurar Odessa (Ice-T), amigo de juventude que escolheu outro caminho. Odessa comanda negócios ilegais no bairro onde ambos cresceram e mantém influência sobre pessoas que dificilmente colaborariam com a polícia. A relação entre eles carrega afeto, cobrança e certa ironia. Nick representa a lei, mas precisa recorrer a um homem situado fora dela quando as instituições deixam de acreditar em sua palavra.

Ice-T oferece presença firme a Odessa sem transformá-lo em simples auxiliar do protagonista. O personagem conhece os riscos de ajudar um promotor e sabe que Blake ameaça todos ao redor de Nick. Sua participação liga o passado do herói à crise presente e oferece recursos que os canais oficiais já não fornecem. A amizade, nesse caso, custa segurança e pode atrair a violência para dentro do bairro.

A imagem vale mais que a palavra

Russell Mulcahy organiza “Sem Limite para Vingar” em torno do poder das gravações. Uma câmera registra a prisão de Blake e ajuda Nick a construir sua carreira. Anos depois, outras imagens são manipuladas para arruiná-lo. A mesma exposição que o elevou passa a trabalhar contra ele, deixando uma pergunta desconfortável sobre quem controla aquilo que o público aceita como verdade.

Essa ideia ganhou ainda mais força com o passar do tempo. Hoje, uma gravação fora de contexto pode circular antes de qualquer apuração e condenar alguém perante milhares de pessoas. “Sem Limite para Vingar” aborda esse temor dentro de um thriller assumidamente exagerado, repleto de perseguições, violência e planos que exigem alguma generosidade do espectador. O filme pertence a uma época em que os vilões podiam preparar operações enormes sem serem incomodados por detalhes banais, entre eles câmeras em cada esquina e localização pelo celular.

Mulcahy mantém a história em movimento e restringe as informações quando Nick mais precisa delas. O espectador conhece a ameaça, mas acompanha a dificuldade do protagonista para provar sua existência. Essa diferença sustenta o suspense, pois cada tentativa de defesa pode parecer nova evidência de culpa. A violência física pesa, porém a perda de credibilidade provoca danos mais profundos.

“Sem Limite para Vingar” combina ação policial, crime, drama familiar e suspense psicológico com a falta de modéstia típica de parte do cinema norte-americano dos anos 1990. Algumas situações atravessam a fronteira do plausível, e Blake parece ter tempo, dinheiro e disposição suficientes para administrar uma pequena empresa dedicada exclusivamente à vingança. Ainda assim, Washington impede que Nick vire apenas uma peça carregada entre sequências violentas.

O thriller é duro, por vezes excessivo, sustentado pelo embate entre dois atores de registros muito diferentes. Washington preserva a humanidade de um homem obrigado a defender o próprio nome, enquanto Lithgow abraça a crueldade espalhafatosa de Blake. Quando Nick percebe que precisa retirar o adversário das sombras e levá-lo novamente ao alcance das câmeras, sua sobrevivência passa a depender da mesma exposição pública que iniciou toda a história.

Fer Kalaoun

Fer Kalaoun é editora na Revista Bula e repórter especializada em jornalismo cultural, audiovisual e político desde 2014. Estudante de História no Instituto Federal de Goiás (IFG), traz uma perspectiva crítica e contextualizada aos seus textos. Já passou por grandes veículos de comunicação de Goiás, incluindo Rádio CBN, Jornal O Popular, Jornal Opção e Rádio Sagres, onde apresentou o quadro Cinemateca Sagres.

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