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A gasolina acabou, e esta é a primeira má notícia. Num lugar ermo do Arizona, onde o sol parece ter feito um acordo para castigar quem ousasse atravessar a região, um vendedor de facas estaciona o carro diante de um posto e descobre que o caminhão-tanque só chegará dali a algumas horas. “A Última Parada do Arizona” nasce dessa banalidade e Francis Galluppi tem juízo suficiente para não apressar o desastre. Primeiro deixa os personagens entrarem. Depois fecha a porta.

O Vendedor de Facas pretendia apenas seguir viagem para encontrar a filha na Califórnia, mas acaba no restaurante administrado por Vernon, onde Charlotte atende os fregueses enquanto espera-se pelo combustível. Jim Cummings parece feito para esse tipo de sujeito discretamente derrotado, um homem que fala pouco, observa muito e demora a compreender que está diante de um problema bem maior que um tanque vazio. Jocelin Donahue, por sua vez, dá a Charlotte uma cordialidade que naquele cenário vai adquirindo algo de melancólico. Ela oferece café, conversa, trabalha. A civilização ainda resiste.

Galluppi estreava no longa-metragem depois de uma carreira feita de curtas, música e trabalhos técnicos, e talvez daí venha sua recusa ao desperdício. Não há interesse em transformar a paisagem num cartão-postal ou lançar personagens pela tela apenas para aumentar o número de cadáveres. O filme foi realizado com recursos modestos, e a restrição, em vez de denunciá-lo, acaba definindo sua personalidade. O diretor concentra praticamente tudo naquele pedaço de estrada, no restaurante e nos carros parados diante das bombas, fazendo com que a sensação de clausura cresça justamente num dos lugares mais abertos da América.

Os homens no canto do restaurante

Beau e Travis chegam sem alarde. Richard Brake e Nicholas Logan não precisam fazer muita coisa para que alguma coisa pareça errada, e Galluppi demora o necessário antes de revelar que os dois são os ladrões de banco procurados nos noticiários. O dinheiro está no carro. Eles também estão sem combustível. A ironia é tão simples que quase poderia sustentar uma comédia, e de fato há momentos em que “A Última Parada do Arizona” flerta com o absurdo, sobretudo quando novos fregueses continuam aparecendo e desconhecem inteiramente a armadilha onde acabam de entrar.

É aí que o filme cresce. O suspense deixa de depender somente dos assaltantes e passa a repousar sobre quem sabe o quê. O Vendedor de Facas percebe o perigo antes dos outros, Charlotte continua tentando preservar alguma normalidade, Vernon não entende de imediato por que o ambiente azedou, e cada novo carro que estaciona diante do restaurante obriga Beau e Travis a recalcular o plano. Galluppi trabalha bem com essa geometria. Um personagem olha, outro percebe que foi observado, alguém diz uma frase absolutamente cotidiana e, de repente, a frase parece uma ameaça.

O dinheiro também começa a exercer seu velho poder. Quando a mala ou o porta-malas cheio de notas deixa de ser propriedade exclusiva dos bandidos e passa a existir na imaginação dos demais, a moralidade de algumas figuras torna-se tão instável quanto a situação. O crime original já não explica tudo. Há gente que poderia simplesmente esperar pela gasolina e ir embora, mas a possibilidade de sair daquele fim de mundo com uma fortuna modifica o cálculo.

Quando a espera termina

Galluppi sabe que não poderia sustentar por noventa minutos a promessa de violência sem finalmente entregá-la, e quando o faz abandona parte da contenção. O restaurante torna-se campo de batalha, carros passam a servir de esconderijo, rotas de fuga aparecem e desaparecem, e personagens que até então pareciam coadjuvantes descobrem uma súbita vocação para sobreviver. O diretor evita conferir dignidade demais a qualquer um. Ali não há grandes heróis, só pessoas acuadas, gananciosas, assustadas ou suficientemente azaradas para terem parado no pior posto possível.

A reputação do longa cresceu justamente a partir dessa combinação de economia e precisão. Depois da passagem por festivais e da recepção crítica muito favorável, Galluppi deixou de ser apenas um estreante curioso e passou a ser observado por gente grande da indústria. Faz sentido. Seu filme parece ter sido desenhado por alguém que conhece o prazer de reter uma informação até o último momento possível e, principalmente, sabe que suspense não se mede pelo número de tiros.

Quando finalmente chega a hora de sair dali, o problema já deixou de ser a falta de combustível. Ao longo de uma hora e meia, Galluppi fez homens e mulheres descobrirem motivos muito piores para permanecer naquele pedaço do Arizona.


Filme: A Última Parada do Arizona
Diretor: Francis Galluppi
Ano: 2023
Gênero: Crime/Suspense
Avaliação: 4/5 1 1
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