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Arthur Fleck aguarda julgamento pelos assassinatos cometidos em Gotham enquanto enfrenta a rotina de Arkham e uma paixão alimentada pela figura do Coringa. Em “Coringa: Delírio a Dois”, Todd Phillips reencontra Arthur Fleck (Joaquin Phoenix) dois anos após os acontecimentos do primeiro longa. Preso no Hospital Estadual de Arkham, ele espera o julgamento que decidirá seu destino. A advogada Maryanne Stewart (Catherine Keener) pretende provar que os crimes foram cometidos por uma personalidade dissociada. Arthur, porém, conhece Harleen “Lee” Quinzel (Lady Gaga), paciente fascinada pelo Coringa. Entre sessões musicais, audiências e fantasias românticas, ele precisa escolher qual versão de si deseja apresentar ao júri.

A abertura encontra Arthur magro, silencioso e submetido à rotina dos agentes penitenciários. Longe da imagem triunfal construída nas ruas de Gotham, ele depende dos guardas para tomar banho, caminhar pelos corredores e participar das atividades do hospital. Até um cigarro vira prêmio por bom comportamento.

Jackie Sullivan (Brendan Gleeson) acompanha seus deslocamentos e trata o prisioneiro como uma atração particular. Ele provoca Arthur, pede piadas e oferece pequenas concessões em troca de obediência. A fama conquistada pelo Coringa não lhe concede autoridade dentro de Arkham. Atrás das grades, quem decide quando ele fala, come ou sai da cela continua usando uniforme.

Arthur aguarda julgamento por cinco assassinatos admitidos pelas autoridades, embora a população também lhe atribua a morte de sua mãe. Maryanne Stewart prepara uma defesa baseada na ideia de que Arthur e Coringa seriam personalidades distintas. Para livrá-lo da pena máxima, ela precisa convencer os jurados de que o homem sentado no banco dos réus não controlava inteiramente os atos cometidos por seu alter ego.

Lee entra pela música

Durante uma atividade musical, Arthur conhece Harleen Quinzel, chamada de Lee. Ela também está internada e demonstra conhecer cada detalhe da vida do novo companheiro. A admiração oferece algo que ele buscou durante anos. Pela primeira vez, uma mulher olha para ele com desejo e parece interessada em ouvir suas piadas.

Existe, contudo, uma condição pouco confortável nessa paixão. Lee se encanta pelo Coringa, pela maquiagem, pelos crimes e pelo poder que aquela figura adquiriu entre seus seguidores. Arthur recebe carinho enquanto preserva o personagem esperado por ela. Sempre que revela medo ou fragilidade, corre o risco de perder o lugar central naquela fantasia amorosa.

Lady Gaga interpreta Lee com uma mistura de sedução, cálculo e devoção. Sua personagem aproxima-se de Arthur, participa de seus devaneios e alimenta a promessa de uma vida compartilhada. Ele se agarra a essa possibilidade porque passou boa parte da existência sem intimidade verdadeira. O romance lhe devolve disposição, mas também aumenta a cobrança para que o Coringa permaneça vivo.

O tribunal vira palco

Quando o julgamento começa, Arkham divide espaço com o tribunal de Gotham. A imprensa acompanha o caso, admiradores ocupam as ruas e as vítimas retornam por meio dos depoimentos. Arthur deixa de ser apenas um detento. Ele volta a ocupar o centro de uma audiência interessada tanto nos crimes quanto na figura criada por eles.

Maryanne tenta manter o cliente dentro da linha de defesa preparada. Cada gesto performático ameaça sua alegação de que Arthur e Coringa são identidades separadas. Lee deseja o movimento contrário. Para ela, o homem tímido e inseguro possui menos encanto do que o palhaço capaz de desafiar juízes, guardas e promotores.

Essa disputa oferece ao filme sua tensão principal. Arthur deseja ser amado, mas percebe que o afeto ao seu redor depende de uma interpretação permanente. A multidão quer um símbolo revoltado. Lee quer o amante carismático de seus sonhos. A advogada precisa de um réu vulnerável. Os guardas preferem um prisioneiro submisso. Quase ninguém demonstra interesse por Arthur quando ele abandona o papel que esperam dele.

O tribunal também devolve espaço às consequências do longa anterior. Gary Puddles (Leigh Gill), antigo colega de trabalho de Arthur, participa do julgamento e recorda o medo provocado pelo massacre. Sophie Dumond (Zazie Beetz), sua antiga vizinha, oferece outra ligação com a vida anterior do réu. As falas retiram dos crimes qualquer aparência heroica e colocam pessoas feridas diante do homem celebrado nas escadarias de Gotham.

As canções suspendem a realidade

A escolha de transformar a continuação em musical provocou estranhamento, mas acompanha a forma pela qual Arthur e Lee escapam das restrições. Quando a rotina fica insuportável, eles imaginam palcos, figurinos, bandas e plateias. Nessas sequências, o casal controla o espaço e recebe os aplausos negados pela vida cotidiana.

Joaquin Phoenix canta de maneira frágil, quase vacilante, coerente com um homem que nunca dominou plenamente a própria voz. Lady Gaga possui presença vocal mais segura, embora contenha a potência conhecida de sua carreira musical. Lee poderia dominar cada número, porém sua função dramática exige que permaneça ligada às fantasias de Arthur.

Nem todas as canções ajudam o enredo a avançar. Algumas prolongam sensações que já estavam estabelecidas e suspendem embates mais interessantes no tribunal ou em Arkham. A repetição deixa o longa cansativo em certos trechos. Todd Phillips parece mais interessado em frustrar a expectativa por um vilão grandioso do que em oferecer energia contínua à história.

Essa escolha possui coragem, embora cobre paciência. Quem espera uma escalada criminosa, com Arthur assumindo o comando de Gotham, encontra um homem enfraquecido e cercado por pessoas que reivindicam seu personagem. O Coringa virou uma marca popular, enquanto seu criador permanece incapaz de controlar a porta da própria cela. É uma ironia cruel e bastante eficiente.

O homem atrás da maquiagem

“Coringa: Delírio a Dois” observa o preço de transformar sofrimento em espetáculo. Arthur ganhou seguidores depois de matar, mas a fama não lhe trouxe autonomia. Dentro de Arkham, ele continua exposto à violência dos agentes. No tribunal, sua história pertence aos advogados e à imprensa. Ao lado de Lee, precisa sustentar uma versão atraente para conservar o romance.

Joaquin Phoenix mantém o corpo curvado e a fala insegura que marcaram o primeiro longa, agora com um cansaço ainda mais visível. Lady Gaga interpreta uma mulher cuja paixão possui exigências perigosas. Brendan Gleeson oferece peso às cenas de Arkham, enquanto Catherine Keener representa a única defesa capaz de interferir juridicamente no destino de Arthur.

Todd Phillips entrega uma continuação deliberadamente incômoda, irregular e menos sedutora que sua antecessora. O musical interrompe a violência, o romance cobra uma performance e o julgamento obriga Arthur a encarar pessoas atingidas por seus atos. Entre a maquiagem desejada pelo público e o homem sentado no banco dos réus, sobra cada vez menos espaço para ele escolher a própria voz.


Filme: Coringa: Delírio a Dois
Diretor: Todd Phillips
Ano: 2024
Gênero: Drama/Musical/Suspense
Avaliação: 3.5/5 1 1
Fernando Machado

Fernando Machado é jornalista e cinéfilo, com atuação voltada para conteúdo otimizado, Google Discover, SEO técnico e performance editorial. Na Cantuária Sites, integra a frente de projetos que cruzam linguagem de alta qualidade com alcance orgânico real.

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