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Há uma hora da noite em que escolher a música deixa de ser uma decisão inocente. De tarde, quase tudo serve. Pode-se trabalhar ouvindo jazz, cozinhar com João Gilberto, dirigir ao som de Nick Cave e até cometer a barbaridade contemporânea de pôr Leonard Cohen como música ambiente. À noite a coisa complica. Certos discos exigem que a conversa diminua, a luz baixe um pouco e ninguém tenha a péssima ideia de perguntar que horas são. O vinho entra aí.

Não como “harmonização”, palavra respeitável quando há um robalo sobre a mesa, mas um tanto suspeita diante de Miles Davis. Ninguém em pleno juízo deveria tentar descobrir que uva combina com um solo de John Coltrane ou se a acidez de um Riesling conversa melhor com o piano de Bill Evans.

Mesmo assim, música e vinho mantêm relações antigas com um vocabulário estranhamente parecido. Os dois podem ter corpo, textura, equilíbrio. Podem ser jovens demais ou envelhecer bem. Há vinhos espalhafatosos e discos que entram numa sala berrando. Outros precisam de algum tempo. Existem os que impressionam no primeiro minuto e cansam no décimo. Existem aqueles cuja grandeza só começa a aparecer quando já não estamos prestando tanta atenção nela. E há, claro, os ruins.

A ideia foi montar uma noite inteira. Começamos às oito com “Kind of Blue” e uma garrafa de Bollinger, ainda num horário em que champagne parece sinal de elegância e não de descontrole financeiro. Depois vêm João Gilberto, Chet Baker, Portishead, Nick Cave, Leonard Cohen e Bill Evans, acompanhados por garrafas de Portugal, França, Líbano, Espanha e Alemanha. À medida que as horas avançam, os discos escurecem, os vinhos mudam e certas decisões passam a parecer melhores do que provavelmente são.

As sete combinações não obedecem a nenhuma ciência. Melhor assim. Algumas nascem de semelhanças bastante claras, outras de contrastes. Uma ou outra talvez tenha começado apenas com aquela sensação difícil de defender segundo a qual duas coisas, quando colocadas lado a lado, passam a parecer inevitáveis. É pouco? Para uma boa noite, costuma bastar.

Quer que eu faça o mesmo nos sete textos?

01 20h
Bollinger Special Cuvée
PARA OUVIR
Miles Davis

Kind of Blue

PARA BEBER

Bollinger Special Cuvée

Champagne · França · NV

É difícil tornar “Kind of Blue” ainda mais elegante sem estragá-lo. O disco de 1959 já chega à sala com uma vantagem quase injusta: Miles Davis, John Coltrane, Cannonball Adderley, Bill Evans, Wynton Kelly, Paul Chambers e Jimmy Cobb tocando como se nenhum deles tivesse a menor necessidade de demonstrar que sabia tocar. O virtuosismo está todo ali. Só não fica fazendo flexão de braço na frente do espelho.

Essa é a razão para Bollinger Special Cuvée, e não simplesmente porque champagne e jazz formam um casal socialmente apresentável. A casa faz um champagne de estrutura pouco tímida, dominado pelo Pinot Noir e apoiado numa grande reserva de vinhos de safras anteriores. Há força, mas ela aparece disciplinada. Nada explode por falta de assunto.

“Kind of Blue” opera de modo semelhante. O espaço deixado entre uma frase e outra importa quase tanto quanto as notas; os músicos parecem conhecer o valor exato de parar. É um disco que muita gente põe para relaxar, o que chega a ser engraçado diante da concentração monstruosa necessária para produzir tamanha naturalidade.

Sirva o Bollinger frio, mas não congelado, e deixe “So What” começar antes do primeiro gole. Se em algum momento a combinação parecer sofisticada demais, espere. Miles cuida de tirar a gravata.

02 21h30
Soalheiro Primeiras Vinhas 2024
PARA OUVIR
João Gilberto

Amoroso

PARA BEBER

Soalheiro Primeiras Vinhas 2024

Alvarinho · Monção e Melgaço · Portugal

João Gilberto passou boa parte da vida provando que baixo volume não é pouca coisa. “Amoroso”, de 1977, complica essa história de propósito. A voz e o violão continuam trabalhando naquele regime de precisão quase doméstica que João inventou, mas ao redor deles Claus Ogerman põe cordas, sopros e uma orquestra inteira. Em mãos menos seguras seria uma enchente. Aqui, estranhamente, sobra espaço.

O Soalheiro Primeiras Vinhas 2024 vem de Alvarinho de vinhas velhas de Monção e Melgaço; a primeira parcela que deu nome ao vinho foi plantada em 1974. É um branco com corpo suficiente para não desaparecer e acidez suficiente para nunca pesar. Parece uma descrição enológica. Talvez seja também uma boa descrição de João.

A aproximação não deve ser levada longe demais, sob pena de entrarmos naquele território em que qualquer mineralidade vira acorde e qualquer nota cítrica ganha parentesco com um instrumento de sopro. Melhor ficar no essencial. Tanto o disco quanto o vinho dependem de contenção técnica para parecer simples.

É uma simplicidade cara, no sentido de trabalho, não necessariamente de dinheiro. Quem já tentou tocar “Desafinado” como João sabe do tamanho da piada. Quem pensa que Alvarinho é apenas um branco ligeiro também pode se surpreender.

Às nove e meia da noite ainda há tempo para esse tipo de ilusão: a de que fazer menos é fácil.

03 23h
Louis Jadot Bourgogne Pinot Noir
PARA OUVIR
Chet Baker

Chet Baker Sings

PARA BEBER

Louis Jadot Bourgogne Pinot Noir

Pinot Noir · Bourgogne · França

Chet Baker não deveria cantar tão bem. Sua voz é pequena, estreita, quase sem musculatura, e qualquer professor de técnica vocal encontraria serviço para uma temporada inteira. O problema é que “Chet Baker Sings” continua funcionando depois que todas essas objeções corretas terminam. Talvez funcione justamente porque a voz parece não ter onde se esconder.

Por isso um Bourgogne Pinot Noir da Louis Jadot, e não um grand cru carregado de solenidade. Seria fácil transformar esta lista numa competição de rótulos caros, mas Chet não pede ostentação. O Pinot Noir regional da casa é feito para preservar fruta e frescor, e há alguma coisa de apropriado numa garrafa que não tenta fingir ser Romanée-Conti ao lado de um cantor que nunca tentou fingir ser Frank Sinatra.

A trombeta é outra história. Ali, Baker tinha autoridade de sobra. O contraste entre o instrumentista seguro e o cantor vulnerável dá ao disco boa parte de seu encanto, como se o mesmo homem aparecesse duas vezes, uma delas sem armadura.

Às onze da noite, essa vulnerabilidade começa a fazer sentido. Não é ainda a parte escura da madrugada, mas a conversa já diminuiu de volume e certas músicas que às quatro da tarde soariam sentimentais encontram finalmente seu horário.

O vinho não precisa interpretar o disco. Basta não atrapalhar.

04 0h30
Château Musar Red 2019
PARA OUVIR
Portishead

Dummy

PARA BEBER

Château Musar Red 2019

Cabernet Sauvignon, Cinsault e Carignan · Líbano

À meia-noite e meia, a noite perdeu a obrigação de ser elegante. Entra “Dummy”.

Quando o Portishead lançou o disco em 1994, havia ali uma mistura difícil de separar: hip-hop desacelerado, soul fantasmagórico, ruído de vinil, cinema de espionagem, eletrônica e a voz de Beth Gibbons parecendo chegar de um quarto onde alguma coisa desagradável acabou de acontecer. A produção não limpa as marcas do processo. Ao contrário, faz delas parte da atmosfera.

Château Musar é uma companhia adequada porque tampouco nasceu para a assepsia. O tinto libanês, feito de Cabernet Sauvignon, Cinsault e Carignan, leva sete anos entre a colheita e o lançamento. A casa trabalha deliberadamente com uma ideia de vinho vivo, pouco domesticado, em que o tempo não serve para apagar as irregularidades, mas para integrá-las.

Aqui a palavra “imperfeição” precisa de cuidado. Não estamos elogiando defeito em nome de uma pose cult. O interesse está no contrário: na capacidade de fazer uma linguagem surgir daquilo que, em outro contexto, seria ruído.

“Dummy” sem seus chiados, ecos e sombras seria provavelmente um disco pior. Musar sem suas arestas perderia a graça e talvez parte da identidade.

Depois da meia-noite, limpeza excessiva começa mesmo a parecer suspeita.

05 2h
Viña Ardanza Reserva 2020
PARA OUVIR
Nick Cave & The Bad Seeds

The Boatman’s Call

PARA BEBER

Viña Ardanza Reserva 2020

Tempranillo e Garnacha · Rioja · Espanha

Nick Cave já tinha feito barulho suficiente quando chegou a “The Boatman’s Call”, em 1997. No disco anterior, “Murder Ballads”, havia cadáveres, facas, tiros e Kylie Minogue morta à beira de um rio — uma maneira razoavelmente discreta, para os padrões de Cave, de tratar relações amorosas. Então ele sentou ao piano.

O resultado é um disco de canções lentas, religiosas, amorosas e muitas vezes dolorosamente diretas. O teatro não desaparece, porque Cave sem teatro seria como uma igreja sem eco, mas recua. De repente ouvimos o homem respirando atrás do personagem.

Viña Ardanza Reserva 2020 tem 80% de Tempranillo e 20% de Garnacha, combinação que passa por longa criação antes de chegar à garrafa. É Rioja de linhagem clássica, com madeira presente, mas sem a caricatura daquele tinto antigo que parece ter sido criado dentro de uma cômoda.

A relação com Cave está nessa maturidade que não exige sisudez. Aos dois da manhã já não precisamos que o vinho grite “vinho importante” nem que o cantor convoque o apocalipse a cada refrão. Há horas em que baixar o tom é aumentar a pressão.

“The Boatman’s Call” faz isso. Viña Ardanza também.

Quem estiver esperando uma explosão pode ir dormir. A noite já ficou melhor do que isso.

06 3h30
Niepoort 20 Years Old Tawny
PARA OUVIR
Leonard Cohen

You Want It Darker

PARA BEBER

Niepoort 20 Years Old Tawny

Porto Tawny · Douro · Portugal

Leonard Cohen tinha 82 anos quando lançou “You Want It Darker”, em 2016, poucas semanas antes de morrer. Seria uma tentação enorme ouvir o disco como testamento e encerrar o assunto. O próprio título parece colaborar. A voz está ainda mais grave, a morte circula pelos versos, referências religiosas reaparecem sem nenhuma preocupação de parecer discretas.

Mas Cohen nunca foi muito dado à autopiedade. Mesmo aqui há secura, inteligência e aquela distância irônica mínima que impede a solenidade de tomar conta do quarto. Um velho fala da morte sem precisar fingir que descobriu a morte.

Niepoort 20 Years Old Tawny entra por razões parecidas. O tempo num Tawny não age como simples desgaste. Oxidação, madeira e mistura de vinhos de diferentes idades transformam fruta fresca em outra coisa: frutos secos, especiarias, casca, concentração. O vinho não tenta preservar artificialmente a juventude. Seria ridículo.

Cohen também não.

Às três e meia da manhã essa constatação é mais confortável do que parece. Há uma espécie de vulgaridade contemporânea na obrigação de continuar jovem, frutado, vibrante, cheio de energia, como se o mundo fosse uma academia aberta vinte e quatro horas.

O Porto e Cohen recusam a matrícula.

07 5h
Dr. Loosen Erdener Treppchen Riesling Kabinett 2024
PARA OUVIR
Bill Evans Trio

Waltz for Debby

PARA BEBER

Dr. Loosen Erdener Treppchen Riesling Kabinett 2024

Riesling · Mosel · Alemanha

“Waltz for Debby” foi gravado ao vivo pelo trio de Bill Evans no Village Vanguard, em 1961. Ouvem-se a sala, o público, pequenos ruídos de uma noite comum. Nada ali anuncia que aquelas gravações se tornariam parte de um dos documentos mais celebrados da história do jazz, muito menos que o baixista Scott LaFaro morreria poucos dias depois, aos 25 anos.

Hoje é impossível não ouvir alguma coisa disso no disco, embora seja uma informação que veio depois e, portanto, uma espécie de trapaça sentimental do futuro. Melhor não abusar.

O que está realmente na música é leveza. Evans, LaFaro e Paul Motian tocam como três pessoas conversando ao mesmo tempo sem que nenhuma precise mandar as outras calarem a boca. O baixo de LaFaro deixa de cumprir apenas sua função tradicional e ganha uma liberdade quase melódica; a bateria de Motian sugere mais do que marca; Evans encontra espaço no meio dessa circulação.

Às cinco da manhã, Dr. Loosen Erdener Treppchen Riesling Kabinett 2024 é uma saída civilizada. Tem apenas 8% de álcool, doçura moderada, acidez viva e a mineralidade associada ao solo de ardósia vermelha daquele trecho íngreme do Mosel. Depois de tintos, Porto, conversa e excesso, chega à taça quase como uma redução de gravidade.

Não é café.

Mas a essa altura ninguém prometeu bom senso.

Revista Bula

A Revista Bula é uma plataforma digital brasileira fundada em 1999, que atua como revista e também como editora de livros. Com foco em literatura, cultura, comportamento e temas contemporâneos, adota uma linha editorial autoral, com ênfase em textos opinativos e ensaísticos. Seu conteúdo é amplamente difundido por meio das redes sociais e alcança milhões de leitores por mês, consolidando-se como uma das referências em jornalismo cultural no ambiente digital. Além da produção de conteúdo editorial, a Bula mantém uma linha de publicações próprias, com títulos de ficção e não ficção distribuídos em formato digital e impresso.

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