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Aa diretora britânica Andrea Arnold levou às charnecas de Yorkshire uma versão áspera de “O Morro dos Ventos Uivantes”, romance de Emily Brontë sobre dois jovens unidos pelo afeto, mas separados pela origem social, pelo preconceito e pelas decisões tomadas dentro da família Earnshaw. A cineasta acompanha Heathcliff desde sua chegada à propriedade rural até a vida adulta, período em que sua ligação com Cathy deixa de ser uma amizade infantil e se transforma numa relação marcada por desejo, ressentimento e violência.

A história começa quando o senhor Earnshaw (Paul Hilton) volta de Liverpool acompanhado por um garoto pobre, de origem desconhecida. O menino recebe o nome de Heathcliff e passa a viver com a família em uma fazenda isolada, cercada por colinas, chuva e vento. Na infância, ele é interpretado por Solomon Glave. Anos depois, James Howson assume o papel.

O acolhimento oferece comida e moradia, mas está longe de garantir uma vida familiar tranquila. Heathcliff mal consegue se comunicar quando chega e desperta a antipatia de Hindley Earnshaw (Lee Shaw), filho mais velho do proprietário. Hindley enxerga o recém-chegado como um invasor que recebe a atenção do pai e ocupa um espaço que, na opinião dele, deveria pertencer apenas aos herdeiros.

Cathy Earnshaw, vivida na juventude por Shannon Beer, reage de outra maneira. Curiosa e inquieta, ela se aproxima de Heathcliff e passa a levá-lo para caminhar pelas charnecas. Longe da vigilância dos adultos, os dois correm, brincam e criam uma intimidade que dispensa declarações. O sentimento nasce quando ambos ainda possuem pouca consciência das barreiras que os cercam. A casa, porém, nunca permite que Heathcliff esqueça sua condição de dependente.

A violência ocupa a propriedade

A morte do senhor Earnshaw deixa Heathcliff sem seu principal protetor. Hindley assume o controle da propriedade e usa essa autoridade para rebaixar o rapaz. As agressões físicas se juntam às ofensas racistas, enquanto o trabalho pesado substitui qualquer possibilidade de educação ou integração à família. Heathcliff permanece perto de Cathy, mas passa a viver sob as ordens de alguém interessado em mantê-lo sem voz.

Andrea Arnold não suaviza esse ambiente. A lama gruda nas roupas, o vento dificulta as conversas e a chuva transforma qualquer caminhada numa pequena batalha. Os animais, os galhos, a terra molhada e a respiração dos personagens ocupam tanto espaço quanto os diálogos. Há poucos salões elegantes e nenhuma vontade de transformar a Inglaterra rural em cartão-postal. Até o romance precisa atravessar porteiras, paredes úmidas e uma quantidade considerável de sujeira.

Essa escolha torna “O Morro dos Ventos Uivantes” uma experiência física. A câmera permanece perto dos rostos e dos corpos, registrando arranhões, cabelos molhados e mãos sujas. A técnica nunca surge apenas para exibir beleza. Ela informa o que Heathcliff sente, o que Cathy esconde e quanto tempo os dois conseguem permanecer juntos antes de alguém interrompê-los.

Cathy conhece os Linton

A vida de Cathy muda quando ela se aproxima da família Linton, proprietária de uma casa mais rica e organizada. Edgar Linton, interpretado quando jovem por Jonny Powell e na fase adulta por James Northcote, representa estabilidade, respeito social e conforto. Ele pode oferecer a Cathy aquilo que Heathcliff, mantido como trabalhador na fazenda, não possui.

A jovem começa então a perceber que seus sentimentos e seu futuro apontam para caminhos diferentes. Ao lado de Heathcliff, ela preserva a liberdade construída durante a infância. Perto de Edgar, ganha acesso a uma vida considerada adequada para uma mulher de sua classe. A decisão envolve amor, patrimônio e sobrevivência social. Nesse universo, o coração pode até ter opinião, mas as propriedades rurais votam com mais peso.

Heathcliff acompanha a mudança sem possuir meios para disputar nas mesmas condições. Sua proximidade com Cathy depende da tolerância dos Earnshaw, enquanto Edgar tem sobrenome, dinheiro e aceitação. O rapaz registra cada humilhação e percebe que permanecer naquele lugar significa continuar submetido às escolhas dos outros. A separação nasce dessa desigualdade e prepara seu afastamento da propriedade.

O passado volta à porta

Quando a história avança alguns anos, James Howson assume Heathcliff e Kaya Scodelario passa a interpretar Cathy. Os atores preservam o vínculo criado por Solomon Glave e Shannon Beer, mas acrescentam o desgaste provocado pelo tempo. O afeto continua presente, embora agora precise conviver com compromissos, ressentimentos e antigas feridas.

Heathcliff retorna diferente do rapaz pobre que deixou Yorkshire. Ele possui recursos, veste-se melhor e já não aceita a condição inferior reservada a ele. Sua volta ameaça os acordos construídos durante sua ausência, sobretudo porque Cathy não apagou a ligação entre os dois. O antigo órfão deseja recuperar o que perdeu, mas carrega raiva suficiente para transformar essa tentativa em punição.

James Howson trabalha com silêncios, olhares e movimentos contidos. Seu Heathcliff parece guardar cada ofensa antes de escolher onde colocá-la. Kaya Scodelario apresenta uma Cathy dividida entre o sentimento que a acompanha desde menina e a vida social que decidiu preservar. Os dois compartilham uma proximidade incômoda, feita de desejo e crueldade. Arnold não tenta torná-los agradáveis. A diretora aceita que pessoas feridas também podem ferir bastante.

Um romance sem perfume

A adaptação concentra boa parte de sua duração na infância e na juventude de Heathcliff e Cathy. Essa escolha deixa de lado vários acontecimentos e personagens das etapas posteriores do livro, mas fortalece a compreensão da relação central. O espectador acompanha o nascimento daquele vínculo e percebe por que a distância provoca consequências tão severas.

O ritmo pode causar estranhamento. Andrea Arnold oferece poucos diálogos explicativos e prefere acompanhar gestos, esperas e deslocamentos. Algumas passagens se alongam além do necessário, principalmente quando os personagens chegam à fase adulta. Ainda assim, o silêncio combina com uma família na qual quase ninguém possui disposição para dizer o que sente antes que o estrago esteja feito.

“O Morro dos Ventos Uivantes” também derruba a imagem de romance delicado associada a certas adaptações literárias. O sentimento entre Cathy e Heathcliff possui força, mas está cercado por racismo, abuso e dependência financeira. Chamar essa relação apenas de amor seria ignorar tudo o que ela cobra dos envolvidos.

Andrea Arnold entrega uma versão difícil, sensível e pouco interessada em agradar quem busca vestidos impecáveis e declarações sob a luz de velas. Seu filme permanece próximo da terra, dos animais e dos corpos castigados pelo clima. Heathcliff regressa à propriedade querendo recuperar o espaço perdido, enquanto Cathy precisa enfrentar o preço das escolhas feitas durante sua ausência. A porta que um dia permitiu a entrada de um menino pobre passa a receber um homem disposto a cobrar cada dívida.


Filme: O Morro dos Ventos Uivantes
Diretor: Andrea Arnold
Ano: 2011
Gênero: Drama/Romance
Avaliação: 3.5/5 1 1
Fer Kalaoun

Fer Kalaoun é editora na Revista Bula e repórter especializada em jornalismo cultural, audiovisual e político desde 2014. Estudante de História no Instituto Federal de Goiás (IFG), traz uma perspectiva crítica e contextualizada aos seus textos. Já passou por grandes veículos de comunicação de Goiás, incluindo Rádio CBN, Jornal O Popular, Jornal Opção e Rádio Sagres, onde apresentou o quadro Cinemateca Sagres.

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