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Há anos bons para a literatura, anos ruins e anos que parecem ter recebido de algum funcionário distraído da história uma cota de talento destinada a uma década inteira. 1926 pertence com folga à terceira categoria.

A conta chega a ser meio obscena. Franz Kafka teve “O Castelo” publicado postumamente. Agatha Christie lançou “O Assassinato de Roger Ackroyd”. Ernest Hemingway apareceu com “O Sol Também se Levanta”. Luigi Pirandello publicou em livro “Um, Nenhum e Cem Mil”. William Faulkner e Vladimir Nabokov estrearam no romance. Langston Hughes lançou sua primeira coletânea de poesia. E A. A. Milne publicou “Ursinho Pooh”, aquele livro infantil que milhões de adultos conhecem apenas pela descendência industrial do ursinho.

Todos fazem 100 anos em 2026. Seria fácil transformar a coincidência numa celebração de antiguidades respeitáveis, oito senhores de bengala que merecem uma salva de palmas por terem chegado tão longe. O problema é que eles se recusam a colaborar. Lidos hoje, vários desses livros parecem menos envelhecidos do que obras publicadas na semana passada e anunciadas, com a habitual falta de modéstia editorial, como retratos definitivos de nossa desconcertante modernidade.

Como explicar o abuso? Vamos aos autos.

  1. O Castelo

    Franz Kafka · 1926

    Kafka conseguiu a proeza de escrever em 1922 um romance sobre a experiência de tentar falar com o suporte técnico de uma empresa em 2026.

    Naturalmente ele não sabia disso. “O Castelo”, deixado inacabado, editado por Max Brod e publicado dois anos depois da morte do autor, acompanha K., um agrimensor que chega a uma aldeia afirmando ter sido contratado pelas autoridades do castelo. A partir daí, tenta simplesmente obter acesso a quem manda ou pelo menos descobrir com alguma clareza quem manda, o que quer dele e quais regras regem aquele lugar. Boa sorte.

    Funcionários existem aos montes. Há mensageiros, papéis, procedimentos. A máquina administrativa parece minuciosamente organizada, mas cada tentativa de K. obter uma resposta produz duas novas perguntas. A burocracia já não precisa ser corrupta ou mal-intencionada para esmagar alguém. Basta funcionar segundo sua lógica interna.

    Chamamos de “kafkiano” tudo que envolve formulários e portas fechadas, banalizando um adjetivo que nasceu de algo muito mais perturbador. O castelo não é apenas a repartição que não resolve. É a possibilidade de que, por trás de todas as repartições, não exista explicação nenhuma. Cem anos não fizeram grande estrago nesse pesadelo.

  2. O Assassinato de Roger Ackroyd

    Agatha Christie · 1926

    Há uma injustiça antiga na ideia de que a literatura policial é uma espécie de parque de diversões instalado no terreno ao lado da literatura séria. Agatha Christie dedicou boa parte da carreira a demonstrar o contrário sem perder tempo discutindo o assunto.

    Em “O Assassinato de Roger Ackroyd”, Hercule Poirot investiga a morte de um homem rico encontrado assassinado em seu gabinete numa pequena comunidade inglesa onde, evidentemente, quase todo mundo tem alguma coisa a esconder. É tudo o que convém contar.

    O romance ficou célebre por uma decisão narrativa tão ousada que provocou acusações de trapaça. Não era. Christie fez algo mais interessante, percebeu que determinadas convenções do romance policial tinham se tornado tão automáticas que o leitor já nem as enxergava.

    O mais impressionante ocorre na segunda leitura. Conhecendo a solução, voltamos às páginas à procura das cartas marcadas e descobrimos a humilhação, não estavam marcadas. Estavam à vista.

    Uma das maiores inovações formais da ficção de 1926 veio de uma autora que passou décadas sendo tratada por parte da crítica como mera fabricante de entretenimento. Problema da crítica.

  3. O Sol Também se Levanta

    Ernest Hemingway · 1926

    Depois da Primeira Guerra Mundial, Jake Barnes, Brett Ashley e um grupo de americanos e britânicos circulam entre Paris e a Espanha bebendo quantidades consideráveis de álcool, apaixonando-se por pessoas inconvenientes, brigando por bobagens que não são bobagens e tentando aproveitar a vida com aquele excesso de aplicação que quase sempre denuncia o fracasso da tentativa. A guerra acabou. Ninguém saiu realmente dela.

    “O Sol Também se Levanta” transformou Hemingway numa estrela e ajudou a fixar a imagem da chamada Geração Perdida. O que permanece vivo não é a mitologia dos expatriados em cafés parisienses nem a devoção do autor às touradas. É o método. Hemingway confia no que não explica.

    Jake traz no corpo uma ferida de guerra que torna impossível uma vida sexual convencional com Brett. O romance poderia transformar essa circunstância num grande melodrama psicológico. Faz o contrário. As pessoas falam de outras coisas, bebem, viajam, provocam umas às outras. A dor ocupa o espaço deixado em branco.

    Milhares de imitadores concluíram depois que escrever como Hemingway era usar frases curtas. Seria ótimo se fosse tão fácil. A parte difícil sempre foi saber o que calar.

  4. Um, Nenhum e Cem Mil

    Luigi Pirandello · 1926

    Vitangelo Moscarda descobre pela mulher que seu nariz pende ligeiramente para um lado. É só isso. Ou seria, caso Pirandello não percebesse que um nariz pode ser o bastante para explodir um homem inteiro.

    Moscarda passou a vida imaginando conhecer o próprio rosto. De repente percebe que os outros enxergam nele algo que jamais havia notado. A suspeita se espalha, se a mulher vê um Moscarda diferente daquele que ele vê no espelho, qual dos dois é o verdadeiro? E o Moscarda conhecido pelos amigos? Pelos empregados? Pelos desconhecidos? De um viram cem mil. Depois nenhum.

    Pirandello levou anos construindo esse romance de dissolução da identidade. Em 2026, quando uma pessoa administra versões ligeiramente diferentes de si no trabalho, em casa, nas redes sociais e diante da própria câmera do celular, a ideia parece perigosamente familiar.

    Não é que Pirandello tenha “previsto” a internet, bobagem típica dessas comparações entre épocas. É pior. Ele não precisou dela.

  5. Paga de Soldado

    William Faulkner · 1926

    Não, este não é o grande Faulkner. Convém dizer logo, porque aniversários redondos costumam produzir um tipo de piedade crítica que transforma até exercícios de juventude em obras-primas incompreendidas. “Paga de Soldado”, primeiro romance do americano que poucos anos depois escreveria “O Som e a Fúria”, é um livro desigual.

    O que o torna fascinante neste conjunto é perceber o monstro começando a acordar. A história acompanha as consequências do retorno da Primeira Guerra de um aviador gravemente ferido. O corpo voltou para casa. A vida anterior, não.

    Em torno desse homem quase destruído, parentes, amigos e antigas relações tentam reorganizar sentimentos e expectativas que pertenciam a outro tempo. A guerra é tratada menos como acontecimento histórico do que como força que continua operando depois do armistício, infiltrada nos sobreviventes.

    Faulkner ainda não descobriu inteiramente o território, a técnica e a voz que o tornariam Faulkner. Mas já está olhando para onde olhará durante boa parte da carreira, os escombros que a história deixa dentro das pessoas. Em 1926 ele ainda ensaiava. Que ensaio.

  6. Machenka

    Vladimir Nabokov · 1926

    Outro estreante inconvenientemente talentoso.

    Vladimir Nabokov publicou seu primeiro romance em russo, em Berlim, no ambiente de emigrados que conhecia de perto. Ganin mora numa pensão habitada por russos deslocados quando descobre que Machenka, seu primeiro amor, pode estar prestes a chegar à cidade. Começa então a lembrá-la. Esse é o verdadeiro acontecimento.

    À medida que a mulher reaparece na memória, a Berlim presente começa a empalidecer. Ganin reconstrói paisagens, encontros, sensações e uma Rússia que já não existe para ele. Machenka, a pessoa, corre o risco de perder a disputa para Machenka, a lembrança.

    O Nabokov de “Lolita”, “Pnin” e “Fogo Pálido” ainda está no futuro. Mas uma de suas obsessões centrais já se encontra ali com força suficiente, nossa memória não conserva o passado. Trabalha nele. Edita, corta, ilumina, inventa.

    Às vezes uma lembrança bem trabalhada derrota sem dificuldade a realidade que supostamente representa. A fotografia pode fazer 100 anos. Esse mecanismo continua novinho.

  7. O Blues Macambúzio

    Langston Hughes · 1926

    Langston Hughes não entrou na literatura americana pedindo licença.

    “O Blues Macambúzio”, sua primeira coletânea, incorporou à poesia o blues, o jazz, a experiência negra urbana, Harlem e uma dicção que boa parte do establishment cultural preferia manter numa distância segura daquilo que reconhecia como alta literatura.

    Não se tratava apenas de escrever poemas “sobre” pessoas negras, operação que poderia manter intacta a velha linguagem enquanto trocava os personagens. O ritmo, a oralidade, a música e a experiência social interferiam na própria forma. Hoje essa descrição soa quase pacífica. Não era.

    A Harlem Renaissance foi um momento de afirmação artística e intelectual em que escritores, músicos e artistas negros disputaram o direito de não aparecer na cultura americana como objeto folclórico ou problema social, mas como produtores de linguagem.

    A melhor homenagem que se pode fazer ao centenário de “O Blues Macambúzio” é evitar a redoma histórica. Hughes não está vivo porque foi importante em 1926. Foi importante porque continua vivo.

  8. Ursinho Pooh

    A. A. Milne · 1926

    E então entra um urso atrás de mel. Parece o intruso. Talvez seja um dos livros mais modernos da lista.

    A fama gigantesca de Ursinho Pooh terminou por ocultar A. A. Milne atrás do personagem e o personagem atrás de uma indústria de desenhos, bichos de pelúcia e todo tipo de parafernália. Voltar ao livro é encontrar outra coisa, humor, precisão de diálogo, delicadeza e uma compreensão nada condescendente da infância.

    Pooh não é exatamente inteligente. Leitão tem medo. Ió cultiva uma melancolia profissional. Corujão aprecia muito a própria sabedoria. Qualquer semelhança com uma reunião de adultos não é inteiramente acidental.

    Milne não simplifica o mundo para torná-lo acessível à criança; preserva sua complexidade e deixa que ela entre. Talvez por isso o Bosque dos Cem Acres continue sendo habitável depois de um século.

Em 2026, esses oito livros não formam um movimento, uma escola ou sequer uma geração. Um escritor de Praga morto, uma inglesa especializada em cadáveres, um americano expatriado, um siciliano atormentado pela identidade, dois futuros gigantes estreando, um jovem poeta negro e um escritor que entrou para a eternidade agarrado a um ursinho.

Não há teoria suficientemente boa para explicar a concentração. Ainda bem. A literatura costuma ficar mais interessante quando resiste às explicações perfeitas.

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