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Nas rotas de tráfico entre Miami, Caribe e América do Sul, dois policiais infiltrados entram numa rede criminosa para descobrir quem assassinou agentes federais. Sonny Crockett (Colin Farrell) e Ricardo Tubbs (Jamie Foxx) precisam transportar drogas, convencer traficantes experientes e proteger a equipe enquanto fingem pertencer ao mesmo mundo que investigam. Dirigido por Michael Mann, “Miami Vice” transforma a antiga série de televisão num suspense policial sombrio, adulto e interessado no preço cobrado por cada disfarce.

Crockett e Tubbs estão envolvidos numa operação policial em Miami quando recebem o telefonema desesperado de um antigo informante. Ele havia colaborado com uma força-tarefa federal, mas criminosos descobriram sua ligação com as autoridades. A informação indica que alguém revelou dados sigilosos e entregou agentes que trabalhavam no caso. Os dois detetives deixam a investigação em andamento e assumem uma missão mais perigosa, descobrir de onde partiu o vazamento e chegar aos responsáveis pelas mortes.

Para entrar na organização, eles se apresentam como transportadores capazes de levar grandes carregamentos de cocaína até o sul da Flórida. O plano depende menos de distintivos do que de barcos velozes, aviões, rotas clandestinas e uma boa dose de audácia. Crockett usa sua segurança quase insolente, enquanto Tubbs cuida dos detalhes financeiros e operacionais. Os dois conhecem tão bem a linguagem dos criminosos que, em certos momentos, parecem funcionários antigos da firma. A diferença é que qualquer falha pode custar a vida de toda a equipe.

O primeiro contato importante acontece com José Yero (John Ortiz), responsável por supervisionar parte dos negócios. Desconfiado e agressivo, ele não aceita desconhecidos apenas porque chegaram bem vestidos e falando de dinheiro. Crockett e Tubbs precisam realizar entregas verdadeiras para provar que possuem estrutura, contatos e sangue-frio. Quanto mais avançam, porém, maior fica a dependência dos próprios traficantes, que escolhem locais, horários e condições para cada carregamento.

Isabella abre uma porta perigosa

A aproximação leva os detetives até Isabella (Gong Li), mulher sino-cubana que administra os negócios de Arcángel de Jesús Montoya (Luis Tosar), chefe da organização. Elegante e reservada, ela cuida do dinheiro e participa das decisões mais importantes do grupo. Crockett percebe que Isabella pode facilitar seu acesso ao comando, mas a relação entre eles logo ultrapassa o interesse profissional.

Isabella aceita sair com Crockett e passa a tratá-lo como alguém confiável dentro daquele universo. Ele aproveita a proximidade para permanecer perto da organização, embora comece a se envolver de verdade. O problema é bastante simples e nada confortável. Crockett precisa enganar uma mulher por quem está atraído sem revelar que sua profissão consiste em prendê-la. Isabella, por sua vez, acredita estar diante de um contrabandista independente, alguém disposto a viver com o mesmo gosto pelo risco que orienta as escolhas dela.

Colin Farrell interpreta Crockett com poucas palavras e uma expressão quase sempre fechada. O personagem parece seguro mesmo quando já perdeu boa parte do controle sobre a situação. Gong Li oferece a Isabella uma presença firme, sem transformá-la numa figura decorativa ao lado dos traficantes. Ela administra recursos, avalia propostas e conhece o perigo dos homens com quem trabalha. A ligação entre os dois ganha força porque ambos escondem informações capazes de destruir a relação.

Michael Mann trata esse romance sem interromper a investigação. Cada encontro aproxima Crockett de Isabella, mas também o coloca sob os olhos de Yero e Montoya. O policial ganha acesso a ambientes antes fechados, ao mesmo tempo que oferece aos criminosos uma fraqueza fácil de reconhecer. Seu disfarce deixa de ser apenas uma identidade usada durante o expediente e começa a invadir sua vida pessoal.

Tubbs tenta proteger a equipe

Enquanto Crockett se arrisca com Isabella, Tubbs mantém atenção sobre a operação e sobre Trudy Joplin (Naomie Harris), policial e analista de inteligência com quem vive. Ela participa do trabalho, conhece os perigos da infiltração e não permanece escondida esperando notícias. Sua presença dá ao caso uma dimensão mais delicada, pois os criminosos podem alcançar pessoas próximas aos detetives.

Jamie Foxx interpreta Tubbs com contenção. Ele observa o parceiro, acompanha as movimentações do grupo e procura impedir que uma escolha pessoal comprometa os demais agentes. A amizade entre os protagonistas dispensa brincadeiras constantes ou demonstrações sentimentais. Eles confiam um no outro porque trabalham juntos há tempo suficiente para reconhecer um problema antes que alguém precise anunciá-lo.

Yero começa a suspeitar dos novos transportadores e aumenta a pressão sobre eles. O trabalho policial passa a exigir tarefas incompatíveis. Crockett e Tubbs precisam ficar perto dos traficantes para obter informações, porém essa proximidade oferece ao inimigo acesso à rotina, aos aliados e às relações afetivas dos dois. Quando Trudy entra na mira da organização, Tubbs abandona qualquer distância emocional e concentra os recursos da equipe em protegê-la.

A violência cobra a conta

“Miami Vice” não transforma cada movimento dos policiais numa sequência grandiosa. Boa parte da tensão nasce de conversas curtas, telefonemas, entregas e viagens durante as quais ninguém sabe se o disfarce ainda está de pé. Mann mostra barcos, aviões, portos e estradas como instrumentos indispensáveis ao tráfico. As drogas atravessam fronteiras porque existe uma estrutura bem paga para transportá-las, protegê-las e apagar rastros.

A câmera digital registra noites carregadas, tempestades distantes e áreas urbanas pouco iluminadas. Essa escolha aproxima o espectador dos personagens e dá às imagens uma textura áspera, por vezes até incômoda. A técnica acompanha a falta de segurança dos agentes, mantendo ameaças escondidas e adiando informações importantes. Quando a violência surge, ela é breve, barulhenta e deixa feridos que precisam de atendimento, não heróis procurando uma frase de efeito.

O roteiro pode exigir atenção por causa dos termos operacionais e da quantidade de nomes envolvidos. Ainda assim, a história conserva um eixo compreensível. Crockett e Tubbs querem identificar quem entregou os agentes federais, chegar ao comando da rede e impedir novos assassinatos. Para isso, precisam transportar cargas para os mesmos homens que pretendem prender. O romance com Isabella e o perigo enfrentado por Trudy tornam a missão pessoal, mas nunca apagam o objetivo policial.

“Miami Vice” abandona o colorido festivo associado à série dos anos 1980 e prefere uma Miami úmida, escura e cercada por rotas internacionais. O thriller policial é sério, sensual e ocasionalmente difícil, mas cheio de personalidade. Michael Mann acompanha profissionais que sabem usar armas, barcos e identidades falsas, embora tenham bem menos habilidade para controlar os sentimentos. Depois que o disfarce invade suas relações, Crockett e Tubbs precisam terminar a missão sabendo que algumas perdas permanecerão fora de qualquer relatório.


Filme: Miami Vice
Diretor: Michael Mann
Ano: 2006
Gênero: Ação/Crime/Drama/Suspense
Avaliação: 3.5/5 1 1
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