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Lido mal com os desentendimentos. Fico ruim. Triste. Frustrado. Durmo mal. Me dói o corpo, como se eu tivesse lutado. E lutei. E perdi, sem querer ter lutado. Uma das misérias pessoais mais doloridas é não chegar a bom termo com outra pessoa, numa situação de divergência. Pior ainda, quando o entrevero acontece com alguém de quem eu gosto: um amigo, um parente, um vizinho, um colega de trabalho. Não enxergo vantagem alguma em admitir quem tem ou quem não tem razão no imbróglio. Isso não altera o fato de irmos cada qual para o seu lado, ainda divergentes e, claro, derrotados. Detesto me indispor. Detesto permitir que o meu sangue seja envenenado pelo eflúvio de toxinas advindas de sentimentos como raiva, angústia e decepção. Ganhar, perder, ter a palavra final, nada disso me importa. De certa forma, eu sempre perco, porque, a despeito do desenlace, a sensação de fracasso é a mesma. Porque eu me importo. Porque eu tenho vergonha de sentir raiva de outra pessoa. Porque deveríamos ser menos beligerantes, o que pouparia um bocado de ressentimento. Observo que nas redes sociais da internet os conflitos são mais frequentes, pois sucedem num ambiente virtual, o que facilita a truculência verbal. É fácil machucar o interlocutor sob o escudo da tela do computador ou do smartphone. Recentemente, tive a péssima experiência de me desentender com uma pessoa querida numa rede social da web. Nós nos conhecemos, ainda que superficialmente, há alguns anos. Rolava — da minha parte, ainda rola — uma admiração sincera, mútua e desinteressada. Assim como eu, essa pessoa gosta de literatura, escreve poemas, é politizada, é engajada em movimentos populares da negritude e possui uma visão de mundo mais social e coletiva, mais alinhada aos preceitos nos quais acredito e que balizam os meus atos enquanto cidadão: a busca pela justiça social e pela igualdade de oportunidades, o combate ao racismo e aos preconceitos de toda ordem, o apoio às causas das minorias, a luta pelo fim da pobreza e da miséria. Trata-se de uma pessoa culta, carismática, inteligente, sagaz e, claro, explosiva como uma onça. O nome pessoal não vem ao caso, muito menos o motivo do entrevero, aliás, um motivo extremamente fútil. No final das contas, a pessoa rompeu comigo com um reles toque no botão “Bloquear”, um eficiente recurso da plataforma para cancelar gente, sem maiores delongas. Longe de me sentir aliviado com a situação, sinto-me esmagado pela vaidade. Enfim, segue o jogo. Não posso entrar na cabeça dos outros para entender o que se passa lá dentro. Mas posso mudar a mim mesmo. Buscando não levar as contendas tão a sério, para não sofrer além da conta ao tentar mudar aquilo que foge do meu alcance. Assim é feita a vida: mais momentos ruins do que bons. Como escreveu Charles Bukowski: “Todos nós vamos morrer. Que circo! Só isso deveria fazer com que amássemos uns aos outros, mas não faz. Somos aterrorizados e esmagados pelas trivialidades. Somos devorados por nada”. Sábias palavras do Velho Safado. Embora muitos dirão que isso não passa de utopia barata. Não importa. Ainda fico com os sonhadores.

Eberth Vêncio

Eberth Franco Vêncio, médico e escritor, 60 anos. Escreve para a “Revista Bula” há 15 anos. Tem vários livros publicados, sendo o mais recente “Bipolar”, uma antologia de contos e crônicas.

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