Albert Einstein morreu em Princeton em 1955. Desde então, como ocorre com alguns mortos ilustres, sua produção de frases aumentou consideravelmente. A mais famosa talvez seja aquela definição de insanidade como o ato de fazer sempre a mesma coisa esperando resultados diferentes. Einstein nunca a escreveu, até onde pôde descobrir uma pequena legião de pesquisadores que se dedica a esse ramo meio detetivesco, meio filológico e bastante divertido da cultura. Não importa. A frase continua sendo de Einstein em milhares, talvez milhões de páginas.
Clarice Lispector sofre do mesmo mal em proporções brasileiras. Depois de morta em 1977, não apenas continuou escrevendo como mudou um bocado de estilo. Tornou-se uma espécie de consultora sentimental, interessada em homens complicados, mulheres intensas, recomeços, amores que doem, cafés amargos e outras matérias sobre as quais sua obra verdadeira, já bastante vasta, aparentemente não bastava. Fernando Pessoa ganhou uma vertente motivacional. Nietzsche foi convocado para defender quem dança sozinho. Hemingway passou a aconselhar escritores a trabalhar bêbados. Churchill, além de conduzir a Inglaterra durante a Segunda Guerra Mundial, arranjou tempo póstumo para elaborar boa parte do repertório contemporâneo de frases sobre perseverança.
A internet não inventou nada disso. Citações apócrifas, truncadas ou simplesmente roubadas de um autor para dar a outro são muito anteriores ao Google, ao Facebook e àquele gênero artístico menor, mas resistente como barata, composto de um pôr do sol, uma frase edificante e uma assinatura ilustre no canto inferior direito. O que a rede fez foi dar à velha lorota uma máquina de reprodução quase perfeita. Se uma frase falsa aparece em cinquenta mil sites, a impressão do leitor comum é que existem cinquenta mil fontes confirmando sua autenticidade. Existem, na verdade, cinquenta mil cópias do mesmo erro.
E por que certos autores atraem determinadas frases? Boa pergunta. A resposta parece ter menos a ver com literatura do que com a personagem pública que os próprios escritores, a imprensa, os leitores e o tempo construíram em torno deles. Se a frase é inteligente, Einstein. Se é espirituosa, Oscar Wilde. Se envolve verdade e totalitarismo, Orwell. Bebida, Hemingway. Desespero com alguma sujeira romântica, Bukowski. Liberdade de expressão, Voltaire. Mudança interior, Gandhi.
A atribuição funciona porque parece funcionar.
Vejamos vinte casos em que funcionou até demais.
Albert Einstein
“Insanidade é fazer sempre a mesma coisa e esperar resultados diferentes.”
É difícil competir com Einstein no mercado de frases inteligentes. O físico alemão se tornou de tal modo sinônimo popular de genialidade que seu nome funciona como um carimbo. A ideia parece boa? Ponha Einstein embaixo e vamos em frente.
Só que a definição de insanidade acima não aparece em sua obra, cartas, entrevistas ou discursos conhecidos. Formulações praticamente idênticas surgem apenas muitas décadas depois, primeiro em textos ligados a grupos de recuperação de dependentes e, em 1983, no romance “Sudden Death”, da escritora americana Rita Mae Brown.
É possível que Brown também estivesse empregando uma frase que já circulava. O ponto seguro está em outro lugar — Einstein não tem nada a ver com a história.
A falsa autoria ajuda a entender por que certas citações pegam. Sem Einstein, temos um bom aforismo de psicologia popular. Com ele, parece que a Teoria da Relatividade acaba de confirmar aquilo.
Clarice Lispector
“Eu gosto dos venenos mais lentos, dos cafés mais amargos, das bebidas mais fortes e tenho apetites vorazes por uns rapazes.”
Aqui não precisamos tatear no escuro. A frase tem autora, livro e data.
É de Bruna Lombardi e pertence ao poema “Alta tensão”, publicado em “O Perigo do Dragão”, em 1984, sete anos depois da morte de Clarice.
Como acabou embaixo do nome de outra escritora é mais difícil saber. Por que ficou é facílimo.
A Clarice que conquistou enorme popularidade fora do público habitual de literatura tem uma dupla existência. Há a autora de “A Paixão Segundo G.H.”, “A Hora da Estrela”, “Laços de Família” e tantos contos extraordinários. E há uma Clarice de internet que parece passar os dias fumando diante da janela, sofrendo por homens inadequados e elaborando pequenas máximas sobre a mulher que aprendeu a ser forte depois de apanhar da vida.
O sucesso da fraude depende dessa segunda Clarice. Venenos, café amargo, bebida forte, rapazes. Hmm. Claro que foi ela.
Não foi.
Fernando Pessoa
“Pedras no caminho? Guardo todas. Um dia vou construir um castelo.”
Pessoa já tinha heterônimos suficientes, mas a posteridade resolveu colaborar e criou mais um — o poeta da superação pessoal.
A frase das pedras começou a circular na internet depois de ser publicada, em 2003, pelo brasileiro conhecido como Nemo Nox. Em algum ponto do trajeto perdeu o crédito, ganhou o nome de Fernando Pessoa e disparou.
A promoção é compreensível. “Pedras no caminho” já traz um aroma drummondiano, o castelo fornece imagem poética e a mensagem é positiva sem precisar apelar para a expressão “sair da zona de conforto”. Bastou acrescentar Pessoa e estava pronta uma peça de literatura.
O problema é que o autor de “Livro do Desassossego” não escreveu aquilo.
Pode parecer estranho que uma frase inventada em 2003 seja hoje tratada como produto da Lisboa das primeiras décadas do século 20. Estranho seria se a internet tivesse alguma dificuldade com esse tipo de viagem no tempo.
Pablo Neruda
“Morre lentamente quem não viaja, quem não lê, quem não ouve música, quem não encontra graça em si mesmo.”
O texto fez carreira internacional. Em espanhol, “Muere lentamente” foi recitado, publicado, enviado por e-mail e reproduzido em incontáveis páginas como um poema de Pablo Neruda. A falsa autoria chegou a atravessar ambientes políticos e culturais respeitáveis.
O chileno, morto em 1973, teria alguma dificuldade para reivindicar o crédito. A brasileira Martha Medeiros, felizmente viva, pôde fazer isso.
“A morte devagar” foi publicada por ela no “Zero Hora” em 2000. Ao ser traduzida para o espanhol, a crônica começou aquela velha aventura dos textos sem documento. Em algum momento Martha caiu do trem e Neruda embarcou.
O episódio é ótimo porque vira de cabeça para baixo um preconceito cultural bastante resistente. Não foi uma frase ruim que usou um nome famoso para parecer melhor. O texto já havia provado sua capacidade de emocionar milhares de pessoas. Mesmo assim, alguém julgou que ficaria mais bonito se tivesse sido escrito por um Nobel chileno.
Porto Alegre perdeu para Isla Negra.
Voltaire
“Discordo do que você diz, mas defenderei até a morte o seu direito de dizê-lo.”
Talvez seja a falsa frase mais famosa da história das ideias. E é uma falsificação peculiar, porque Voltaire provavelmente aprovaria o conteúdo.
Quem escreveu aquelas palavras foi a inglesa Evelyn Beatrice Hall, em “The Friends of Voltaire”, de 1906. Hall comentava a atitude do filósofo diante da repressão a opiniões de que discordava e produziu uma formulação destinada a sintetizar seu espírito. Não estava citando Voltaire.
A síntese ficou tão boa que logo começou a andar sozinha.
Décadas depois, aquilo que Hall havia escrito sobre Voltaire já era reproduzido como algo escrito por Voltaire. Uma preposição desapareceu e uma das frases mais conhecidas do Iluminismo mudou de dono.
Se a ideia resume com fidelidade uma posição voltairiana, poderíamos perguntar se o erro é tão grave assim. Para a história das ideias, talvez não seja uma catástrofe. Para Evelyn Beatrice Hall, convenhamos, deve fazer alguma diferença.
Mahatma Gandhi
“Seja a mudança que você quer ver no mundo.”
Gandhi escreveu algo próximo. O que não significa que tenha escrito isso.
Em 1913, ao refletir sobre mudança individual e transformação social, sustentou um raciocínio que pode ser reconhecido como ancestral da frase moderna. Era, porém, um pensamento desenvolvido, não aquele pequeno projétil verbal perfeitamente desenhado para camiseta, cartaz de escola e palestra empresarial.
A formulação curta aparece muito depois. Em 1974, a educadora americana Arleen Lorrance escreveu “be the change you want to see happen”, versão já praticamente pronta do Gandhi contemporâneo.
Em algum momento o original longo foi esquecido, a paráfrase venceu e as aspas chegaram.
Acontece muito. Um grande pensador gasta páginas explicando uma ideia. Décadas mais tarde alguém a reduz a nove palavras. Como recompensa pelo trabalho de edição, devolvemos a frase ao pensador.
Oscar Wilde
“Seja você mesmo. Todos os outros já existem.”
Esta frase tem um argumento fortíssimo a favor de sua autenticidade — parece muito de Oscar Wilde.
Tem também um argumento bem mais forte contra — ninguém a encontrou em Oscar Wilde.
Não aparece nos livros, peças, cartas e registros confiáveis do escritor, e a formulação moderna só começa a surgir muito depois de sua morte. Talvez tenha autor identificável, talvez seja apenas uma daquelas frases que foram sendo lapidadas coletivamente até assumir a forma atual.
O nome de Wilde veio a calhar. Quem escreveu tantos paradoxos brilhantes deixou a porta aberta para ocupações clandestinas.
Faça o teste mental. “Seja você mesmo. Todos os outros já existem. — Anônimo.”
Meio chocha, não?
Agora escreva Oscar Wilde.
Melhorou na hora.
Ernest Hemingway
“Escreva bêbado; edite sóbrio.”
A frase é tão adequada à lenda de Hemingway que chega a parecer descortesia provar que não é dele.
Tem bebida, literatura, brutalidade concisa e uma espécie de profissionalismo alcoólico — faça a bagunça à noite, conserte de manhã. Só faltou mencionar uma tourada.
Não há registro confiável da tirada em Hemingway. Uma versão bastante próxima aparece no romance “Reuben, Reuben”, publicado por Peter De Vries em 1964, três anos depois da morte do autor de “O Velho e o Mar”.
Hemingway bebia muito, como se sabe. Também levava o trabalho a sério e deixou testemunhos pouco compatíveis com a ideia romântica de produzir literatura bêbado.
Mas aí está a chave. A falsa citação não precisa combinar com a obra do escritor. Precisa combinar com sua lenda.
O Hemingway lendário assinaria.
George Orwell
“Em tempos de mentira universal, dizer a verdade é um ato revolucionário.”
Se alguém resolvesse fabricar em laboratório uma falsa frase de Orwell, poderia encerrar o expediente depois desta.
Mentira, verdade, revolução. Parece um resumo de “1984”.
Só não está em “1984”. Nem, até onde as pesquisas conseguiram estabelecer, em qualquer outro livro, ensaio, artigo, carta ou discurso do escritor inglês. A própria Orwell Society a inclui entre as citações apócrifas ligadas a seu nome.
Não sabemos com segurança quem escreveu a formulação moderna. Sabemos que Orwell acabou adotando-a postumamente, sem ser consultado.
Existe uma ironia óbvia aí, tão óbvia que quase dá vontade de deixá-la quieta. O homem que passou boa parte da vida discutindo propaganda, falsificação da linguagem e fabricação política da verdade tornou-se vítima de uma frase falsa.
Pronto. Não resisti.
Friedrich Nietzsche
“E aqueles que foram vistos dançando foram considerados loucos por aqueles que não podiam ouvir a música.”
Nietzsche falou de música. Falou de loucura. Desprezou multidões e convenções. É suficiente?
Para a internet, sim.
A frase dos dançarinos não aparece na obra conhecida do filósofo, e as ocorrências documentadas que a ligam a seu nome são tardias. Isso não impediu que se tornasse uma das citações nietzschianas mais reproduzidas no mundo.
A atriz Megan Fox chegou a tatuar uma versão da máxima nas costas sob a impressão de que estava carregando Nietzsche na pele. Eis uma desvantagem das falsas citações que os velhos almanaques não precisavam enfrentar. Corrigir um site é simples. Corrigir uma tatuagem pode exigir laser.
A frase continuará circulando como Nietzsche por muito tempo. Tem música, loucura e uma elite capaz de ouvir o que os outros não ouvem.
Não é preciso ser filólogo para perceber que o pacote vende bem.
Mark Twain
“Uma mentira pode dar a volta ao mundo enquanto a verdade ainda está calçando os sapatos.”
Esta é quase perfeita demais.
Uma frase sobre a velocidade da mentira tornou-se mundialmente famosa graças a uma mentira sobre sua autoria.
A imagem é muito anterior a Twain. Em 1710, Jonathan Swift já escreveu que a falsidade voava enquanto a verdade vinha mancando atrás. Ao longo dos dois séculos seguintes, a máxima recebeu variações, sapatos, botas e quilômetros. Mark Twain só entrou em cena bem mais tarde.
Por que ele? Porque Twain é outro desses escritores condenados à superprodução póstuma. Qualquer aforismo em inglês que seja engraçado, cético e tenha um leve cheiro de jornal velho corre o risco de acabar em sua conta.
O curioso é que a frase não precisava dele. Sobreviveu durante duzentos anos trocando de roupa.
Com Twain, apenas ganhou passaporte.
Charles Bukowski
“Encontre aquilo que você ama e deixe que isso o mate.”
Bukowski deixou atrás de si não apenas livros, poemas e contos, mas uma personagem tão poderosa que continua atraindo textos alheios.
A frase acima não foi localizada em sua obra. Há versões anteriores associadas ao escritor e músico Kinky Friedman, entre outros antecedentes, e a atribuição a Bukowski parece ter se consolidado muito depois.
Mesmo assim, dificilmente encontraria casa melhor. Amar alguma coisa, beber, sofrer e morrer formam uma espécie de kit básico do Bukowski de pôster — o velho safado sentimental, autodestrutivo, bêbado e vagamente sábio que se tornou muito mais popular do que diversas páginas do Bukowski verdadeiro.
É uma distinção importante.
Quando uma citação falsa cola num escritor, muitas vezes é porque antes disso já colou numa caricatura dele.
C. S. Lewis
“Você nunca é velho demais para estabelecer outra meta ou sonhar um novo sonho.”
O autor de “As Crônicas de Nárnia” morreu em 1963. A frase motivacional que costuma circular sob seu nome apareceu depois e é associada ao palestrante americano Les Brown.
A instituição dedicada à obra de Lewis a inclui sem hesitação entre as falsas atribuições.
Por que o erro prosperou? Podemos arriscar uma resposta sem grande perigo. Lewis reúne cristianismo, literatura, velhice sábia, Oxford e fantasia. Les Brown reúne palestras motivacionais. A mesma frase, intacta, parece ganhar alguns andares quando sai de um auditório corporativo e entra numa biblioteca inglesa.
Talvez seja injusto.
Mas ninguém disse que o mercado negro de citações era meritocrático.
William Shakespeare
“A expectativa é a raiz de toda dor.”
Shakespeare morreu em 1616. Sua obra, não.
Além das peças e poemas que deixou, o bardo continua recebendo colaborações anônimas em ritmo admirável. A Folger Shakespeare Library mantém até listas de frases populares que ele nunca escreveu.
Esta é uma delas.
A formulação inglesa mais conhecida usa a palavra “heartache”. Há um detalhe delicioso para quem gosta desse tipo de perícia vocabular — Shakespeare emprega “heartache” apenas uma vez em toda a obra, no “ser ou não ser” de “Hamlet”. Não há ali expectativa alguma.
Isso deveria bastar.
Não basta, claro. Quatrocentos anos de fama fazem de Shakespeare um excelente fiador. Quando uma frase sobre amor, sofrimento, tempo ou natureza humana fica sem documento, basta procurar espaço em Stratford-upon-Avon.
Winston Churchill
“Se você está atravessando o inferno, continue andando.”
Não chega a ser surpreendente que Churchill tenha se tornado um depósito de frases sobre coragem. O homem liderou a Grã-Bretanha durante o período mais dramático da Segunda Guerra Mundial, tinha talento verbal e deixou discursos realmente extraordinários.
Esta frase, porém, não aparece neles.
Pesquisadores localizaram versões da máxima circulando sem seu nome antes de a autoria churchilliana se tornar popular. Não há documentação que permita atribuí-la ao primeiro-ministro.
O conselho continua bom. Se você está mesmo atravessando o inferno, parar por ali parece uma escolha discutível.
Churchill não precisava dizer isso para que fosse verdade.
Mas precisava dizer para que fosse dele.
Luis Fernando Verissimo
“Ainda pior que a convicção do não e a incerteza do talvez é a desilusão de um quase.”
O caso de “Quase” demonstra que uma autoria falsa não precisa ficar confinada ao submundo das correntes de e-mail. Pode entrar pela porta da frente.
O texto circulou durante anos com o nome de Luis Fernando Verissimo, foi lido em formaturas, reproduzido pela imprensa e chegou ao requinte de ser traduzido para o francês e incluído numa antologia de escritores brasileiros.
Verissimo não havia escrito uma linha.
A autora era Sarah Westphal Batista da Silva, então estudante de medicina em Florianópolis. Quando o engano finalmente foi esclarecido, já existia uma legião de leitores agradecendo ao escritor gaúcho por palavras que teriam mudado suas vidas.
Não sei o que é mais impressionante — um texto falso chegar a uma antologia estrangeira ou ninguém, em todo o caminho editorial até lá, ter perguntado em qual livro de Verissimo aquilo estava.
A assinatura, quando parece certa, desestimula a curiosidade.
Mario Quintana
“Um dia descobrimos que beijar uma pessoa para esquecer outra é bobagem.”
Quintana também ganhou um duplo digital. O poeta agudo, irônico, às vezes melancólico e frequentemente brincalhão foi convertido num avô universal encarregado de dar conselhos sobre amor, amizade, casamento, saudade e felicidade.
O texto “Um dia” faz parte dessa obra paralela.
Circulou amplamente com seu nome e chegou ao ponto de ser usado por Bruno & Marrone num espetáculo em que era apresentado como poema de Quintana. A imprensa repetiu a atribuição.
Só havia um pequeno problema — o poema não existe na obra do escritor.
Ao contrário dos casos de Bruna Lombardi e Martha Medeiros, aqui não temos um autor verdadeiro claramente identificado para receber de volta a propriedade. Sabemos quem não escreveu.
Às vezes é tudo o que a pesquisa consegue nos dar.
Já é bastante.
Gabriel García Márquez
“Se por um instante Deus se esquecesse de que sou uma marionete de trapo…”
No fim dos anos 1990, García Márquez tratava um linfoma. Então apareceu “La marioneta”, texto sentimental que começou a circular por e-mail como uma espécie de despedida do grande escritor colombiano.
A história era irresistível. Nobel de Literatura, doença grave, reflexão final sobre a vida. Em pouco tempo a falsa despedida estava correndo o mundo.
García Márquez precisou desmentir a autoria.
O autor verdadeiro era o ventríloquo mexicano Johnny Welch, que havia escrito o texto para um de seus bonecos, Mofles.
É difícil melhorar essa história. Um texto criado por um ventríloquo acabou posto na boca de outra pessoa, que por sua vez teve de explicar publicamente que não estava falando.
Nem García Márquez inventaria uma solução tão arrumadinha. Ou inventaria, mas ninguém acreditaria.
Jorge Luis Borges
“Se eu pudesse viver novamente a minha vida, na próxima trataria de cometer mais erros.”
Quem usava e-mail na virada do século tem boas chances de ter recebido “Instantes”. Borges, já velho, fazia ali uma espécie de balanço da existência e lamentava ter sido prudente demais. Numa próxima vida, dizia o texto, cometeria mais erros, viajaria mais, comeria mais sorvete, colheria margaridas.
Soava sábio.
Soava pouco como Borges, mas isso não parece ter incomodado muita gente.
Durante algum tempo a autoria foi devolvida a uma americana chamada Nadine Stair, apresentada como senhora de 85 anos. Só que a história não termina aí. A existência literária de Stair é nebulosa, e pesquisadores localizaram um ancestral importante do texto num escrito do humorista Don Herold, publicado décadas antes.
A confusão, admitamos, tem certo espírito borgiano. Um texto atribuído a um autor que não o escreveu, depois entregue a uma autora envolta em dúvidas, enquanto versões anteriores surgem em outras mãos.
Talvez Borges só tenha sido escolhido porque o labirinto precisava de alguém.
Dante Alighieri
“Os lugares mais quentes do inferno estão reservados para aqueles que, em tempos de crise moral, mantêm a neutralidade.”
Dante não tinha simpatia pelos neutros. Isso é verdade.
Na “Divina Comédia”, aqueles que passaram pela vida sem se comprometer nem com o bem nem com o mal recebem um destino humilhante. Ficam do lado de fora do Inferno propriamente dito, desprezados por todos.
A frase dos “lugares mais quentes”, porém, não está no poema.
Aliás, há um problema adicional, quase cômico. O Inferno de Dante fica mais frio à medida que desce. No fundo, onde está Lúcifer, há gelo. Portanto, além de não escrever a frase, Dante teria errado a geografia do mundo que ele próprio inventou.
A máxima ganhou enorme circulação no século 20 e recebeu um empurrão de luxo quando John F. Kennedy passou a atribuí-la ao poeta italiano em discursos.
Presidente dos Estados Unidos, Dante e inferno. Era crédito demais para uma frase resistir.

