Chega uma hora em que, se tínhamos alguma esperança quanto a sermos felizes, esse sonho é dissipado pela sensação de que uma entidade qualquer subjuga nosso destino, e tira dele a camada de beleza que nos impede de soçobrar. O medo toma proporções irracionais e, em vez de proteger, encerra-nos num calabouço frio, agonia mais desumana que o crime mais torpe. Uma mulher rodeada daquilo que há de mais sublime no mundo passa uma temporada no inferno pagando por maldades alheias, sai disposta a não pensar mais nisso e se refazer, mas escuta o chamado da vingança e atende. Assim se desenrola “15 Anos em Silêncio”, drama entre intimista e histriônico sobre memórias indesejadas que não aceitam qualquer controle e parecem resistir à determinação mais firme da alma mais pura. Chris Kraus ratifica a fama do cinema alemão — plural, avesso a estereótipos —, e vale-se de ganchos para dar suas alfinetadas nos que insistem em dizer que algumas situações mostradas ao longo dos 144 minutos são exclusividade de país pobre.
A música do desassossego
Jenny von Loeben foi uma pianista de sucesso, mas agora resigna-se em trabalhar como servente de uma instituição filantrópica, frequentando um grupo de apoio para ex-presidiários nas horas vagas. Kraus ciceroneia o público pelo labirinto de abatimento moral e ódio sufocado da personagem, sugerindo que Jenny fora pateticamente crédula ao confiar na sorte e, pior, em gente que deveria tê-la defendido e capitulou, fomentando o anseio por reparação que galvaniza um pedaço generoso da história. Esse momento vai-se anunciando num jantar na casa de Harry Mangold, ex-colega de Jenny na universidade, e então o diretor-roteirista dá o golpe certeiro quando introduz a figura envolta em mistério que arruinou o futuro da pianista. Com Hannah Herzsprung e Christian Friedel encabeçando um elenco muito acima da média, “15 Anos em Silêncio” ratifica o saboroso pessimismo schopenhaueriano do cinema tedesco, representado neste insano século 21 por “Quatro Minutos” (2006), também dirigido por Kraus; “Nós Somos Jovens, Nós Somos Fortes” (2014), levado à tela por Burhan Qurbani; ou “E Amanhã… O Mundo Todo” (2020), de Julia von Heinz. Trata-se de uma corrente orgânica e vigorosa, feita de artistas e pensadores que jamais se furtam a dizer o que deve ser dito. De uma forma bem germânica, claro.

