Em 1957, na cidade de Nova York, o detetive Lionel Essrog (Edward Norton) investiga a morte de seu mentor e descobre uma disputa política capaz de expulsar famílias inteiras de seus bairros. Ambientado entre Brooklyn, Harlem e os gabinetes de Manhattan, “Brooklyn: Sem Pai Nem Mãe” transforma um crime pessoal numa investigação sobre poder, moradia e os homens autorizados a decidir quem merece permanecer no mapa.
Lionel trabalha numa pequena agência de detetives fundada por Frank Minna (Bruce Willis). Ainda na infância, ele e outros três meninos foram retirados de um orfanato pelo futuro chefe, que lhes ofereceu trabalho, proteção e certo sentimento de família. Lionel cresceu sob os cuidados desse homem e se tornou um investigador atento, dono de uma memória extraordinária. Sua síndrome de Tourette provoca movimentos e palavras involuntárias, mas também convive com uma mente capaz de guardar nomes, números e frases que os demais esquecem.
Um crime muda a rotina
Frank passa a trabalhar secretamente em um caso que nem seus funcionários conhecem por inteiro. Durante uma operação, pede que Lionel o acompanhe à distância e escute uma conversa pelo telefone. O detetive ouve fragmentos de uma cobrança envolvendo documentos comprometedores, dinheiro e homens pouco dispostos a conversar. A situação sai do controle, Frank é baleado e morre antes de revelar quem havia contratado a agência.
A perda desmonta a rotina do escritório. Tony Vermonte (Bobby Cannavale), um dos antigos garotos acolhidos por Frank, assume o comando e prefere proteger os negócios que ainda restam. Lionel segue em outra direção. Movido pela gratidão e pela necessidade de saber por que seu mentor foi morto, ele examina os pertences deixados pelo chefe e começa a reconstruir seus últimos passos.
As pistas são poucas e parecem pertencer a histórias diferentes. Um cartão, alguns nomes e trechos de conversas levam Lionel para longe da agência. Sua investigação passa por ruas pouco acolhedoras, escritórios protegidos e um clube de jazz no Harlem. Cada visita oferece uma pequena informação, mas também informa aos criminosos que alguém continua interessado no trabalho de Frank.
O caminho chega ao Harlem
No clube, Lionel conhece Laura Rose (Gugu Mbatha-Raw), advogada que auxilia moradores ameaçados por projetos de renovação urbana. Ela participa de reuniões contra despejos e tenta defender comunidades que podem perder suas casas para a construção de estradas e novos empreendimentos. Laura inicialmente desconfia daquele detetive de sobretudo, chapéu e perguntas demais. A prudência faz sentido, pois os interesses envolvidos alcançam empresários, funcionários públicos e pessoas capazes de vigiar seus movimentos.
Lionel percebe que a morte de Frank pode estar ligada à remoção de famílias pobres, muitas delas negras, de áreas desejadas pelo mercado imobiliário. O mistério deixa de caber numa única sala. Os documentos procurados pelo mentor podem revelar quem autoriza as demolições, quem recebe os terrenos e quais autoridades encobrem os acordos.
Laura torna-se uma peça importante nessa busca, embora não ocupe o papel previsível da mulher que apenas acompanha o herói. Ela possui informações próprias, conhece os moradores atingidos e tem motivos pessoais para desconfiar dos responsáveis pelas obras. Gugu Mbatha-Raw interpreta a personagem com firmeza e delicadeza, sem transformá-la numa figura decorativa dentro de um universo dominado por homens.
Um homem manda na cidade
As pistas aproximam Lionel de Moses Randolph (Alec Baldwin), poderoso funcionário público que controla projetos de urbanização em Nova York. Embora não tenha sido eleito pela população, Randolph acumulou influência suficiente para decidir onde serão construídas pontes, parques e rodovias. Ele trata bairros inteiros como espaços disponíveis para seus planos, mesmo quando milhares de pessoas moram neles.
Alec Baldwin dá ao personagem uma arrogância polida. Randolph não precisa levantar a voz para intimidar ninguém. Seu gabinete, seus assistentes e seus contatos já comunicam o tamanho de sua autoridade. Quando Lionel entra nesse ambiente, surge como um intruso com pouca proteção e nenhuma garantia de que sairá dali com informações úteis.
O detetive precisa esconder parte do que sabe enquanto tenta descobrir quanto Randolph conhece sobre Frank. Essa cautela sustenta algumas das melhores passagens de “Brooklyn: Sem Pai Nem Mãe”. Lionel costuma ser subestimado por sua condição, pelo jeito atrapalhado de falar e pela aparência pouco ameaçadora. O erro dos adversários está em ignorar sua memória. Ele guarda cada frase e retorna a ela quando uma nova pista modifica o sentido da conversa anterior.
Um investigador fora do padrão
Edward Norton dirige, escreve o roteiro e interpreta Lionel. Sua atuação exige cuidado porque a síndrome de Tourette poderia virar caricatura. Em alguns trechos, os tiques recebem destaque excessivo e ameaçam desviar a atenção do caso. Ainda assim, Norton preserva a humanidade do personagem. Lionel sente vergonha, irritação, medo e afeto, mas segue trabalhando mesmo quando o próprio corpo interrompe suas perguntas.
Há certa graça nas tentativas de Lionel de atravessar uma conversa sem dizer algo involuntário. As reações constrangidas de quem está por perto rendem instantes leves, embora a produção nunca abandone o tom criminal. O personagem também usa música e pequenos rituais para concentrar o pensamento. Essas pausas revelam sua intimidade e dão algum descanso a uma trama carregada de nomes, ligações políticas e documentos desaparecidos.
Bruce Willis participa pouco, mas oferece a Frank Minna a presença necessária para explicar a lealdade de Lionel. Mesmo ausente durante grande parte da história, o mentor permanece vivo nas roupas usadas pelo detetive, nas lembranças do orfanato e nas perguntas deixadas sem solução. Bobby Cannavale trabalha num registro mais ambíguo como Tony, colega interessado em manter a agência aberta, ainda que isso exija silêncio sobre assuntos perigosos.
Uma investigação longa e ambiciosa
“Brooklyn: Sem Pai Nem Mãe” recupera elementos conhecidos do cinema noir. Estão presentes o investigador solitário, as ruas escuras, os carros antigos, os telefonemas incompletos e os homens influentes que preferem resolver problemas longe dos tribunais. A música de jazz acompanha boa parte da busca e combina com a mente inquieta de Lionel, que junta informações em ritmos nem sempre previsíveis.
A duração superior a duas horas pode cansar. Edward Norton inclui muitos personagens, interesses políticos e ramificações familiares, o que exige atenção constante. Alguns diálogos poderiam ser menores, e certos desvios atrasam a investigação mais do que deveriam. Ainda assim, o enredo preserva a curiosidade porque cada descoberta aproxima o crime particular de uma disputa maior por moradia e controle urbano.
A mudança da história para os anos 1950 também fortalece esse cenário. O romance de Jonathan Lethem que deu origem ao longa se passa em outro período, mas Norton escolheu uma Nova York marcada por grandes obras e remoções. Essa decisão oferece peso concreto ao poder de Randolph. Ele não ameaça apenas Lionel ou Laura. Suas ordens alcançam prédios, ruas e famílias que raramente entram nos gabinetes onde o futuro delas é decidido.
Sem depender apenas da pergunta sobre quem matou Frank, “Brooklyn: Sem Pai Nem Mãe” acompanha um homem desacreditado tentando concluir o trabalho de quem lhe deu abrigo. Lionel avança porque se lembra do que os poderosos gostariam de apagar. Seu sobretudo pode ficar grande, suas palavras podem escapar sem permissão e sua investigação pode tomar caminhos demorados. Nada disso o impede de bater à porta seguinte, fazer outra pergunta e manter os documentos longe das mãos interessadas em fazê-los desaparecer.

