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Há um certo aparato litúrgico em torno do vinho que sugere a existência de uma verdade escondida dentro da garrafa, à espera do nariz e da língua suficientemente treinados para encontrá-la. Cor, aroma, corpo, equilíbrio. O especialista gira a taça, enfia educadamente o nariz lá dentro, prova, pensa e emite seu parecer. Pois pesquisadores da Universidade de Oxford resolveram introduzir um elemento potencialmente perturbador nessa cerimônia — música.

Funcionou.

Em dois experimentos conduzidos por Qian Janice Wang e Charles Spence, do Laboratório de Pesquisa Crossmodal do Departamento de Psicologia Experimental de Oxford, 154 degustadores experientes provaram vinhos enquanto ouviam diferentes trilhas sonoras. Nada de turma reunida na porta do supermercado em troca de uma tacinha grátis. Dos participantes, 138 trabalhavam profissionalmente no setor e o grupo acumulava, em média, 18,1 anos de experiência com degustação.

Um Chardonnay não é só um Chardonnay

Num dos testes, os participantes beberam dois vinhos brancos ingleses enquanto ouviam uma trilha construída para evocar doçura e outra concebida para sugerir acidez.

A música não transformou açúcar em ácido nem operou milagre químico algum dentro das taças, claro. O que mudou foi a experiência sensorial. O vinho mais doce foi considerado significativamente mais doce quando degustado ao som da trilha “doce”. Os participantes também gostaram mais dos vinhos enquanto ouviam essa música do que diante da trilha “ácida”.

O segundo teste complicou a brincadeira. Dois Chardonnays canadenses foram provados ao som de composições abstratas diferentes, uma mais seca e pontilhada, em “staccato”, outra mais fluida, em “legato”. Dessa vez, os pesquisadores perguntaram por características caras ao vocabulário dos enófilos — corpo, equilíbrio e persistência.

Sob a música em “staccato”, os vinhos foram considerados mais encorpados, mais equilibrados e de final mais longo. Todos os efeitos foram estatisticamente significativos.

Nem o especialista escapa

Seria confortável imaginar que esse tipo de influência funciona apenas com o bebedor incauto, aquele sujeito que compra vinho pela beleza do rótulo e chama qualquer coisa adocicada de suave. Não foi o que aconteceu.

A experiência acumulada pelos participantes não reduziu significativamente o efeito da música. Um profissional com décadas de degustação continuava sujeito à modulação sonora da percepção. Os próprios pesquisadores observam que a música parece realçar ou diminuir características já presentes no vinho, não fabricar sabores do nada.

O achado pertence a uma área mais ampla da psicologia chamada percepção crossmodal, dedicada a estudar algo que nosso velho costume de dividir o corpo em cinco gavetinhas sensoriais tende a esquecer. Olhos, língua e ouvidos trabalham juntos. O cérebro recebe o pacote e monta a experiência.

Já havia evidência nessa direção. Num ensaio controlado randomizado publicado em 2012 no “British Journal of Psychology”, Adrian North, da Heriot-Watt University, mostrou que avaliações de vinho variavam de acordo com as conotações emocionais da música ouvida durante a degustação.

A garrafa continua inocente

Convém não transformar um belo experimento em magia de feira. O próprio estudo de Oxford reconhece uma limitação importante. A ordem das trilhas sonoras não foi alternada entre os participantes, de modo que parte das diferenças pode ter sofrido influência da sequência em que os testes foram realizados. Os autores recomendam novas experiências para eliminar essa possibilidade.

Ainda assim, resta uma conclusão suficientemente desconcertante. Aquela garrafa caríssima continua tendo exatamente a mesma composição se você trocar Bach por Metallica. Quem muda é você.

Só que, na hora de beber vinho, isso dá praticamente no mesmo.

Revista Bula

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