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Curtis LaForche olha para o céu de Ohio e vê o que ninguém mais enxerga. Primeiro vem uma chuva estranha, grossa, com aparência de óleo. Depois aparecem pássaros voando em formações que parecem anunciar o fim de alguma coisa, tempestades monstruosas, pessoas conhecidas agindo como feras. Em “O Abrigo”, Jeff Nichols não demora a revelar que seu protagonista está apavorado. O que ele esconde por mais tempo é a natureza desse medo. Pode ser uma premonição. Pode ser uma doença. Pode ser só aquilo que acontece quando um homem comum sente que o mundo à sua volta começa a ficar grande demais para que ele consiga proteger os seus.

Nichols escreveu o filme a partir de uma inquietação bastante concreta. À época, ele dizia estar tomado por uma ansiedade sobretudo econômica e percebeu, durante a escrita, que o medo só fazia sentido porque havia alguma coisa que Curtis não suportaria perder, sua mulher, a filha, a casa, a vida razoavelmente organizada que construíra. Essa chave faz toda a diferença. “O Abrigo” seria um suspense eficiente se se limitasse à dúvida quanto à sanidade de seu protagonista, mas cresce quando percebe-se que a ameaça principal não está nas nuvens. Está dentro de uma família que pode ser destruída antes que caia a primeira gota.

Curtis e o medo de perder tudo

Curtis trabalha numa empresa de extração de areia, tem uma caminhonete, amigos, prestações e uma filha pequena, Hannah, que é surda. Samantha vende trabalhos manuais e tenta manter a rotina enquanto os dois se preparam para uma cirurgia que poderá ajudar a menina a ouvir. Não são pobres, tampouco desfrutam de uma folga financeira que permita grandes delírios. É justamente por isso que a decisão de Curtis de ampliar às escondidas o velho abrigo contra tempestades no quintal assume contornos tão graves. Ele pega equipamento da empresa, contrai dívida, compromete o orçamento doméstico e começa a tratar os conhecidos como personagens das visões que o atormentam.

Michael Shannon não interpreta Curtis como um louco. Esse detalhe é crucial. Seu corpo pesado, a fala quase sempre contida e a expressão de um sujeito que parece pedir desculpas por ocupar espaço deixam o personagem ainda mais inquietante, porque não existe nele qualquer prazer em assustar os outros. Curtis está sofrendo. Quando procura informações sobre a mãe, internada por esquizofrenia décadas antes, não age como alguém em busca de uma desculpa, mas como um homem que gostaria desesperadamente de descobrir que está doente. A doença, afinal, pode ser tratada. O apocalipse não.

Jessica Chastain faz Samantha compreender isso antes do público. Há uma sequência particularmente dolorosa em que as despesas do abrigo vêm à tona, e a atriz desloca a cena da simples discussão conjugal para um lugar muito mais incômodo. Ela está furiosa com o dinheiro, claro, porém também começa a perceber que o marido passou a viver numa realidade em que sua presença já não basta. O casamento dos dois é o verdadeiro campo de provas do filme. Nichols poderia ter recorrido à mulher paciente que acredita cegamente no homem incompreendido, mas prefere dar-lhe raiva, dúvida, cansaço e, apesar de tudo, lealdade.

A tempestade diante dos outros

Quando Curtis finalmente explode diante da comunidade, durante um jantar, Shannon realiza a cena que transforma “O Abrigo”. Toda a contenção anterior se desfaz e aquele operário discreto anuncia que uma tempestade gigantesca está chegando enquanto vizinhos o observam entre o medo e o constrangimento. É fácil rir de profetas quando o céu continua limpo. Bem mais difícil é conviver com um deles, dormir ao seu lado e entregar-lhe a chave de casa.

O filme chegou à Semana da Crítica de Cannes em 2011 e saiu de lá com o Grande Prêmio, além dos prêmios SACD e FIPRESCI, reconhecimento incomum para uma obra que mistura drama doméstico e ameaça apocalíptica sem decidir por completo a qual dos dois mundos pertence. Nichols não tenta resolver essa ambiguidade com explicações clínicas ou sobrenaturais fáceis. Ele a conserva até o instante em que já não importa muito saber se Curtis estava certo.

Ao fim, Samantha olha para o marido e, pela primeira vez, os dois parecem enxergar exatamente a mesma coisa. O que está no horizonte pode destruir o mundo ou apenas confirmar que o medo sempre esteve ali. A diferença é que Curtis já não está sozinho.


Filme: O Abrigo
Diretor: Jeff Nichols
Ano: 2011
Gênero: Drama/Suspense
Avaliação: 4.5/5 1 1
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