Uma criança pode aprender muito cedo que os adultos mentem. Aprende também que professores, diretores, policiais, juízes e toda aquela gente apresentada como guardiã da ordem podem usar a autoridade para produzir exatamente o contrário. “Em Silêncio” começa onde qualquer esperança pedagógica já foi destruída. Hwang Dong-hyuk entra numa escola para alunos surdos e faz do silêncio uma condição física, depois moral, até que o espectador compreenda que o verdadeiro horror não está apenas no que aconteceu às crianças, mas no número de pessoas dispostas a permitir que continue acontecendo.
Kang In-ho chega à fictícia Mujin para trabalhar como professor de artes. Gong Yoo compõe um sujeito sem qualquer vocação para mártir, alguém que precisa do emprego e percebe quase de imediato que aquele lugar tem códigos próprios. Os estudantes desviam os olhos, funcionários tratam agressões como episódios disciplinares e os responsáveis pela instituição carregam consigo aquela serenidade especialmente repulsiva de quem sabe estar protegido. Uma criança reage de maneira desproporcional à aproximação de um adulto e In-ho começa a perguntar o que ninguém naquele prédio deseja responder.
O roteiro de Hwang adapta o romance “Dogani”, de Gong Ji-young, publicado a partir de fatos ocorridos na Escola Inhwa de Gwangju, onde alunos surdos sofreram abusos durante anos. Essa origem seria suficiente para transformar o filme numa denúncia, mas “Em Silêncio” ganhou depois uma dimensão que poucas obras de ficção alcançam. Mais de 4,7 milhões de espectadores foram vê-lo nos cinemas sul-coreanos, o caso voltou ao centro do debate público, investigações foram reabertas, a escola acabou fechada e uma nova legislação eliminou limitações que favoreciam responsáveis por crimes sexuais contra crianças e pessoas com deficiência. O cinema, por uma vez, saiu da sala e foi cobrar explicações.
Quando alguém resolve escutar
Seo Yoo-jin é quem oferece a In-ho alguma possibilidade de reação. Jung Yu-mi evita transformar a ativista numa santa de bons propósitos e faz dela uma mulher que conhece a burocracia, sabe como denúncias morrem dentro de repartições e entende que a indignação individual quase nunca basta. Aos poucos, ela e o professor aproximam-se das crianças e o filme abandona qualquer esperança de proteger o espectador. Os relatos aparecem. Hwang não os trata como combustível para um suspense barato, tampouco permite que a violência vire espetáculo. O que se vê é suficiente.
Há sequências difíceis porque as vítimas não dispõem sequer das ferramentas com que adultos costumam narrar a própria dor. A comunicação em língua de sinais torna o trabalho dos intérpretes mirins ainda mais devastador, e Hwang compreende que um rosto aguardando a reação de quem finalmente o escuta pode ter mais força que qualquer reconstrução gráfica do abuso. Kim Hyeon-soo, Jung In-seo e Baek Seung-hwan carregam uma parte do filme que ator mais experiente algum poderia resolver apenas com técnica.
Quando o caso chega ao sistema judicial, “Em Silêncio” muda novamente de natureza. Já não há mistério sobre o que aconteceu, e a tensão passa a nascer da possibilidade de que todos saibam a verdade e mesmo assim nada aconteça. Advogados negociam, testemunhos são relativizados, relações locais de poder pesam e o sofrimento das crianças começa a ser traduzido para o idioma frio dos procedimentos. É nesse momento que o filme se torna particularmente indigesto. O mal não precisa esconder-se quando dispõe de protocolo.
Hwang Dong-hyuk antes do fenômeno
Dez anos mais tarde, Hwang Dong-hyuk seria conhecido no planeta inteiro por “Round 6”, outra história sobre gente encurralada por estruturas muito maiores que ela. A distância entre uma escola de Gwangju e uma arena colorida onde endividados lutam pela vida parece imensa, porém o diretor já tinha aqui algumas de suas obsessões mais evidentes. Instituições existem para proteger pessoas e acabam protegendo a si mesmas. Dinheiro interfere naquilo que deveria ser questão de justiça. E os mais vulneráveis são sempre os primeiros convidados a compreender as regras reais.
Gong Yoo mantém In-ho numa região interessante entre impotência e revolta. O professor nunca se transforma naquele herói de tribunal que pronuncia um discurso perfeito e conserta o mundo antes dos créditos. Há derrotas, acordos revoltantes, portas que se fecham. O filme não tem nenhum interesse em poupar seu protagonista da constatação de que fazer a coisa certa pode ser insuficiente.
Talvez por isso “Em Silêncio” continue tão difícil de assistir. Hwang não oferece ao público a recompensa confortável de imaginar que aqueles acontecimentos pertencem ao passado e foram resolvidos pela intervenção de dois adultos decentes. As mudanças que vieram depois do filme foram concretas e importantes, mas surgiram porque, durante muito tempo, quase todos os que poderiam ter feito alguma coisa preferiram permanecer quietos. As crianças já sabiam disso. O país é que precisou escutá-las.

