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Em 2017, entre Nova York e Roma, John Wick volta ao submundo dos assassinos para pagar uma dívida de sangue que ameaça sua aposentadoria. Dirigido por Chad Stahelski, “John Wick: Um Novo Dia para Matar” começa pouco depois dos acontecimentos do primeiro longa. John Wick (Keanu Reeves) ainda deseja retomar a vida silenciosa que levava antes da morte da esposa. Para isso, precisa recuperar seu Mustang de 1969, roubado por criminosos russos, e encerrar as pendências que o mantêm ligado à antiga profissão. O carro volta para suas mãos bastante danificado, mas o reencontro parece suficiente para anunciar alguma paz. A esperança dura pouco.

Santino D’Antonio (Riccardo Scamarcio), integrante de uma poderosa família italiana, visita John para cobrar uma promessa feita anos antes. Ele possui um marcador, objeto que comprova uma dívida de sangue aceita pelo assassino quando ainda trabalhava. Santino quer que John cumpra uma missão em Roma e usa as normas daquele universo criminoso para obrigá-lo a aceitar. Ignorar o compromisso significaria perder o respeito e a proteção de uma rede espalhada por vários países.

Uma dívida impossível de ignorar

John procura Winston (Ian McShane), responsável pelo Hotel Continental de Nova York, na tentativa de descobrir alguma saída. O estabelecimento recebe assassinos profissionais, fornece hospedagem e protege seus hóspedes, desde que ninguém pratique violência dentro de suas dependências. Winston confirma que o marcador precisa ser honrado. Aquelas regras ajudaram John no passado e agora impedem que ele abandone o compromisso.

Sem espaço para rejeitar a cobrança, John viaja a Roma. Santino pretende ocupar um posto de maior prestígio na organização criminosa à qual pertence, mas uma pessoa próxima bloqueia seu caminho. A missão coloca o protagonista dentro de uma disputa familiar na qual afeto, herança e poder aparecem misturados. John aceita o serviço para quitar a dívida, embora saiba que cumprir o acordo não garante uma aposentadoria tranquila.

O Hotel Continental de Roma o recebe com a elegância de um estabelecimento luxuoso e a discrição de quem já hospedou hóspedes muito piores. Julius (Franco Nero), gerente da unidade, pergunta se John pretende matar o papa. A breve conversa resume bem a graça peculiar da franquia. Todos falam sobre armas, cadáveres e contratos com a educação de funcionários discutindo reservas para o jantar.

Roma prepara o assassino

Antes de cumprir a missão, John visita fornecedores ligados ao hotel. Escolhe armas, encomenda um terno resistente e consulta mapas dos lugares por onde deverá passar. Cada profissional atende ao pedido com uma formalidade quase aristocrática. A sequência transforma a preparação para um assassinato numa espécie de tarde de compras, embora as sacolas sejam muito menos recomendáveis para um passeio turístico.

Stahelski apresenta essas etapas porque elas possuem utilidade dentro da história. As armas têm quantidade limitada de munição, o terno oferece proteção parcial e os mapas definem entradas e saídas. Quando John entra em ação, o espectador conhece os recursos disponíveis e percebe quando eles começam a faltar. A violência deixa de ser uma sucessão confusa de cortes e ganha espaço, duração e peso físico.

Em Roma, John também cruza o caminho de Cassian (Common), chefe da segurança da pessoa ameaçada. Cassian reconhece o invasor e possui habilidade suficiente para acompanhá-lo pelas ruas, túneis e escadarias da cidade. O embate entre os dois nasce de obrigações profissionais diferentes. Um precisa terminar o trabalho para apagar a dívida, enquanto o outro deve proteger quem está sob sua responsabilidade.

Keanu Reeves sustenta John com poucas palavras e um cansaço bastante convincente. O personagem não demonstra prazer em retornar à profissão, embora seja assustadoramente competente quando precisa lutar. Ele não diz, mas o corpo dolorido, a roupa marcada e os segundos gastos para recuperar o fôlego revelam que cada serviço cobra uma parcela da paz que deseja recuperar.

O acordo esconde outra ameaça

Santino D’Antonio não domina somente o marcador. Ele possui dinheiro, seguranças e acesso a uma extensa rede de criminosos. John percebe que completar a missão pode encerrar a promessa registrada no objeto, mas não elimina os interesses de quem fez a cobrança. O assassino deixa de trabalhar para Santino e passa a enfrentar as consequências criadas por ele.

Ares (Ruby Rose), chefe da segurança do italiano, acompanha John durante essa mudança. Surda, ela se comunica por sinais e demonstra uma confiança provocadora. A personagem fala pouco, observa bastante e recebe a tarefa de proteger o chefe. Sua presença acrescenta uma adversária capaz de prever parte dos movimentos de Wick e bloquear rotas importantes.

A perseguição ganha força quando diferentes profissionais passam a reconhecer John nas ruas de Nova York. Violinistas, vendedores, pedestres e trabalhadores aparentemente comuns podem esconder alguma ligação com o submundo. Essa ideia rende algumas das melhores passagens do longa porque transforma a multidão em ameaça. John já não sabe quem recebeu informações sobre seu paradeiro e precisa permanecer atento até nos espaços mais banais.

Uma cidade cheia de assassinos

Ferido e com poucos recursos, John procura o Rei dos Mendigos (Laurence Fishburne), líder de uma organização instalada nos subterrâneos de Nova York. O reencontro entre Fishburne e Reeves carrega uma pequena lembrança de “Matrix”, mas o filme não depende dessa referência. O Rei dos Mendigos possui informantes, passagens escondidas e homens distribuídos pela cidade. Qualquer ajuda, porém, exige uma contrapartida.

Chad Stahelski mantém as lutas abertas o bastante para que o público acompanhe socos, quedas e disparos. A câmera não esconde todos os movimentos atrás de cortes frenéticos. Quando John perde uma arma, precisa alcançar outra. Quando a munição termina, o corpo assume o combate. Essa organização torna a ação compreensível, mesmo nos trechos em que o número de perseguidores beira o absurdo.

O exagero faz parte da personalidade de “John Wick: Um Novo Dia para Matar”. A produção apresenta uma comunidade criminosa enorme, disciplinada e estranhamente eficiente, onde até uma encomenda de assassinato parece obedecer a protocolos administrativos. Há telefonistas, fichas, moedas próprias, hotéis protegidos e profissionais disponíveis em quase todas as esquinas. A burocracia talvez seja a única força mais persistente do que John Wick.

A aposentadoria fica mais distante

A sequência preserva a simplicidade emocional do primeiro filme e expande o mundo ao redor do protagonista. John deseja voltar para casa, cuidar do cachorro e permanecer longe das armas. Santino usa uma promessa antiga para impedir esse retorno. Winston protege as normas do Continental, enquanto Cassian e Ares cumprem deveres que os colocam no caminho do assassino.

“John Wick: Um Novo Dia para Matar” entrega uma história de ação bem organizada, inventiva e consciente do próprio exagero. Keanu Reeves mantém o personagem humano por meio do silêncio, da exaustão e da insistência em buscar uma vida que parece cada vez mais distante. Ao tentar encerrar uma dívida, John descobre que o submundo não arquiva facilmente os serviços de seus melhores profissionais. Cada porta atravessada abre outra cobrança, e o caminho de volta para casa fica ainda mais estreito.


Filme: John Wick: Um Novo Dia para Matar
Diretor: Chad Stahelski
Ano: 2017
Gênero: Ação/Crime/Suspense
Avaliação: 4/5 1 1
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