A indústria cultural tem o maravilhoso dom de transformar tudo em espetáculo. Sofrimento, alegria, doenças e até — ou principalmente — a morte viram produtos embalados em narrativas sedutoras, prontinhas para o consumo. O que era singular e humano, demasiado humano, passa a ser repetido, editado e distribuído sob a forma de entretenimento. Realidades complexas tornam-se fórmulas, e dramas são traduzidos em roteiros de digestão instantânea. Howard Spence conhece bem esse jogo. Ganhou dinheiro, fez sucesso, frequentou as altas rodas, namorou belas mulheres e agora… não aguenta mais isso e decide reaver sua vida, a sua própria vida, nada de personagens. Howard encarna como poucos a estrela solitária do título desse filme, outra grande contribuição de Wim Wenders ao cinema. Wenders dá cara nova ao faroeste, mirando o anticaubói, uma figura ridícula, farsesca, irreal, deslocada num mundo de que nunca fez parte. O busílis é que, lá fora, a vida seguiu. Sem ele.
O caubói cai do cavalo
Retrato mais fiel de nossas misérias, os losers, os fracassados, alvo da execração pública da América do green power, o poder tirânico das verdinhas, tem um lugar cativo junto ao público. O diretor brinca com os clichês de um de seus gêneros favoritos, cercando o protagonista de uma atmosfera feita de molestos paradoxos. Howard, um veterano do western, dá-se conta de que precisa encarar a vida como ela é e fuçar em seu baú de ossos, atrás de si mesmo. Ele está no meio de uma filmagem, mas joga tudo para o alto e, feito se ouvisse o chamado de sua própria natureza, vai visitar a mãe. Wenders crava aqui o eixo da história, quando Howard descobre que seu romance de uma noite com Doreen, uma garçonete de Elko, Nevada, resultou num filho. Esta parecia ser a tábua de salvação ideal para um sujeito tipicamente schopenhaueriano, com mil inclinações para a autossabotagem, mas ninguém leva a sério seu olhar pesaroso. Wenders e o corroteirista Sam Shepard (1943-2017) têm o condão de achar na personalidade egocêntrica de Howard pequenos laivos de um arrependimento genuíno, recurso de que extraem um larguíssimo rol de possibilidades. Não por acaso Shepard assume o papel ele mesmo, reforçando o cinismo autopiedoso de seu anti-herói enquanto Jessica Lange e Gabriel Mann tratam de expor a perigosa inconstância desse homenzinho patético, mas só depois de terem suas próprias cenas, todas impecáveis. Abaixo de “Dias Perfeitos” (2024), “Estrela Solitária” talvez seja o trabalho mais sublime de
Wim Wenders, um antiépico onde os fracos não têm vez.

