Em 1987, o padre Gabriele Amorth viaja à Espanha para investigar a possessão de um menino instalado com a família numa antiga abadia. Inspirado nos relatos do sacerdote italiano que trabalhou como exorcista da Diocese de Roma, “O Exorcista do Papa” combina terror sobrenatural, investigação religiosa e conspiração histórica. Dirigido por Julius Avery, o longa coloca Russell Crowe no papel de um religioso experiente, espirituoso e pouco afeito à solenidade. Sua missão começa ao lado de uma família devastada pelo luto, mas logo alcança documentos mantidos longe dos arquivos públicos da Igreja.
Julia Vasquez (Alex Essoe) deixa os Estados Unidos e segue para a Espanha com os filhos Henry (Peter DeSouza-Feighoney) e Amy (Laurel Marsden). A família pretende reformar uma velha abadia herdada do marido de Julia, morto em um acidente de carro. A venda do imóvel pode oferecer o dinheiro necessário para que os três reconstruam a vida após a perda.
O projeto desanda quando um acidente afasta os operários responsáveis pela reforma. Henry, que parou de falar depois da morte do pai, começa a apresentar mudanças assustadoras de comportamento. A mãe procura ajuda médica, mas os exames não apontam uma causa física para o estado do garoto. Presa numa construção enorme e isolada, Julia vê o filho perder o controle enquanto as opções disponíveis ficam cada vez menores.
A filha mais velha também enfrenta o luto à sua maneira. Amy reage com irritação, escuta música alta e tenta manter alguma independência num lugar que parece rejeitar seus novos moradores. Julia precisa cuidar dos dois filhos, administrar a obra interrompida e decidir até onde está disposta a aceitar uma explicação religiosa. A descrença da personagem deixa de ser apenas uma opinião quando Henry pede a presença de um padre.
Um sacerdote sem experiência
O primeiro a atender ao chamado é o padre Tomás Esquibel (Daniel Zovatto), responsável pela paróquia da região. Jovem e sem preparo para um caso de possessão, ele entra no quarto confiando mais na batina do que na experiência. Henry reage com agressividade e revela informações íntimas capazes de desestabilizá-lo. A tentativa fracassa e confirma que o sacerdote local precisará de ajuda.
Em Roma, Gabriele Amorth (Russell Crowe) ocupa uma função ligada ao Vaticano e responde ao papa (Franco Nero). Ele já examinou inúmeras pessoas que acreditavam estar possuídas, embora costume reconhecer quando a origem do sofrimento exige médicos ou psiquiatras. Essa cautela dá ao personagem alguma credibilidade. Amorth não atribui qualquer grito ao demônio e tampouco despreza a possibilidade de uma doença.
O padre também está longe da figura sisuda comum nesse tipo de história. Ele atravessa Roma numa pequena scooter, gosta de contar anedotas e mantém certa irreverência diante dos superiores. Crowe usa o carisma para transformar Amorth num homem de fé que continua atento às fraquezas humanas, inclusive às próprias. Sua chegada à Espanha traz alívio à família, mas aumenta a pressão sobre Esquibel, agora obrigado a auxiliá-lo durante a investigação.
A abadia guarda outro caso
Amorth conversa com Julia, examina Henry e procura distinguir trauma, enfermidade e possível possessão. O menino conhece episódios do passado do religioso e usa essas informações para feri-lo. A entidade também percebe a insegurança de Esquibel e dirige provocações ao jovem padre. Cada reação entrega uma pista, porém também oferece ao adversário novas maneiras de separar os dois sacerdotes.
A investigação avança para outras áreas da propriedade. Amorth descobre que a abadia possui uma história ligada à Igreja e que certos registros foram mantidos sob sigilo. O problema deixa de envolver somente Henry. O edifício guarda vestígios de acontecimentos antigos, e a presença maligna parece interessada em usar o garoto para alcançar uma autoridade maior.
Esse trecho aproxima “O Exorcista do Papa” das aventuras sobre segredos religiosos, com passagens subterrâneas, documentos antigos e decisões comprometedoras tomadas por integrantes do clero. Julius Avery mantém o enredo acessível, mesmo quando mistura possessão, Inquisição espanhola e arquivos do Vaticano. A investigação oferece ao público informações na mesma proporção em que os padres as obtêm, o que preserva parte do mistério sem tornar a história confusa.
Russell Crowe domina a sessão
Crowe é o trunfo do longa. O sotaque italiano pode soar carregado, mas combina com a personalidade expansiva de Amorth. O ator passa da brincadeira à preocupação sem transformar o sacerdote num herói inalcançável. Seu personagem sente medo, carrega culpa e sabe que a experiência acumulada não garante vitória dentro daquela abadia.
Daniel Zovatto oferece um contraponto mais contido. Esquibel possui fé, porém ainda não controla as próprias reações quando Henry ataca suas fragilidades. A parceria entre os padres cresce porque ambos precisam admitir erros antes de enfrentar o garoto outra vez. Alex Essoe, por sua vez, dá a Julia o cansaço de uma mãe que já perdeu o marido e agora corre o risco de perder o filho.
O terror funciona melhor quando permanece no quarto de Henry e observa o desgaste das pessoas ao redor. A voz alterada, os movimentos do menino e o medo silencioso da família produzem mais tensão do que os efeitos digitais usados nas sequências grandiosas. Em alguns trechos, Avery pesa a mão no barulho e transforma uma ameaça inquietante num espetáculo familiar demais para quem acompanha filmes de exorcismo.
A fé entra no quarto
Amorth precisa descobrir quem domina Henry antes de iniciar uma nova tentativa de libertá-lo. Esquibel deve controlar a culpa, Julia precisa participar da proteção do filho e Amy permanece exposta aos ataques que cercam a família. As descobertas feitas na abadia oferecem aos sacerdotes algum conhecimento, embora o adversário também conheça os pontos fracos de cada um.
“O Exorcista do Papa” trabalha com elementos conhecidos do gênero, mas ganha personalidade graças à interpretação de Russell Crowe. A scooter, as piadas discretas e a segurança do padre criam uma figura mais próxima do público do que o roteiro talvez conseguisse sozinho. Quando Amorth e Esquibel retornam ao quarto, ambos sabem que a fé será insuficiente sem disciplina, confiança e coragem para encarar aquilo que carregam escondido.
O terror é movimentado, acessível e por vezes excessivo, sustentado por um protagonista que trata o perigo com seriedade sem perder o gosto por uma boa provocação. A luta por Henry permanece no centro da história, enquanto a abadia oferece uma ameaça maior e prepara o terreno para outros casos. Antes que a porta se feche para o ritual, a família já entregou aos dois padres sua última possibilidade de sair daquele lugar com o menino vivo.

