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Temos um problema com o passado. Ele chegou até nós sem cheiro. A afirmação parece exagerada até começarmos a fazer a lista. Sabemos como se vestiam os reis, onde dormiam, o tamanho de suas camas, que pratos comiam e em que porcelana eram servidos. Conservamos roupas, móveis, cartas, mechas de cabelo e outras relíquias cuja importância histórica às vezes parece inversamente proporcional ao bom senso de quem as guardou. A partir do fim do século 19, ganhamos fotografias; pouco depois, vozes e imagens em movimento. Só o nariz ficou do lado de fora.

Como cheirava uma sala em 1820? Uma biblioteca em 1750? O interior de um navio, um teatro, uma estação ferroviária quando locomotivas ainda queimavam carvão? Podemos reconstruir tudo isso visualmente com uma precisão quase obscena, até o botão da casaca e o desenho da cadeira, mas o mundo que aparece diante de nós é olfativamente estéril. Versalhes devia ter cheiro. Londres vitoriana também. Roma antiga, então, nem se fala.

O perfume que envelheceu

Um grupo internacional de pesquisadores acaba de dar um passo considerável para diminuir essa distância. Em estudo publicado em junho de 2026 na “npj Heritage Science”, Emma Paolin, Fabiana Di Gianvincenzo, Matija Strlič e colegas apresentaram um método para reproduzir cientificamente o cheiro de um objeto histórico. O caso escolhido foi um frasco de perfume do início do século 20. O objetivo, convém fazer logo a ressalva, não era descobrir como aquele perfume cheirava quando saiu da fábrica, nem recuperar a fórmula perdida de alguma Chanel esquecida. Era mais modesto e, de certo modo, mais interessante. Reproduzir com precisão o cheiro que o objeto histórico tem hoje.

O problema é que cheiro não obedece docilmente à química das quantidades. Uma substância presente em grande concentração pode ter pouca importância para aquilo que nosso nariz percebe, enquanto outra, presente em quantidade minúscula, domina a festa. Por isso os pesquisadores combinaram cromatografia gasosa e espectrometria de massas com detecção olfativa — em português não laboratorial, máquinas identificaram os compostos e narizes humanos ajudaram a decidir quais deles efetivamente cheiravam a alguma coisa importante. Foram selecionados 13 compostos considerados decisivos para o perfil olfativo do frasco. Depois veio a parte que transforma um trabalho técnico numa história excelente. Os cientistas fabricaram a reprodução e a colocaram diante de 70 pessoas, entre avaliadores treinados e gente comum. O resultado da análise estatística foi que não havia diferença significativa entre o odor do objeto original e o da cópia.

O museu além dos olhos

É difícil exagerar as implicações disso para os museus, instituições que durante séculos se comportaram como se a espécie humana fosse composta basicamente de olhos com pernas. Veja o vestido de Maria Antonieta, a espada, a cama do rei. Repare no manuscrito, na dentadura do escritor famoso. Não toque em nada e, por favor, mantenha uma distância civilizada da vitrine. Cheirar nunca fez parte do programa. Não por uma conspiração ocular, evidentemente. Cheiros são voláteis, degradam-se, misturam-se e mudam com o tempo; também não podem ser pendurados numa parede ao lado da ficha técnica. Mas essa dificuldade prática produziu um efeito cultural. Aprendemos a imaginar o passado principalmente com os sentidos que conseguimos arquivar.

Isso já começou a mudar antes mesmo desse estudo. O projeto europeu Odeuropa, financiado pela União Europeia, passou anos vasculhando textos e imagens dos séculos 17 ao 20 atrás de referências olfativas. Seu banco de dados foi construído com cerca de 167 mil textos históricos e 43 mil imagens em seis línguas. Há também uma Biblioteca de Cheiros do Patrimônio, que preserva reconstruções ou recriações de odores culturalmente importantes — couro curtido, mirra, o interior de um automóvel histórico usado pela rainha Elizabeth 2ª e, numa opção curatorial que merece respeito pela falta de covardia, o cheiro do inferno.

A brincadeira começa a ficar séria quando o cheiro deixa de funcionar como truque de parque temático e passa a ser tratado como documento histórico. Esse é o ponto mais interessante do novo trabalho. Parques de diversão vêm há décadas perfumando ambientes para impressionar visitantes. Aqui os pesquisadores partiram de um objeto real, identificaram os compostos responsáveis por sua assinatura olfativa, reconstruíram essa assinatura e testaram a reprodução diante de pessoas. O procedimento coloca o cheiro no terreno da conservação.

O que merece continuar cheirando?

Surge então uma questão esquisita, dessas que o avanço tecnológico produz com grande eficiência. O que merece ter o cheiro preservado? Certamente um perfume antigo. Talvez um livro ou a madeira de uma igreja. Mas e o couro de um automóvel, o interior de uma casa, uma fábrica, um porto, uma rua? E quem decide?

Cheiros também registram diferenças de classe e formas de trabalho, crenças, doenças, hábitos de higiene, comida e sexo. A Paris que os impressionistas pintaram não tinha apenas determinada luz; tinha cavalos nas ruas, fumaça de carvão, suor, esgoto e perfume. Eliminar tudo isso da reconstrução do passado é uma forma bastante eficiente de higienizá-lo.

Há ainda uma ironia bonita na pesquisa de Paolin e seus colegas. O que eles conseguiram reproduzir foi o envelhecimento do perfume. O cheiro reproduzido é o cheiro que décadas fizeram com aquele objeto — alterado pelas transformações químicas e pela passagem do tempo. Talvez seja uma definição melhor de patrimônio do que parece.

Revista Bula

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