Q escreve romances policiais sobre corrupção porque conhece bem demais a matéria de que seus livros são feitos. Em “O Silêncio do Pântano”, Marc Vigil apresenta um escritor bem-sucedido, antigo jornalista, cujo interesse por políticos venais, empresários subterrâneos e cadáveres inconvenientes vai um tanto além da pesquisa literária. Pedro Alonso empresta a esse homem uma fleuma que combina com quem olha a sociedade como se já tivesse desistido dela, mas ainda conservasse energia suficiente para lhe aplicar algum castigo.
Valência aparece como uma cidade luminosa erguida sobre algo podre. O contraste interessa a Vigil muito mais que a investigação tradicional. Q escolhe Ferrán Carretero, professor universitário e ex-político envolvido num escândalo, e ao aproximar-se dele abre uma passagem para um submundo onde a diferença entre autoridade pública e delinquência privada é sobretudo de vestuário. La Puri, a matriarca criminosa vivida por Carmina Barrios, e Falconetti, seu executor de confiança, de Nacho Fresneda, pertencem ao outro lado dessa mesma organização informal. Todos vivem do silêncio de alguém.
Entre os livros de Q e a realidade
Este foi o primeiro longa-metragem de Vigil depois de anos dirigindo televisão, e a origem literária ajuda a explicar tanto as melhores ideias como alguns tropeços. O filme adapta o romance de Juanjo Braulio, mas o diretor decidiu abandonar boa parte da estrutura do livro, inclusive a narrativa policial que o escritor compunha dentro da própria história, para concentrar tudo em Q e na dúvida sobre onde termina sua literatura e começa a realidade. Vigil declarou que desejava aproximar-se de um jogo à Brian De Palma ou Hitchcock, no qual as informações conduzem o espectador até uma conclusão que pode ser desmontada logo depois.
A operação funciona enquanto “O Silêncio do Pântano” permanece perto de Pedro Alonso. Q tem uma arrogância quase profissional e observa seus interlocutores como quem já pensa em que capítulo irão morrer. O problema surge quando o filme começa a ampliar o mapa da corrupção e passa a mover gente demais pelo tabuleiro. Políticos, traficantes, policiais, intermediários e pequenos criminosos entram e saem rapidamente, e aquele mistério que parecia uma lâmina vai ganhando gordura.
Falconetti, La Puri e o outro lado
Falconetti salva boa parte desse percurso. Fresneda compõe um sujeito sem o verniz intelectual de Q e, justamente por isso, mais ameaçador. Ele não escreve sobre o mal, não teoriza a respeito do sistema e tampouco precisa fingir qualquer superioridade moral. Faz o trabalho. As aproximações entre os dois homens dão ao filme um vigor que desaparece quando Vigil prefere explicar sua alegoria sobre a corrupção valenciana, cuja imagem do pântano é eficaz até o momento em que passa a carregar significado demais.
Há também La Puri, personagem que poderia facilmente cair na caricatura e que Carmina Barrios mantém de pé à força de presença. Naquela rede, ninguém parece realmente comandar nada. Cada poderoso depende de outro poderoso, cada chantagem exige uma nova chantagem, e o escritor que julgava observar tudo de fora descobre que entrou numa narrativa mais cruel que as suas.
A ambiguidade final é coerente com essa aposta, embora Vigil talvez tenha gostado demais do próprio truque. “O Silêncio do Pântano” termina deixando a sensação de que Q pode ter escrito o que acabamos de assistir, vivido aquilo ou misturado as duas coisas, solução interessante para uma obra sobre um autor que transforma realidade em ficção e ficção em álibi. O pântano permanece onde estava. Só não se sabe quem conseguiu sair dele.

