Noventa anos depois, nem a data se deixa pegar com facilidade. O assassinato de Federico García Lorca é lembrado tradicionalmente em 18 de agosto, mas há pesquisadores que situam o fuzilamento no dia 17 e fontes que registram o 19. Sabemos quem foi buscá-lo, onde ficou preso, a região para onde o levaram e até os nomes dos três homens que provavelmente morreram ao lado dele. Não sabemos onde estão seus ossos. É um bocado de ignorância para uma das mortes mais estudadas do século 20.
Sobre o verbo, pelo menos, não há discussão possível. Lorca não morreu, não faleceu, não foi tragado pelas circunstâncias da Guerra Civil Espanhola. Foi assassinado. Tinha 38 anos.
Um mês antes, em 19 de junho de 1936, terminara “A Casa de Bernarda Alba”. Trabalhava em outra peça, “Los Sueños de Mi Prima Aurelia”, e pouco antes de viajar de Madri para Granada havia procurado José Bergamín para lhe entregar o manuscrito de “Poeta em Nova York”. Bergamín não estava. Lorca deixou os papéis no escritório, com um bilhete, e foi embora. Foi assim, por uma dessas coincidências banais que só parecem carregadas de sentido depois que tudo dá errado, que o livro se salvou. O autor, não.
A tentação de enxergar nisso um presságio é enorme. Maior ainda quando se lembra que facas, sangue, desejo e morte infestam a poesia e o teatro de Lorca. Resistamos. É uma tentação meio boba, além de injusta com a literatura. Lorca não escreveu “Bodas de Sangue” porque adivinhava um pelotão à sua espera, nem Adela se mata em “A Casa de Bernarda Alba” para anunciar o destino do homem que a inventou. O que aqueles manuscritos recentes nos dizem é menos mágico e mais brutal. Federico estava trabalhando.
Uma péssima hora para voltar a Granada
Voltou para Granada em meados de julho. Àquela altura a escolha não tinha nada de suicida. A família estava lá, na Huerta de San Vicente, e ninguém era obrigado a prever o abismo que se abriria poucos dias depois. O golpe militar começou em 17 de julho. Em 20, os sublevados já controlavam Granada e tratavam de fazer o que golpes militares costumam fazer quando não encontram resistência suficiente. Prender, torturar, fuzilar.

Lorca tinha motivos para se preocupar. Não era comunista nem militante profissional, caricatura que serviu tanto a seus inimigos quanto, mais tarde, a alguns admiradores interessados em fabricar um mártir ideologicamente mais arrumado do que o homem de verdade. Mas apolítico também não era, ora. Dirigira La Barraca, companhia universitária financiada pela República que levava teatro clássico espanhol a pequenas cidades. Era amigo de Fernando de los Ríos, socialista, ministro republicano e uma das figuras mais conhecidas da esquerda espanhola. Manifestara apoio à Frente Popular. Assinara iniciativas progressistas. Era famoso, associado publicamente à República e homossexual numa Espanha em que isso podia ser não apenas motivo de chacota ou escândalo, mas matéria-prima para uma acusação moral.
Havia ainda o cunhado. Manuel Fernández Montesinos, marido de Concha García Lorca, era socialista e prefeito de Granada. Os militares o prenderam logo depois do golpe.
Federico continuou na Huerta durante as primeiras semanas. Em agosto, grupos armados apareceram mais de uma vez na propriedade. Numa dessas visitas buscavam parentes do caseiro e, segundo testemunhos posteriores, Lorca foi insultado e agredido. Se a casa da família ainda parecia segura, deixou de parecer.
Foi então que ele tomou uma decisão à primeira vista esquisita. Refugiou-se na residência dos Rosales, família de seu amigo Luis Rosales, poeta como ele. Os irmãos de Luis tinham ligações importantes com a Falange.
Visto de noventa anos de distância, com todos os mortos já contabilizados e as bandeiras bem arrumadas nos livros de história, pode soar absurdo um intelectual identificado com a República procurar proteção na casa de falangistas. Na Granada daquele agosto, não soava. As relações pessoais ainda atravessavam as trincheiras que começavam a se abrir. Lorca imaginou, com alguma lógica, que ninguém se atreveria a tirá-lo da casa de uma família influente no campo vencedor. Atreveram-se.
Na madrugada de 16 de agosto, Manuel Fernández Montesinos foi fuzilado. Na tarde do mesmo dia apareceu na casa dos Rosales Ramón Ruiz Alonso, ex-deputado da direita católica e um dos homens empenhados na repressão granadina, comandando o grupo que foi buscar Federico.
Os irmãos Rosales com maior peso político não estavam em casa. Lorca foi levado ao Governo Civil.
Quem mandou matar García Lorca?
A história fica mais enevoada a partir daí, e quem exige dela a nitidez de um inquérito policial bem encerrado corre o risco de começar a inventar. Ao longo de décadas apareceram depoimentos, documentos produzidos muitos anos depois do crime e versões repetidas tantas vezes que ganharam a solidez enganosa dos fatos. Teria existido uma denúncia contra Lorca. Pode ter existido. O papel nunca apareceu. Entre as acusações atribuídas a seus perseguidores estavam as relações com socialistas, a homossexualidade e até espionagem para os russos, ideia tão cretina que seria cômica se não tivesse ajudado a pavimentar o caminho para um fuzilamento.

No Governo Civil quem mandava era José Valdés Guzmán, uma das figuras centrais da repressão em Granada. Os Rosales se movimentaram para libertar Federico. Tinham influência, contatos dentro do próprio campo que o havia prendido. Não bastou.
É nesse ponto que entra Gonzalo Queipo de Llano, general responsável pela sublevação na Andaluzia. Pesquisas posteriores sustentam que Valdés consultou Queipo antes da execução. A tradição biográfica lhe atribui inclusive uma resposta sinistra, uma autorização cifrada para matar o poeta. Pode ter acontecido. Nenhuma ordem escrita de Queipo foi encontrada e, por mais sedutora que seja a facilidade de resumir o caso dizendo que um general mandou matar García Lorca, a história conhecida é um pouco mais suja e menos arrumada.
Valdés, de todo modo, não depende desse elo para carregar responsabilidade. Federico estava preso sob sua autoridade. Foi dali que saiu para morrer.
Naquela noite, ou na seguinte segundo outras cronologias, levaram Lorca para Víznar, nas montanhas próximas a Granada. Um prédio que durante a República servira de colônia infantil de férias havia sido convertido pelos novos donos do poder numa prisão provisória. La Colonia. Gente era deixada ali à espera de ser conduzida aos lugares de execução. Tudo indica que Lorca passou ali suas últimas horas.
Sobre o que fez, disse ou pensou nesse intervalo, sabemos quase nada. O vazio incomoda tanto que muita gente se encarregou de preenchê-lo. Surgiram últimas palavras, confissões, cenas de coragem, cenas de medo. O problema das últimas palavras de homens célebres é que elas costumam melhorar muito depois que o sujeito morre.
Sabemos, porém, que Lorca não estava sozinho. Foram levados com ele o professor Dióscoro Galindo e os banderilleros anarquistas Francisco Galadí e Joaquín Arcollas. A posteridade tratou os três com a habitual deselegância reservada aos anônimos que têm o azar de morrer ao lado de uma celebridade. Viraram quase figurantes. Não eram. Tinham famílias, histórias, motivos para estar naquela estrada. E foram assassinados do mesmo jeito.
Em alguma madrugada entre 17 e 19 de agosto, os quatro saíram de La Colonia e foram conduzidos a algum ponto entre Víznar e Alfacar. A tradição escolheu o dia 18 para a morte de Lorca. Há pesquisadores que preferem o 17. Outras cronologias ficam com o 19. Ninguém encontrou o documento capaz de encerrar a conversa. Também não se sabe exatamente onde eles caíram.
Décadas depois, documentos produzidos pelo próprio franquismo ajudariam a esclarecer pelo menos uma coisa, a natureza do olhar que o regime lançava sobre Federico. Um expediente de responsabilidades políticas o classificava como homem de esquerda, laico e “invertido”, palavra da época para homossexual. Um relatório policial de 1965 acrescentaria a acusação de maçonaria e repetiria suas simpatias socialistas e sua homossexualidade. É um documento cheio de problemas, escrito quase trinta anos depois do assassinato e com erros conhecidos. Mas serve admiravelmente para outra finalidade. Mostra o catálogo de suspeitas com que aquele mundo organizava seus inimigos.
Lorca foi morto por ser de esquerda? Por ser homossexual? Por causa de rivalidades familiares e políticas de Granada? A obsessão em escolher uma única resposta talvez diga mais sobre nossa necessidade de pôr ordem nas coisas do que sobre o próprio crime.
A repressão política é o quadro incontornável. Lorca foi preso por homens ligados aos sublevados, entregue às autoridades que comandavam o terror na cidade e fuzilado junto de outros inimigos do novo poder. Dentro desse quadro cabiam perfeitamente sua proximidade com republicanos, a homossexualidade e velhos ressentimentos locais. Fazer dele um revolucionário de carteirinha seria falso. Fazer dele um poeta apolítico abatido por uma fatalidade da guerra é bem pior.
Noventa anos e nenhum osso
Depois do assassinato começaram as versões. E, muito mais tarde, começaram as escavações.
Em 2009, pesquisadores cavaram a área de Alfacar que durante anos fora apontada como provável sepultura. Não encontraram restos humanos. Outras buscas foram realizadas depois, em lugares diferentes. De novo nada. Nove décadas de investigações, testemunhos e escavações ainda não produziram um osso que possa ser identificado como de Federico García Lorca.

A estrada entre Víznar e Alfacar é hoje oficialmente um lugar de memória da repressão. Lorca é seu morto mais famoso, o que não significa que seja o mais importante. A região está cheia de vítimas sem nome público, sem peça encenada em cinquenta idiomas, sem pesquisadores discutindo a data exata de sua morte. A fama ajuda a memória e também a deforma. É possível procurar tanto por Lorca que se acabe esquecendo quem estava enterrado ao redor.
Neste 2026 em que o assassinato completa noventa anos, entidades espanholas voltaram a cobrar a abertura de documentos estatais que podem estar relacionados ao caso. Talvez apareça alguma novidade. Talvez não. Arquivos costumam decepcionar quem espera deles aquele papel providencial que resolve no último capítulo todos os mistérios espalhados pelo autor.
Federico García Lorca saiu de Madri com “A Casa de Bernarda Alba” recém-terminada e “Poeta em Nova York” deixado sobre a mesa de outro homem. Voltou para a família. Escondeu-se entre falangistas amigos. Foi preso por homens do campo vencedor, entregue ao Governo Civil e levado para morrer numa estrada ao lado de um professor e dois anarquistas. Sabemos quase todo o caminho. O que ainda não sabemos é onde ele termina.

