Sarah, uma médica de fertilidade divorciada, vê a rotina com a filha de sete anos desmoronar após a chegada de um coelho branco. Lançado em 2023 e ambientado na Austrália, “Foge, Coelho” acompanha uma família assombrada por lembranças antigas, segredos nunca resolvidos e pelo comportamento inquietante de uma criança que afirma ter vivido outra vida. Dirigido por Daina Reid, o suspense transforma a relação entre mãe e filha em um terreno cada vez mais inseguro.
Sarah, interpretada por Sarah Snook, dedica os dias à medicina reprodutiva e à criação de Mia, vivida por Lily LaTorre. A menina está completando sete anos quando encontra um coelho branco no jardim e decide adotá-lo. O animal surge sem dono, sem aviso e com aquela inocência duvidosa que o cinema de terror adora atribuir a criaturas fofinhas.
Na noite do aniversário, Peter, papel de Damon Herriman, visita a filha acompanhado da nova companheira, Denise, interpretada por Naomi Rukavina, e do pequeno Toby. Uma briga entre as crianças provoca uma reação agressiva de Sarah. Peter acalma a discussão, mas o episódio revela o desgaste existente entre os adultos e a dificuldade da médica em aceitar qualquer ameaça à filha.
Mais tarde, Sarah tenta jogar o coelho para o outro lado do muro. O animal a morde, e Mia presencia a tentativa. A partir daquela noite, a confiança entre as duas começa a se romper. O ferimento na mão da mãe piora, enquanto a menina passa a tratar o visitante com uma afeição que parece misturar proteção, segredo e desafio.
A máscara muda a menina
Na manhã seguinte, Mia aparece usando uma máscara de coelho feita por ela mesma. A garota se recusa a tirá-la, permanece apática durante alguns períodos e reage de maneira estranha às perguntas da mãe. Na escola, esconde-se dentro de um tubo no parquinho e demonstra medo, embora negue sofrer perseguição dos colegas.
Sarah tenta descobrir o que aconteceu, mas Mia oferece poucas informações. Em vez de falar sobre a escola, a menina diz sentir falta da avó Joan, vivida por Greta Scacchi. O pedido causa estranhamento porque as duas jamais se conheceram. Sarah está afastada da mãe há anos e prefere manter essa parte da família longe da filha.
O comportamento de Mia ganha um aspecto ainda mais perturbador quando a escola solicita uma árvore genealógica. Ao procurar fotografias antigas, Sarah encontra uma imagem de sua infância ao lado da irmã mais nova, Alice. Mia observa a foto e afirma que também está ali. A declaração assusta a mãe, que encerra a conversa sem explicar quem era aquela criança.
Daina Reid trabalha a tensão por meio daquilo que Sarah se recusa a contar. Cada pergunta de Mia abre uma pequena rachadura na versão familiar mantida pela médica. A menina conhece nomes que ninguém lhe ensinou, pede para visitar lugares que nunca frequentou e reproduz lembranças que, em tese, pertencem a outra pessoa.
A avó chama outro nome
Pressionada pela filha, Sarah aceita levá-la ao lar de idosos onde Joan vive. A visita deveria satisfazer a curiosidade da menina, mas produz o efeito contrário. Joan sofre de demência e, ao olhar para a neta, chama-a de Alice. Mia reage intensamente ao nome, enquanto Sarah interrompe o encontro e retira a criança do local.
A situação deixa de parecer uma simples fase infantil. Mia passa a insistir que é Alice e acusa Sarah de ter sido cruel com ela durante a infância. Paralelamente, desenhos perturbadores aparecem no verso das tarefas escolares e em diferentes trabalhos guardados na casa. A médica procura uma explicação racional, porém suas próprias lembranças começam a interferir no presente.
Peter tenta ajudar, mas acompanha apenas parte do que acontece. Para ele, a ex-mulher precisa conversar com a filha e esclarecer a história da família. Sarah prefere controlar o assunto, embora seus pesadelos, alucinações e lapsos tornem essa tarefa cada vez mais difícil. A mulher acostumada a lidar profissionalmente com nascimento e morte perde segurança diante de uma menina que fala com absoluta convicção.
O passado mora no campo
Sarah decide levar Mia à antiga propriedade da família. Na casa rural, conta que Alice era sua irmã e desapareceu aos sete anos. A revelação deveria encerrar as perguntas, mas oferece à garota novos elementos para sustentar aquilo que vinha dizendo. Mia mantém a afirmação de que é Alice e atribui à mãe lembranças dolorosas que Sarah prefere negar.
O roteiro de Hannah Kent aproxima terror psicológico, drama familiar e mistério sem depender de grandes sustos. O medo nasce dos retratos quebrados, dos desenhos escondidos, da máscara infantil e da paisagem rural cercada por um penhasco. O lugar preserva vestígios da infância de Sarah, mas também ameaça sua capacidade de distinguir recordação, culpa e alucinação.
Sarah Snook interpreta a médica sem tentar torná-la simpática o tempo inteiro. Sua personagem ama a filha, mas reage com impaciência, agressividade e desespero quando perde o controle. A atuação ganha força porque Sarah permanece humana mesmo em seus piores gestos. Ela pode acolher Mia em uma cena e assustá-la pouco depois, movimento que deixa a convivência doméstica mais tensa do que qualquer aparição.
Lily LaTorre oferece a Mia uma presença silenciosa e bastante segura. A atriz não exagera nas expressões nem transforma a criança em uma caricatura demoníaca. Mia alterna fragilidade e hostilidade, deixando a dúvida sobre quanto sabe e de onde vieram suas lembranças. Greta Scacchi também aproveita bem o pouco tempo em cena. Joan fala de maneira fragmentada, mas uma única palavra dita por ela muda o rumo da visita.
Uma culpa sem descanso
“Foge, Coelho” possui uma premissa interessante e boas atuações, embora siga caminhos conhecidos do terror sobre maternidade e traumas familiares. A máscara, os desenhos infantis, a casa isolada e a criança de comportamento enigmático remetem a diversos títulos recentes do gênero. A familiaridade diminui algumas surpresas e permite antecipar parte das revelações.
O coelho branco, apresentado com destaque, também perde importância conforme a história avança. Sua presença inaugura a mudança de Mia e provoca o primeiro atrito grave entre mãe e filha, mas o roteiro abandona parte do mistério ligado ao animal. Quem esperar uma criatura ameaçadora poderá se decepcionar. O verdadeiro perigo está na história que Sarah guardou durante muitos anos.
Daina Reid mantém o público preso à percepção da protagonista. Sonhos e lembranças surgem de maneira fragmentada, dificultando a separação entre o que ocorreu e aquilo que Sarah imagina. Em alguns trechos, essa repetição torna o ritmo lento. Em outros, reforça a sensação de que a médica já não possui domínio sobre a própria casa, a filha ou o passado.
“Foge, Coelho” é um drama familiar incômodo e bem interpretado. A relação entre Sarah e Mia sustenta o filme porque envolve amor, medo, ressentimento e uma disputa dolorosa pela verdade. Quando a menina passa a falar em nome de Alice, Sarah precisa decidir até onde continuará protegendo o segredo que separou sua família. A partir desse ponto, cada tentativa de silenciar a filha torna a antiga história mais presente.

