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O diretor Scott Stewart levou às telas um futuro devastado, no qual um padre guerreiro desafia a Igreja para resgatar sua sobrinha. Entre cidades muradas, desertos abandonados e esconderijos subterrâneos, “Padre” mistura ação, fantasia, suspense e ficção científica numa guerra que as autoridades preferem considerar encerrada.

Durante séculos, humanos e vampiros disputaram o controle do planeta. As criaturas tinham força e velocidade superiores, enquanto a humanidade buscava abrigo em cidades fortificadas. Quando as armas comuns deixaram de bastar, a Igreja treinou sacerdotes guerreiros capazes de enfrentar os inimigos em condições quase iguais.

Esses combatentes ajudaram os humanos a vencer a guerra e confinaram os vampiros sobreviventes em reservas isoladas. Depois da vitória, porém, a Igreja dissolveu o grupo. Os antigos heróis perderam prestígio, função e liberdade. Aqueles que salvaram a humanidade passaram a ser vistos como lembranças incômodas de um período que o governo religioso desejava arquivar.

Padre (Paul Bettany) é um desses veteranos. Ele mora numa cidade cercada por muros, coberta por fumaça e controlada por mensagens religiosas espalhadas em telas e alto-falantes. A população vive sob vigilância, segue horários rígidos e aceita a versão oficial de que os vampiros deixaram de representar perigo.

O sacerdote tenta levar uma vida discreta, embora sua aparência e as marcas no rosto revelem o passado militar. Paul Bettany interpreta o personagem com poucas palavras, semblante fechado e movimentos controlados. Padre parece economizar até respiração. A escolha combina com alguém treinado para obedecer, lutar e esconder qualquer sinal de fraqueza.

Lucy desaparece nas terras devastadas

A rotina muda quando Hicks (Cam Gigandet), xerife de uma pequena comunidade situada fora das muralhas, chega com uma notícia grave. Um grupo de vampiros atacou a casa de Owen Pace (Stephen Moyer), irmão de Padre, e sequestrou Lucy (Lily Collins), sobrinha do sacerdote e namorada do jovem policial.

Hicks procura Padre porque sabe que a polícia local possui poucos recursos para enfrentar aquelas criaturas. Ele conhece as estradas e sabe manejar uma arma, mas nunca recebeu o treinamento reservado aos sacerdotes. Também teme que Lucy seja transformada em vampira caso o resgate demore. A busca nasce, portanto, de uma urgência familiar e de um prazo que ninguém consegue calcular.

Antes de partir, Padre pede à Igreja que devolva sua autoridade de combatente. Monsenhor Orelas (Christopher Plummer) recusa o pedido e insiste que a guerra terminou. Reconhecer o ataque significaria admitir que as reservas falharam e que a população das cidades muradas continua ameaçada. Para o líder religioso, preservar a versão oficial parece mais importante do que investigar o desaparecimento de uma jovem.

Padre abandona a cidade mesmo sem permissão. Ao quebrar seus votos, perde a proteção institucional e passa a ser procurado pelos antigos colegas. A missão de resgate vira também um ato de desobediência. Em termos menos solenes, o homem pede licença para salvar a sobrinha, recebe um sermão e decide que o formulário pode esperar.

Uma parceria cercada por desconfiança

Padre e Hicks atravessam regiões desertas seguindo os vestígios deixados pelos sequestradores. A parceria começa marcada por diferenças. O sacerdote conhece os hábitos dos vampiros, mas guarda informações e sentimentos. O xerife deseja participar de todas as decisões, embora sua pressa possa colocar a busca em risco.

Cam Gigandet interpreta Hicks como um rapaz corajoso, impulsivo e muito consciente de suas limitações. Ele sabe que está acompanhando uma lenda das Guerras dos Vampiros, mas também percebe que Padre deixou parte da humanidade enterrada no campo de batalha. Os dois querem salvar Lucy, porém discordam sobre o preço aceitável para cumprir a missão.

O caminho leva a dupla para áreas onde humanos convivem com os chamados familiares, pessoas que servem aos vampiros em troca de proteção ou alguma promessa de poder. Esse contato confirma que as criaturas continuam organizadas. A informação aumenta o perigo para Lucy e enfraquece ainda mais a versão defendida pela Igreja.

Scott Stewart aproveita essa viagem para misturar referências de faroeste com um cenário futurista. Hicks usa distintivo e revólver, os heróis cruzam o deserto em motocicletas e pequenas cidades surgem isoladas entre vastas extensões de terra. A combinação tem personalidade, embora o roteiro avance depressa demais por um universo que merecia maior atenção.

A Sacerdotisa escolhe um lado

A Igreja envia outros sacerdotes para capturar Padre e trazê-lo de volta. Entre eles está Sacerdotisa (Maggie Q), antiga companheira de combate do protagonista. Ela possui habilidades semelhantes às dele e conhece tanto a violência dos vampiros quanto os métodos usados pela instituição para controlar seus guerreiros.

Quando percebe que os ataques não são invenção de Padre, Sacerdotisa precisa escolher entre cumprir a ordem recebida ou ajudar no resgate. Maggie Q oferece energia à personagem e cria uma combatente segura, veloz e menos fechada do que o protagonista. Sua entrada fortalece o grupo, embora o roteiro lhe conceda menos desenvolvimento do que a figura merece.

O trio passa a seguir sinais de uma movimentação organizada dos vampiros. O sequestro de Lucy permanece no centro da busca, mas deixa de parecer uma ação isolada. Há indícios de que as criaturas estão deixando seus esconderijos e usando rotas desconhecidas pela Igreja. Quanto mais Padre avança, maior fica o risco para as comunidades espalhadas fora das muralhas.

O suspense cresce porque os personagens precisam agir antes de reunir todas as informações. Eles desconhecem o número de inimigos, a localização exata da jovem e o objetivo completo dos sequestradores. Cada parada favorece os vampiros. Cada erro pode custar a vida de Lucy.

Um universo maior que o roteiro

Os vampiros de “Padre” têm aparência animalesca e comportamento agressivo. Eles vivem em ambientes escuros, movimentam-se com enorme velocidade e atacam em grupo. Scott Stewart afasta essas criaturas da figura elegante e sedutora popularizada por outras histórias. Aqui, ninguém pretende convidá-las para um jantar à luz de velas, até porque a luz seria um problema considerável.

As cenas de ação valorizam as habilidades dos sacerdotes e a diferença física entre humanos comuns e combatentes treinados. Padre utiliza armas específicas e luta com precisão, enquanto Hicks depende do revólver e da experiência adquirida como xerife. Sacerdotisa combina força e agilidade, tornando-se uma peça importante quando a busca chega a áreas dominadas pelos inimigos.

“Padre” possui boas ideias sobre fé, poder e abandono, mas nem sempre lhes concede tempo suficiente. A Igreja criou soldados para vencer uma guerra e depois os afastou para conservar sua autoridade. Padre aceita ser novamente tratado como arma porque Lucy está em perigo. Essa contradição oferece densidade ao protagonista, mesmo quando Paul Bettany precisa trabalhar mais com silêncio do que com diálogos.

O filme também deixa personagens interessantes à margem. Lucy aparece principalmente como motivo da missão, Hicks recebe poucas oportunidades fora da busca e Sacerdotisa guarda um passado que poderia render cenas mais íntimas. A duração curta favorece o ritmo, mas limita os vínculos afetivos responsáveis por sustentar a aventura.

Ainda assim, “Padre” entrega uma combinação curiosa de vampiros, fanatismo religioso, motocicletas e paisagens de faroeste. Scott Stewart mantém o enredo compreensível e concentra a tensão na corrida para salvar Lucy antes que seus sequestradores cumpram o plano. O resultado é uma produção ágil, sombria e imperfeita, capaz de divertir quem aceita entrar num mundo onde os sermões são longos, as estradas são perigosas e os padres carregam armas melhores do que muitos xerifes.


Filme: Padre
Diretor: Scott Stewart
Ano: 2011
Gênero: Ação/Ficção Científica/Mistério/Suspense
Avaliação: 3.5/5 1 1
Fer Kalaoun

Fer Kalaoun é editora na Revista Bula e repórter especializada em jornalismo cultural, audiovisual e político desde 2014. Estudante de História no Instituto Federal de Goiás (IFG), traz uma perspectiva crítica e contextualizada aos seus textos. Já passou por grandes veículos de comunicação de Goiás, incluindo Rádio CBN, Jornal O Popular, Jornal Opção e Rádio Sagres, onde apresentou o quadro Cinemateca Sagres.

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