A Geração Beat demoraria mais de uma década para ganhar esse nome, escandalizar os Estados Unidos e produzir a fotografia que ficou para a história. Sujeitos de barba ou cara amassada, livros no bolso, jazz, estradas e uma disposição quase profissional para mandar às favas tudo o que a respeitável sociedade americana dos anos 1950 considerava respeitável. Em agosto de 1944, porém, Jack Kerouac ainda não tinha publicado livro algum, Allen Ginsberg era um calouro de 18 anos em Columbia e William S. Burroughs, já com 30, não havia escrito nada que pudesse fazê-lo suspeitar de que um dia seria William S. Burroughs.
Havia também um quarto homem. Na verdade, naquela altura ele talvez fosse o mais importante.
Lucien Carr tinha 19 anos, estudava em Columbia e exercia sobre os outros uma espécie de magnetismo intelectual que diversos depoimentos posteriores confirmariam. Bonito, culto e bom de conversa, foi ele quem ajudou a juntar os três futuros pilares dos Beats. Conhecia Burroughs de St. Louis, aproximou-se de Ginsberg em Columbia e conheceu Kerouac por meio de Edie Parker, namorada deste. Em torno de Yeats, Rimbaud, literatura e uma boa quantidade de álcool, Carr e Ginsberg chegaram a discutir uma estética vagamente programática que chamavam de Nova Visão. Expressão pessoal sem vergonha, desarranjo dos sentidos, hostilidade à moral convencional. Um ideário ainda vaporoso, mas no qual já é possível reconhecer alguma coisa do que viria depois.
E havia David Kammerer.
Kammerer tinha 33 anos, era amigo de Burroughs e conhecia Carr desde que este era adolescente em St. Louis. Tinha sido seu chefe de escoteiros, uma espécie de mentor intelectual e, segundo praticamente todas as versões da história, apaixonara-se pelo rapaz. Passou anos acompanhando seus deslocamentos de escola em escola e de cidade em cidade. Quando Carr foi parar em Nova York, Kammerer também apareceu.
É fácil demais contar o resto da história como ela foi contada na época. Fácil e provavelmente errado. A versão consagrada pela defesa de Carr dizia que Kammerer era um homossexual obsessivo que perseguia havia anos um rapaz heterossexual disposto apenas a se livrar dele. Na noite fatal, teria finalmente tentado violentá-lo. Carr reagiu em legítima defesa. Era uma história sob medida para os Estados Unidos de 1944, quando ser homossexual podia funcionar, no tribunal da opinião pública e às vezes no tribunal propriamente dito, como uma espécie de atenuante retroativa para quem matasse um homossexual.
Pode ter sido assim? Pode.
Só convém lembrar que o homem que contou essa história havia acabado de matar o outro.
Kammerer não teve oportunidade de apresentar sua versão.
O que se sabe é mais complicado. Carr sem dúvida se incomodava com a obsessão do homem mais velho, mas tampouco o excluíra inteiramente de sua vida. Bebiam juntos. Circulavam pelos mesmos lugares. Ginsberg diria mais tarde que Kammerer queria Carr e Carr queria ser querido por Kammerer. Há depoimentos e interpretações posteriores sugerindo uma ambiguidade afetiva e sexual impossível de reconstruir com segurança. Nada disso prova o que ocorreu no parque.
No dia 13 de agosto de 1944, Carr e Kerouac estavam ocupados com um plano de aventura tão impraticável que não destoaria de certas peripécias posteriores de “On the Road”. Queriam embarcar num navio mercante para a Europa, chegar à França em plena guerra e de algum modo acompanhar a libertação de Paris refazendo os passos de Arthur Rimbaud. Perderam o navio.
Talvez tenha sido melhor assim, embora o que veio depois torne a palavra “melhor” meio difícil de sustentar.
Foram beber no West End Bar, nas proximidades de Columbia. Kerouac deixou Carr no bar e, pouco depois, cruzou com Kammerer. O homem perguntou onde estava Lucien. Kerouac informou.
Anos mais tarde, em “Vanity of Duluoz”, lembraria aquele momento com a sensação tétrica de ter indicado a um sujeito o caminho da própria morte.
Kammerer encontrou Carr. Beberam. Depois caminharam até Riverside Park, na altura da rua 115. Já era a madrugada de 14 de agosto quando os dois ficaram sozinhos perto do Hudson.
O que aconteceu então só pode ser reconstituído em linhas gerais. Carr afirmou que Kammerer fez uma investida sexual, que ele recusou, que os dois entraram em luta e que o homem mais velho e maior estava levando vantagem. Sacou uma pequena faca dobrável, a célebre faca de escoteiro que se tornaria um dos objetos mais sinistros da pré-história Beat, e golpeou Kammerer no peito.
A partir daí já não há defesa pessoal alguma para discutir.
Há um cadáver.
Carr levou o corpo até a margem, amarrou seus membros com cadarços, colocou pedras nas roupas e o empurrou no Hudson.
Depois saiu à procura dos amigos.
O primeiro foi William Burroughs.
Há alguma justiça cômica, embora de humor bastante negro, no fato de que Burroughs tenha representado naquela noite o papel do adulto sensato. Herdeiro de uma família rica, formado em Harvard, interessado em drogas, armas e crime, ele ouviu Carr contar que acabara de matar Kammerer e deu um conselho perfeitamente convencional. Procure um advogado e vá à polícia.
Carr concordou com a parte do advogado. A polícia podia esperar. Foi atrás de Kerouac.
E aqui a história abandona por algumas horas o drama psicológico e entra numa espécie de comédia noir que, fosse inventada, correria o risco de parecer forçada.
Kerouac acompanhou o amigo pelas ruas de Manhattan enquanto ele tratava de fazer desaparecer evidências. Enterraram os óculos de Kammerer em Morningside Park. Jogaram a faca por uma grade na rua 125. Estavam, portanto, um assassino que ainda não havia se entregado e um futuro autor clássico americano acabando de se livrar da arma do crime.
Terminada a tarefa, foram passear.
Passaram pelo Museu de Arte Moderna. Comeram cachorro-quente em Times Square. Entraram num cinema e assistiram a “The Four Feathers”, aventura britânica sobre covardia, coragem e redenção. Não é necessário ter muita inclinação para simbolismos literários a fim de achar o programa um pouco excessivo. Mas foi o programa.
Só depois Carr se entregou. Chegou às autoridades e contou sua história. A polícia chegou a desconfiar que estivesse diante de um rapaz perturbado inventando um crime. Faltava uma coisa indispensável a qualquer investigação de homicídio.
O morto.
O Hudson cuidou disso.
Quando o corpo de Kammerer foi encontrado, ferido e ainda carregando o peso das pedras, a fantasia virou processo criminal. A imprensa de Nova York mergulhou no caso com o apetite reservado a histórias em que sexo, universidade de elite e morte aparecem na mesma página. Carr foi descrito como rapaz refinado, brilhante, erudito. Um jornal chegou a tratar o episódio como um “assassinato de honra”. Professores importantes de Columbia deporiam sobre suas qualidades.
Kammerer já estava começando a perder o segundo julgamento, aquele que ocorre depois da morte.
E então a polícia chegou a Kerouac e Burroughs.
Os dois foram presos como testemunhas materiais porque Carr os procurara depois do crime. Burroughs não passou muito tempo atrás das grades. O pai apareceu e pagou sua fiança. Kerouac teve menos sorte. Leo Kerouac, seu pai, considerou aquela história uma demonstração cabal de que o filho estava andando com a pior espécie possível de gente e se recusou a tirá-lo da cadeia.
Quem apareceu foi Edie Parker.
Havia, porém, um problema jurídico para que ela assumisse a fiança. A solução encontrada foi discretíssima.
Casamento.
Em 22 de agosto, Jack Kerouac deixou temporariamente a prisão escoltado por policiais e se casou com Edie numa cerimônia civil. A união permitiu que a família dela ajudasse a obter sua liberdade. O casamento se desmancharia rapidamente, mas a cena tem seu lugar na biografia de um homem que mais tarde seria mitificado como apóstolo da liberdade. Kerouac se casou pela primeira vez porque estava preso devido a um assassinato que não cometera, mas cujas provas ajudara o assassino a esconder.
Lucien Carr foi inicialmente acusado de assassinato em segundo grau. Seu destino melhorou quando prevaleceu a narrativa do estudante brilhante levado ao limite pelas investidas de um homossexual predatório. Acabou se declarando culpado de manslaughter em primeiro grau, uma acusação menos grave do que murder, e foi enviado para o reformatório de Elmira. Cumpriria cerca de dois anos.
O tratamento dado ao caso diz muito sobre 1944 e pouco de edificante. Hoje é difícil não reconhecer ali um ancestral da chamada defesa do pânico gay, em que a sexualidade da vítima passa a funcionar como parte da justificativa da violência praticada contra ela. Carr matou Kammerer. Se Kammerer tentou violentá-lo, como o homicida afirmou, é outra questão.
Allen Ginsberg não foi preso.
Também não saiu ileso.
Ele era apaixonado por Carr, mantinha amizade com Kammerer e começava a enfrentar a própria homossexualidade. O assassinato arrancou de uma vez duas figuras importantes de seu pequeno mundo. Carr foi para a prisão. Kammerer estava morto. Kerouac e Burroughs haviam caído nas mãos da polícia. A turma de jovens que passava noites imaginando uma vida mais livre do que aquela disponível no catálogo social americano simplesmente desmoronou.
Ginsberg anotou em seu diário que o círculo libertino havia sido destruído com a morte de Kammerer.
A anotação estava certa apenas pela metade.
O círculo realmente se rompeu. Mas aquilo que o destruiu quase imediatamente começou a ser transformado em literatura.
“E os Hipopótamos Foram Cozidos em Seus Tanques”
Pouco depois, Kerouac e Burroughs fizeram o que escritores costumam fazer quando a realidade lhes entrega uma história difícil demais para ser deixada em paz. Em 1945, escreveram juntos “E os Hipopótamos Foram Cozidos em Seus Tanques”, romance baseado no assassinato de Kammerer. Os dois se alternavam nos capítulos, cada um narrando por meio de um alter ego, enquanto Carr e Kammerer apareciam sob outros nomes. O manuscrito foi recusado, ficou engavetado durante mais de seis décadas e Lucien Carr, compreensivelmente, não queria vê-lo publicado. Só saiu integralmente em 2008, quando Kerouac, Burroughs, Ginsberg, Carr e o próprio Kammerer já estavam mortos.
Seu interesse não depende de ser uma obra-prima secreta dos Beats. Antes de “On the Road”, antes de “Howl”, antes de “Naked Lunch”, Kerouac e Burroughs já faziam aquilo que se tornaria uma das marcas daquele grupo. Pegavam amigos, desejos e desastre e transformavam tudo em literatura.
Kammerer entrou na literatura Beat antes de existir a Geração Beat.
Não como escritor.
Como personagem.
E porque estava morto.
Antes de Neal Cassady, houve um cadáver no Hudson
Seria exagero dizer que o assassinato fundou o movimento. Neal Cassady só apareceria mais tarde para incendiar a imaginação de Kerouac e Ginsberg. Herbert Huncke traria o submundo das ruas, as drogas e até a palavra “beat”. Haveria jazz, São Francisco e uma América do pós-guerra cada vez mais sufocada por seu próprio conformismo.
Mas o crime de Riverside Park estava lá no começo.
E deixou algumas lições que aqueles escritores jamais esqueceriam. A vida privada podia ser matéria literária. A transgressão não tinha nada de abstrato. Crime, culpa e desejo podiam se misturar de forma indissociável. E viver fora das convenções era uma proposta bem mais complicada quando a polícia batia à porta.
Kerouac voltaria ao episódio em sua ficção. Ginsberg jamais esqueceu Carr. A história dos Beats, que mais tarde seria vendida com abundância de estradas ensolaradas e rebeldia juvenil, sempre teve sombras muito mais espessas do que sua mitologia pop costuma admitir.
Lucien Carr também mudou. Saiu de Elmira e em 1946 foi trabalhar na United Press. O jovem que falava em romper a moral do mundo e parecia destinado, aos olhos dos amigos, a se tornar escritor acabou construindo uma carreira de 47 anos numa agência de notícias, chegando a editor nacional. Era famoso entre jornalistas pela rapidez, pela clareza e pelo talento para consertar textos.
Quando Ginsberg publicou “Howl and Other Poems”, em 1956, a primeira edição trazia uma dedicatória a quatro amigos. Kerouac, Burroughs, Neal Cassady e Lucien Carr.
Carr pediu que seu nome fosse retirado das edições seguintes.
Era um pedido compreensível. Ele havia cumprido pena, reconstruído a vida e não tinha intenção de passar as décadas seguintes sendo apresentado como o rapaz que matou David Kammerer e jogou seu corpo no Hudson.
Só havia escolhido muito mal os amigos para quem se pede uma coisa dessas.
Eram escritores.

