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Cora Coralina nasceu há exatos 137 anos, em 20 de agosto de 1889, e viveu até os 95. Quando publicou seu primeiro livro, “Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais”, em 1965, tinha 75. Onze anos depois viria o segundo. A fama nacional, aquela que faz um escritor ultrapassar o cercadinho dos leitores habituais de literatura e virar personagem do país, só chegou quando ela já passava dos 90. É uma cronologia esquisita até para os padrões da literatura.

A versão preguiçosa dessa história já está pronta. Cora teria provado que nunca é tarde, que basta perseverar e outras coisas do gênero. O problema é que ela começou cedo demais para servir de exemplo.

Quando aquele primeiro livro saiu pela José Olympio, a autora tinha uma relação com a literatura mais velha do que muita carreira literária inteira. Participara ainda moça da vida intelectual da antiga Vila Boa, escrevera em jornais e tivera “Tragédia na Roça” incluída num anuário goiano de 1910. Escrevia antes dos 21 anos. Quando se tornou oficialmente uma estreante septuagenária, portanto, era uma estreante com mais de meio século de estrada.

Entre uma coisa e outra houve praticamente uma vida inteira. Em 1911, Cora deixou Goiás grávida, ao lado de Cantídio Tolentino de Figueiredo Bretas, separado de fato da primeira mulher numa época em que o divórcio nem existia no Brasil. Viveu 45 anos fora do Estado. Teve seis filhos, perdeu dois ainda bebês, ficou viúva, atravessou dificuldades financeiras. Depois da morte de Cantídio, em 1934, chegou a vender de porta em porta, em São Paulo, livros da José Olympio.

Décadas antes de ser publicada pela editora, Cora carregava os livros dos outros pelas ruas para ganhar a vida. Quando voltou sozinha à Cidade de Goiás, em 1956, tinha 66 anos. Em termos de carreira literária, quase tudo ainda estava por acontecer.

Ela se instalou de novo na Casa Velha da Ponte, às margens do Rio Vermelho, organizou escritos, voltou a publicar na imprensa e fez doces para viver. A imagem viria a colar nela de tal modo que é difícil hoje pensar em Cora sem visualizar a velhinha de cabelos brancos entre tachos de cobre e versos, uma espécie de vovó nacional da poesia. Imagem bonita, sem dúvida. E meio traiçoeira.

Porque os doces eram trabalho antes de virarem folclore. Davam dinheiro. E aquela senhorinha que um dia seria transformada em monumento goiano tinha uma história um pouco mais acidentada do que sugerem as embalagens de doce cristalizado. Havia desafiado convenções familiares, saído da cidade em circunstâncias escandalosas e sobrevivido num país em que as possibilidades abertas a uma mulher de sua geração eram, digamos, discretas.

Drummond no meio do caminho

“Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais” saiu finalmente em 1965. Seu segundo livro, “Meu Livro de Cordel”, só apareceria em 1976. Mais significativo ainda, foram necessários treze anos para que “Poemas dos Becos…” ganhasse nova edição, em 1978, pela Imprensa da Universidade Federal de Goiás. A UFG voltou a publicá-lo em 1980.

Carlos Drummond de Andrade só entra nessa história muito depois do primeiro livro.

A versão consagrada tem a simplicidade agradável das lendas. A doceira desconhecida lá de Goiás publica seus versos, Drummond descobre aquela voz extraordinária e o Brasil enfim desperta. Ocorreu mais ou menos isso — com quinze anos de atraso e uma universidade no meio.

A correspondência entre os dois começou em 1979. Em dezembro de 1980, Drummond publicou no “Jornal do Brasil” o texto que projetaria Cora numa dimensão incomparavelmente maior. Naquele momento, uma coluna sua num jornal de circulação nacional podia fazer por um escritor desconhecido o que campanhas inteiras de divulgação não faziam.

Tinha 91 anos a mulher sobre quem ele chamou a atenção do país. Cora passou então a receber homenagens, leitores. “Vintém de Cobre — Meias Confissões de Aninha” saiu em 1983. No mesmo ano, a Universidade Federal de Goiás lhe concedeu o título de Doutora Honoris Causa. Vieram prêmios, o Juca Pato.

A idade também cobrava a parte dela. Uma queda lhe fraturara o fêmur e Cora usava muleta. Fotografias e objetos preservaram sinais menos fotogênicos daquela velhice que depois seria tão cuidadosamente incorporada à personagem pública. O corpo reduzia seus movimentos justamente quando a carreira ganhava velocidade.

O atraso produziu uma situação rara. Cora conheceu na velhice aquilo que quase todos os escritores desejam conhecer jovens, a circulação crescente dos livros, o reconhecimento dos pares.

Sua literatura, por sinal, parecia à vontade com a idade da autora. “Vintém de Cobre”, sobretudo, mostra como Cora fazia da distância temporal um instrumento. A menina Aninha, os becos, o Rio Vermelho, a Casa Velha. Claro que a menina Aninha que aparece ali não vem intacta de uma infância vivida quase um século antes. É a infância lembrada por uma mulher de noventa anos, com tudo o que a memória esquece, ajeita e às vezes inventa sem pedir licença. O próprio subtítulo de “Vintém de Cobre” parece avisar o leitor. São “Meias Confissões de Aninha”. Meias. Melhor assim.

Isso não faz de cada poema uma maravilha. Alguns se estendem mais do que deveriam; em outros, o verso quase vira prosa e certas soluções voltam com frequência suficiente para cansar. Nada de grave. O problema começa quando a admiração por Cora se transforma em obrigação de gostar de tudo o que ela escreveu.

A santificação, felizmente, não dá conta dela. Cora sabia olhar para o fundo dos becos, para a gente que ficava fora da fotografia oficial. E fazia isso sem aquela solenidade com que escritores às vezes anunciam que chegaram para dar voz a quem não tem voz. As pessoas já tinham voz. Ela tinha ouvido.

Quando morreu, em 10 de abril de 1985, aos 95 anos, não haviam se passado sequer vinte anos desde a publicação do primeiro livro. Hoje é difícil lembrar disso. Cora Coralina parece uma autora que sempre esteve ali, na Casa Velha da Ponte, fazendo doces, escrevendo e ocupando o lugar que ocupa na literatura brasileira. Mas não foi assim. Escreveu desde moça, publicou o primeiro livro aos 75 e só se tornou conhecida nacionalmente depois dos 90.

O reconhecimento que hoje parece inseparável de seu nome ocupou, na verdade, uma parte muito pequena de sua vida.

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